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A penalização contra Serena Williams. E as reações ao caso

Tenista americana perdeu para a jovem Naomi Osaka, foi multada por violações de código e acusou árbitro de sexismo na final do Aberto dos EUA

    As tenistas Serena Williams e Naomi Osaka disputaram, no sábado (8), a final do torneio Aberto dos Estados Unidos em Nova York. A competição faz parte do Grand Slam, conjunto de quatro torneios que formam os eventos mais importantes do ano para a modalidade.

    A vitória por dois sets a zero de Osaka, de apenas 20 anos, não foi o fato de maior repercussão da partida. Ganhou maior destaque a acusação de sexismo da adversária contra o árbitro português Carlos Ramos.

    Williams se sentiu prejudicada pela arbitragem de Ramos, por quem foi penalizada com a perda de um game (uma partida de tênis se divide em sets e os sets se dividem em games) no segundo set, que acabou sendo decisivo para sua derrota.

    A tenista quebrou sua raquete contra o piso da quadra, exigiu desculpas do juiz e o chamou de mentiroso e ladrão, perguntando como ele ousava acusá-la de trapacear.

    Diante da confusão, com o jogo parado e em meio a vaias e aplausos da plateia, o responsável pela arbitragem do torneio, Brian Earley, e a diretora da WTA, que organiza o circuito feminino, entraram em quadra.  

    “Isso aconteceu comigo vezes demais. Não é justo” foi uma das frases ditas por Williams aos dois, argumentando que o tratamento dispensado a um tenista do sexo masculino não seria o mesmo, e que atletas homens da modalidade já fizeram muito pior.

    As três infrações ao código de conduta durante a final marcadas pelo árbitro também renderam à atleta uma multa de US$ 17 mil (cerca de R$ 70 mil).

    As violações de Williams, segundo o árbitro

    • receber instruções de seu treinador durante a partida
    • quebra de raquete (abuso de material)
    • abuso verbal

    Reações

    Steve Simon, presidente da Women’s Tennis Association (com a sigla WTA), apoiou a acusação de Williams contra o árbitro da final do torneio americano. Segundo ele, Ramos teria tido outro nível de tolerância às “explosões” da jogadora se ela fosse um homem.

    A WTA é a associação esportiva internacional responsável pela organização das competições de tênis profissionais femininas no mundo inteiro.

    No Twitter, a ex-tenista americana e pioneira na defesa da igualdade de gênero no esporte, Billie Jean King, falou sobre o critério dúbio aplicado a homens e mulheres.

    “Quando uma mulher age por emoção, ela é ‘histérica’ e é penalizada por isso. Quando um homem faz o mesmo, ele está ‘indignado’ [‘outspoken’, em inglês] e não há repercussões. Obrigada, @serenawilliams, por chamar atenção para esse parâmetro ambíguo. É preciso que mais vozes façam o mesmo”

    Billie Jean King

    Ex-tenista

    Outros, entre espectadores, profissionais ligados ao tênis e entidades, não concordaram com a legitimidade da acusação de Serena Williams.

    A Federação Internacional de Tênis afirmou que Carlos Ramos agiu com profissionalismo e integridade.

    E há aqueles que, mesmo concordando com a vigência da desigualdade de gênero no tênis, acreditam que faltou a ela espírito esportivo para não ofuscar Osaka em uma merecida vitória, como é o caso da repórter Juliet Macur, que defende esse ponto de vista em uma reportagem publicada pelo jornal americano The New York Times.

    Após a partida, o tabloide australiano Herald Sun publicou uma charge do cartunista Mark Knight que se tornou viral e tem sido criticada por seu teor racista.

    A imagem retrata Williams com traços físicos exacerbados, pulando sobre sua raquete como uma criança birrenta. Ao fundo, o árbitro pergunta a Osaka se ela não poderia deixar a tenista americana vencer. A nipo-haitiana foi representada como uma mulher branca de cabelos loiros.

    Pelos comentários nas redes sociais, uma das principais razões para o incômodo com o cartum é que ele reproduz o estereótipo da “angry black woman” (mulher negra raivosa, em tradução livre), associando-o à figura de Williams.

    Antecedentes

    Em 2009, nas semifinais do mesmo Aberto dos EUA, Williams também foi multada por quebrar sua raquete e ameaçar a juíza de linha da partida.

    Considerada uma das maiores tenistas em atividade, vencedora de 23 torneios de Grand Slam, Williams lida rotineiramente com ofensas.

    Desde sua estreia profissional em 1995, a tenista enfrenta a sexualização e ofensas machistas e racistas da parte de espectadores, da imprensa e mesmo de outras atletas da modalidade, como a “imitação” das formas de Williams feita pela dinamarquesa Caroline Wozniacki em 2012.

    Wozniacki colocou toalhas por baixo da blusa e da saia para aumentar o tamanho dos seios e nádegas, ridicularizando as curvas da americana.

    Um vídeo de 2015 feito pela Vox recapitula alguns dos ataques feitos a Williams.

    Em maio de 2018, ela retornou ao esporte após ter se ausentado no ano anterior devido à licença-maternidade.

    Em agosto do mesmo ano, durante o Aberto da França, também parte do Grand Slam, Williams usou o traje “Pantera Negra”, um macacão preto feito pela Nike especialmente para a atleta. A roupa foi declarada inadequada por autoridades da competição.

    Além de lhe conferir uma aparência de “super-heroína”, o modelo melhorava a circulação sanguínea da atleta, ajudando-a na recuperação de sua forma física após o parto de sua filha.

    Ao lado da irmã, Venus Williams, também tenista e mundialmente famosa, Serena defende ativamente os direitos das mulheres e dos negros.

    Venus foi a principal defensora para que o torneio mais prestigiado do tênis, Wimbledon, enfim igualasse as premiações entre homens e mulheres, o que aconteceu somente em 2007. Foi o último Grand Slam a fazê-lo, 44 anos depois do Aberto dos EUA.

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