A mudança de status do Manchester City, 10 anos após ser vendido

De ‘primo pobre’ de Manchester a um dos grandes da Inglaterra, time administrado por grupo árabe foi o que mais gastou em contratações nos últimos oito anos

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    Temas

    Os R$ 96 milhões investidos na compra do brasileiro Robinho, então no Real Madrid, marcavam um novo momento no Manchester City. No último dia da janela de transferências da temporada 2008/2009, o clube inglês fez a maior transferência de sua história e, ao mesmo tempo, tornou o atacante revelado no Santos o jogador mais caro, até então, a assinar com um clube de futebol da Inglaterra.

    O valor pago por Robinho não condizia, à época, com a projeção do time azul de Manchester. “Um ano antes, era normal que o valor do time inteiro fosse esse”, disse Bernard Halford, então presidente do clube, em entrevista ao jornal britânico The Guardian.

    O City não fazia frente ao rival da mesma cidade, o Manchester United, havia décadas, e não alcançava destaque nacional desde o fim dos anos 1960. Afundado em dívidas, com um centro de treinamento precário e campanhas irregulares na primeira divisão nacional, a equipe parecia tentar esboçar uma reação após ser vendida para o bilionário ex-primeiro ministro da Tailândia, Thaksin Shinawatra.

    O pacote de reforços preparado pela gestão de Shinawatra, que já havia trazido ao clube nomes como os também brasileiros Jô e Elano e o ex-técnico da seleção inglesa Sven-Goran Eriksson, contudo, não decolou de imediato. Cerca de 14 meses após gastar £ 81 milhões, o político tailandês aceitou uma oferta de £ 210 milhões (cerca de R$ 600 milhões, à época) pela venda do clube.

    £ 210 milhões

    Foi o preço que Mansour bin Zayed al-Nahyan  pagou pelo City, em 2008

    A mudança de comando, iniciada em 1º setembro de 2008 e concluída no dia 23 do mesmo mês, passava o City às mãos do Adug (Abu Dhabi United Group), fundo de investimentos árabe controlado pelo xeque Mansour bin Zayed al-Nahyan. Ele é integrante da família real de Abu Dhabi e meio-irmão de Khalifa bin Zayed al-Nahyan, chefe de Estado dos Emirados Árabes.

    Além de liquidar todas as dívidas do time, o início da gestão árabe inaugurou um dos períodos mais vitoriosos do futebol mundial nos últimos anos - tanto esportivamente como fora dos gramados.

     

    Guiada por um ousado aporte financeiro, a mudança foi capaz de encerrar o jejum de títulos que durava 35 anos, fez o clube voltar a figurar entre os grandes da Inglaterra e assumir novas pretensões internacionais.

    A conta, porém, não foi nada barata: nas últimas oito temporadas, período que coincide ao início do momento mais vitorioso da história do Manchester City, nenhum outro clube do planeta gastou tanto com reforços.

    Entre 2010 e 2018, foram empregados, ao todo, € 1,47 bilhão (cerca de R$ 7 bilhões) para a compra de novos jogadores, segundo relatório do Observatório de futebol do Cies (Centro Internacional de Estudos de Esporte) divulgado em setembro de 2018.

    Títulos do Manchester City, de sua fundação (1880) até 2008

    Taça das Taças

    1970

    Primeira Divisão

    1936/1937, 1967/1968

    Segunda divisão

    2001/2002

    Terceira divisão

    1898/1899, 1902/1903, 1909/1910, 1927/1928, 1946/1947, 1965/1966

    FA Cup (Copa da Inglaterra)

    1904, 1934, 1956, 1969

    Copa da Liga Inglesa

    1970, 1976

    O alto investimento

    Para alcançar a marca de sete títulos em uma década, a gestão esportiva do clube focou na contratação de jogadores de renome, vindos, sobretudo, das principais ligas europeias.

