Atentado na eleição: a parte da política que inflama o debate

Nas redes sociais houve desinformação. Nas declarações públicas, adversários de Bolsonaro na corrida presidencial condenaram o atentado, mas outros nomes da campanha apostaram na polarização

     

    O atentado contra a vida do candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro, ocorrido na tarde de quinta-feira (6) em Juiz de Fora, desencadeou uma onda de desinformação na internet.

    Bolsonaro foi esfaqueado enquanto fazia um ato de campanha no centro da cidade mineira. O ferimento no abdômen foi grave, mas o estado do capitão da reserva agora é estável. Ele passou por uma cirurgia e foi transferido para São Paulo, onde está internado no Hospital Albert Einstein.

    Duas linhas principais de boatos se espalharam. A primeira culpava a esquerda pelo ocorrido e tentava associar o agressor ao PT. A segunda dizia que o ataque era falso, uma armação.

    Os adversários de Bolsonaro na corrida presidencial divulgaram notas condenando o atentado e se solidarizando com o candidato do PSL. Outros líderes relevantes do país fizeram o mesmo. Mas alguns políticos, que também vão disputar cargos nas eleições de 7 de outubro, inflamaram o debate.

    Um contexto pré-atentado

    Bolsonaro é líder nas pesquisas de intenção de voto no cenário sem Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. O ex-presidente teve o registro de candidatura negado pelo Tribunal Superior Eleitoral em razão da Lei da Ficha Limpa.

     

    Lula está preso por corrupção e lavagem de dinheiro no caso tríplex, condição penal que o torna inelegível. Apesar de ainda buscar recursos no Supremo Tribunal Federal, é iminente sua substituição pelo vice Fernando Haddad. O prazo dado pelo TSE é terça-feira (11).

     

    Bolsonaro representa um eleitorado conservador, em geral de extrema direita, com um forte viés antipetista. Tem um discurso radical, que por um lado o ajuda a manter seguidores fiéis mas por outro causa uma forte rejeição.

     

    As declarações que inflamam o debate

    Ainda na tarde de quinta-feira (6), momentos após Bolsonaro sofrer a facada em Juiz de Fora, seu candidato a vice-presidente, o general da reserva Hamilton Mourão, concedeu uma entrevista à revista Crusoé na qual afirmou:

    “Eu não acho, eu tenho certeza: o autor do atentado é do PT”

    Hamilton Mourão

    general da reserva e candidato a vice na chapa de Bolsonaro

     

    Candidata a deputada estadual pelo PSL em São Paulo, Janaina Paschoal, uma das autoras do pedido que levou ao impeachment de Dilma Rousseff em 2016, falou com a imprensa em frente ao Hospital Albert Einstein sexta-feira (7). O portal UOL relatou a entrevista:

    “Quem cometeu o ato de violência, quem cometeu o crime foi gente do lado deles, e isso ninguém mostra”

    Janaina Paschoal

    candidata a deputada estadual do PSL

    Uma imagem, em particular, circulou em redes sociais de políticos. Trata-se de uma montagem em que o rosto do agressor de Bolsonaro foi inserido numa foto em que apoiadores estão ao redor de Lula.

    O senador Magno Malta (PR-ES), que concorre à reeleição, postou a montagem e escreveu: “Olha em que time joga o marginal”. O parlamentar excluiu a mensagem assim que foi avisado da manipulação.

    Do lado de quem associa o atentado à vida de Bolsonaro a uma armação, Nivaldo Orlandi, candidato ao Senado em São Paulo pelo PCO, um partido de extrema esquerda, deu a seguinte declaração ao jornal Folha de S.Paulo na sexta-feira (7):

    “Ninguém viu sangue nenhum. Vimos um grande chororô da imprensa, das lideranças ditas democráticas. Agora, esse anjinho fascista, será que ele merece nossa solidariedade?”

    Nivaldo Orlandi

    candidato do PCO ao Senado

     

    As informações sobre o agressor

    Preso logo em seguida ao atentado, Adelio Bispo de Oliveira tem 40 anos e nasceu em Montes Claros, em Minas. Ele disse em depoimento à Polícia Federal que agiu a “mando de Deus”.

