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O que são sambaquis. E a descoberta de um esqueleto em SC

Registro mais recente de um povo pré-histórico ainda hoje intriga estudiosos. Escavações acontecem na área da bacia do Rio Tavares

 

Uma ossada milenar quase inteira e bastante preservada foi localizada em um sítio arqueológico de Florianópolis, em 29 de agosto de 2018. Descoberto pelo pesquisador Osvaldo Paulino da Silva, que coordena o trabalho e trabalhava nas escavações, o esqueleto ancestral deve ser datado de cerca de 3.000 anos (ou 1.000 a.C.), segundo análises preliminares. 

As escavações próximas à construção do Elevado do Rio Tavares, no sul da ilha catarinense, ocorrem desde 2015 e devem terminar no início de setembro 2018, afirmou Silva ao Nexo, caso a equipe de pesquisadores não encontre mais nenhum vestígio de novos corpos. Obrigatória por lei pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), esta era a terceira fase de pesquisas de campo.

Toda a região da bacia do Rio Tavares, incluindo o aeroporto Hercílio Luz, é um conhecido território de sambaquis ou concheiros, formações geológicas de importância histórica e arqueológica, resultado da ação humana. O sambaqui onde a ossada foi encontrada tem cerca de 60 m². Além do esqueleto praticamente íntegro foram encontrados vestígios de mais dois corpos, lascas de material lítico decorrentes da produção de instrumentos de pedra, restos de alimentos como conchas de moluscos, ossos de peixe e de mamíferos terrestres e aquáticos - foi encontrada até mesmo uma ossada de golfinho.

Silva contou ao Nexo que o sambaqui mais alto encontrado em Santa Catarina possuía cerca de 35 metros, e que esse, recentemente descoberto, pode ter tamanho aproximado, mas é muito cedo para dizer. “O tamanho da base indica ser [um sambaqui] alto”, afirmou. A dificuldade em determinar suas dimensões de forma mais precisa se dá também pelo fato de a região ser densamente ocupada, cercada de residências e comércio, o que possivelmente deve ter alterado o sítio arqueológico original.

O mais antigo sambaqui já encontrado na região tem cerca de 5.020 anos, e está localizado em um distrito de São João do Rio Vermelho, no leste catarinense. O mais novo data de 1.500 anos. “Ou seja, eles começaram a ocupar a região há mais ou menos 5.000 anos e viveram até 1.500 anos atrás. Depois esse grupo indígena pré-histórico desapareceu”, acrescenta Silva.

Os registros arqueológicos

Sambaquis são os únicos registros da existência de um povo pré-histórico que dominou o litoral brasileiro, principalmente entre Espírito Santo e Rio Grande do Sul.

São estruturas compostas de conchas, ossos de animais, lâminas e até esqueletos de pessoas, encontradas em praias ou na foz de rios, podendo chegar a até 50 metros de altura. Especialistas acreditam que estes povos dominaram a região por pelo menos 6 mil anos, e depois desapareceram.

Em conversa com o Nexo, o professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP André Menezes Strauss explicou que o povoado, chamado coloquialmente de sambaquieiros, viviam em grandes grupos, “verdadeiros centros urbanos, comparáveis a Atenas”. Vestígios deixados pelos sambaquieiros datam entre 1.000 e 7.000 anos atrás. 

Até hoje não se sabe o que fez esse povoado desaparecer. “Um grupo que existiu durante tanto tempo em uma região tão vasta, e não sabemos se era uma população só, como é que funcionou ao longo desse período.” Sabe-se que, há cerca de 2.000 anos, os seres humanos ligados aos sambaquis formavam uma sociedade com milhares de pessoas. Há provas físicas desse ajuntamento: há sambaquis com 100 mil esqueletos dentro, “gigantescos monumentos funerários”, afirma Strauss.

As informações reunidas até o momento caracterizam essa população como sedentária, com uma alimentação baseada principalmente em recursos marinhos. Não faziam uso de cerâmica e não produziam alimentos em larga escala através da agricultura. Uma das teorias credita o colapso dessa sociedade ao esgotamento de recursos naturais, em especial dos bancos de moluscos que essa população usava como fonte principal de alimentação.

Strauss afirma que outra teoria pode justificar o fim da cultura sambaquieira -- a expansão dos povos Tupi, que em torno do ano 1.000 vieram da Amazônia e possivelmente os substituíram. “Mas não se sabe como foi esse processo, se foi violento, se foi um processo de negociação. O fato é que há 1.000 anos, essa população que dominou a costa brasileira por milhares de anos desapareceu.”

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