    Junto à chegada de Robinho em 2008, por exemplo, estavam as compras do zagueiro belga Vincent Kompany e do argentino Pablo Zabaleta, dois dos principais nomes da defesa do City nos últimos anos. Com a chegada do atacante Carlos Tévez (por £ 25,5 milhões), na janela da temporada 2009/2010, o time responsável pelo início das conquistas começa a se formar em 2010/2011.

    Tanto o marfinense Yaya Touré, vindo do Barcelona por £ 25 milhões, quanto o espanhol David Silva, que permanece na equipe até hoje, chegaram em 2010 e se consolidaram como peças importantes na conquista da Copa da Liga Inglesa, título que o City não conquistava desde 1976.

    Atletas como os atacantes Mario Balotelli e Edin Dzeko, que juntos custaram £ 55,5 milhões aos cofres do time de Manchester, vivem alguns de seus principais momentos da carreira e, juntos a Aleksandar Kolarov (£ 19 milhões) e James Milner (£ 16 milhões), formam a base do time que venceria a Premier League de forma inédita em 2011/2012.

     

    75

    É o número de jogadores comprados pelo City nos últimos dez anos

    Sob o comando do italiano Roberto Mancini, o primeiro título do City na primeira divisão inglesa em 44 anos passa pelos pés do atacante Sergio Agüero. Maior artilheiro da história do clube, o argentino é considerado um dos principais reforços dos últimos anos.

    Coube a Agüero assinar o gol que escreveu o nome do time azul de Manchester no rol de campeões da Premier League, nome que a primeira divisão inglesa adota desde 1992. A conquista é considerada a mais marcante da história recente do clube, por sinalizar o início de um momento mais competitivo. Você pode assistir aos minutos finais da partida no vídeo abaixo.

     

    Títulos do Manchester City, de 2008 até 2018

    Campeonato inglês

    2011/2012

    2013/2014

    2017/2018

    Copa da Liga Inglesa

    2013/2014

    2015/2016

    2017/2018

    FA Cup (Copa da Inglaterra)

    2010/2011

    Após os primeiros resultados dentro de campo, aspectos como a infraestrutura do clube também passaram a ser foco de investimentos. Além da expansão do estádio City of Manchester, rebatizado Etihad Stadium, o City ganhou um novo complexo esportivo em 2014. A construção de um moderno centro de treinamento, orçado em R$ 750 milhões, surge também como tentativa de fortalecer a política interna de formação de atletas. Revelar jogadores e não só comprá-los, meta perseguida por clubes de expressão do mundo todo, vem dando os primeiros frutos no time inglês. Atualmente, dois jovens jogadores revelados das categorias de base do clube de Manchester já despontam como principais promessas: o inglês Phil Phoden, de 18 anos, e espanhol Brahim Díaz, de 19.

    A era Guardiola

    A chegada de Pep Guardiola ao City foi um dos principais investimentos do clube inglês na afirmação como potência europeia. Multicampeão, tem 24 títulos ao longo de dez anos como treinador, com destaque para as duas conquistas de Liga dos Campeões, à frente do Barcelona.

    Após uma temporada de adaptação em 2016-2017, o segundo ano do técnico espanhol à frente do clube entrou para a história: pela primeira vez um time da Premier League chegou a marca dos 100 pontos. Foram 32 vitórias em 38 jogos e 106 gols em 2017/2018.

    Para impor seu estilo de jogo de posse de bola e extrema eficiência ofensiva, Guardiola solicitou um pacote de reforços. Abaixo, estão destacados os nomes mais caros do período.

    2016/2017

    John Stones, zagueiro (£ 47,5 milhões)

    Leroy Sané, meio-campo (£ 37 milhões)

    2017/2018

    Aymeric Laporte, zagueiro (£ 58 milhões)

    Kyle Walker, lateral (£ 53 milhões)

    Benjamin Mendy, lateral (£ 52 milhões)

    Bernardo Silva, meio-campo (£ 43,5 milhões)

    2018/2019

    Riyad Mahrez, meio-campo (£ 60 milhões) 

    Nesta lista, elaborada pelo jornal britânico The Guardian, há todas as transferências feitas nos dez anos de gestão árabe no Manchester City.

    16

    É o número de atletas do Manchester City que disputaram a Copa de 2018

     

    R$ 723 milhões

    É o gasto anual com salários dos atletas no atual elenco, segundo o site Spotrac

    O retorno financeiro

    Com valor de mercado de US$ 2,47 bilhões (R$ 10,25 bilhões), o Manchester City é atualmente o quinto time de futebol mais valioso do mundo, segundo ranking divulgado pela revista americana Forbes em 2018. O valor representa alta de 19% em comparação ao ano anterior. Autossuficiente como negócio desde a temporada 2014/2015, o clube inglês deu lucro para seus investidores.

    Segundo dados da Sportcal, agência de inteligência esportiva, o Manchester City arrecadou mais de US$ 417 milhões (R$ 1,73 bilhões) com patrocinadores desde a compra pelo xeque Mansour, em setembro de 2008.

    Entre cotas de televisão de diferentes campeonatos e a premiação em dinheiro para os vencedores, estima-se uma movimentação total de £ 300 milhões. Ao longo da temporada 2016/2017, o City arrecadou US$ 258 milhões em receita de transmissão, o maior valor registrado entre os times de futebol ingleses.

    US$ 133 milhões

    É o lucro operacional atual do Manchester City, de acordo com a Forbes

    Uma marca global

    A expansão do clube para outras parte do mundo, estimulada nos últimos anos, sinaliza um uso político do potencial esportivo do time inglês. Sob essa ótica, a expansão do City serve também à projeção internacional dos Emirados Árabes por meio do esporte.

    O City Football Group, que hoje reúne seis equipes por todo o mundo, tem representações em Nova York (New York City FC) e Melbourne (Melbourne City FC). São mantidos também o Girona, da Espanha, Yokohama F. Marinos, no Japão, e o time uruguaio Atlético Torque.

    Além disso, o grupo criou programas de desenvolvimento de atletas em Singapura, China e Oriente Médio. A ideia é que, vasculhando talentos em locais onde o futebol não é tão desenvolvido, o Manchester City possa ser conhecido também como marca, expandindo sua influência em mercados promissores.

    O que ainda falta ao Manchester City

    Internacionalmente, o principal título do clube é a extinta Copa dos Campeões da Europa de 1970. Após um hiato de mais de quatro décadas, o City voltou a disputar a Champions League na temporada 2011. Desde então, não deixou mais de participar. Ainda assim, o melhor resultado foi ter chegado às semifinais, na temporada 2015-2016.

    Para que o poderio econômico da equipe inglesa se reflita também em relevância esportiva, a conquista da mais importante competição europeia ainda é o principal objetivo.

    “Se fosse para dar uma resposta sucinta, lhe diria que sim, devemos vencê-la nos próximos dez anos - com certeza antes e não depois disso”, disse Khaldoon Al Mubarak, presidente do conselho financeiro do Manchester City, em entrevista à ESPN. “Mas é difícil.”

    “Levou quase 50 anos para o Barcelona ganhar seu primeiro título na Champions League - uma competição muito difícil, ainda mais para as equipes inglesas, que jogam a Premier League. Temos a desvantagem de ter que disputar um jogo absurdamente difícil a cada fim de semana.”

    Khaldoon Al Mubarak,

    presidente do conselho financeiro do Manchester City, em entrevista à ESPN

    A terceira tentativa de Guardiola à frente do City na Champions League tem início no dia 19 de setembro, contra o Lyon. Além da equipe francesa, o grupo do clube inglês na competição é formado pelo  Hoffenheim, da Alemanha, e Shakhtar Donetsk, da Ucrânia. 

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