    Oliveira foi filiado ao PSOL entre 2007 e 2014. “Repudiamos toda e qualquer ação de ódio. Cobramos investigação sobre o ataque contra o candidato do PSL. Esperamos das autoridades as medidas cabíveis contra seu autor”, disse a direção do PSOL mineiro em nota.

     

    Nas redes sociais, o agressor costumava fazer postagens que misturavam críticas a políticos, entre eles Bolsonaro, e teorias da conspiração envolvendo a maçonaria. Em depoimento depois de preso, classificou a si mesmo como alguém da “esquerda moderada” e disse ter agido sozinho, sem “auxílio de ninguém”.

     

    A defesa pediu, em audiência na quinta-feira (6), que Oliveira seja submetido a uma avaliação de insanidade mental, segundo relato do jornal o Estado de S. Paulo. Em relatos anteriores, parentes já apontavam para um possível desequilíbrio do agressor.

     

    As informações sobre o ferimento

    Quem disse se tratar de um atentado armado citou recorrentemente o fato de não ter havido sangue na hora do ataque. “Ferimento a faca não é como nos filmes (...) Não costuma ficar jorrando sangue para fora do corpo”, disse à BBC Brasil o médico Marco Felipe Ariette, cirurgião do aparelho digestivo do Hospital Militar em São Paulo e do Albert Einstein.

     

    Bolsonaro sofreu uma lesão em uma veia do abdômen e teve o intestino perfurado. “É grave. Foi atendido rapidamente e foi operado rapidamente. Os riscos que ele passa a correr são os de a veia voltar abrir, além das infecções”, disse ao G1 o cirurgião Flávio Quilici, presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia.

     

    Segundo o boletim médico divulgado na tarde de sexta-feira (7), Bolsonaro “está internado na UTI, onde realizou exames laboratoriais e de imagem e foi avaliado por equipe multiprofissional”.

     

    A questão do discurso do candidato

    No dia 27 de março de 2018, ônibus da caravana de Lula que passavam pelo Paraná, durante o período de pré-campanha, foram alvo de disparos de armas de fogo. Ganchos pontiagudos foram jogados na estrada e furaram o pneu de um dos veículos.

     

    À época, Geraldo Alckmin, então governador de São Paulo e pré-candidato do PSDB à Presidência, deu a seguinte declaração registrada pelo jornal Folha de S.Paulo:

    “Acho que eles estão colhendo o que plantaram”

    Geraldo Alckmin

    candidato do PSDB à Presidência

     

    João Doria, então prefeito de São Paulo prestes a deixar o cargo para concorrer ao governo do estado, afirmou que “o PT sempre utilizou da violência, agora sofreu da própria violência”. Até hoje, a polícia não sabe quem foram os autores dos disparos contra os ônibus da caravana de Lula.

     

    No caso do atentado a Bolsonaro, Dilma Rousseff, ex-presidente que sofreu um impeachment em 2016 e agora é candidata ao Senado pelo PT de Minas, afirmou o seguinte à imprensa, na quinta-feira (6):

    “Eu acho lamentável [o atentado]. Agora, acho que incentivar o ódio cria esse tipo de atitude. Você entende? Você não pode falar que vai matar ninguém. Não pode fazer isso, principalmente um candidato à Presidência”

    Dilma Rousseff

    candidata do PT ao Senado

    A frase de Dilma se refere a um episódio ocorrido no Acre, dois dias antes do atentado a Bolsonaro. O candidato do PSL estava em um palanque, segurou um tripé de câmera de TV, simulando estar com uma arma na mão. E então discursou:

    “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre, hein? Vamos botar esses picaretas para correr do Acre”

    Jair Bolsonaro

    candidato do PSL à Presidência

     

    Luiz Marinho, candidato do PT ao governo do estado de São Paulo, deu a seguinte declaração ao jornal Folha de S.Paulo, na sexta-feira (7):

    “Repudiamos qualquer ato de violência. Agora, preciso registrar que a pregação ao ódio pode motivar qualquer maluco”

    Luiz Marinho

    candidato do PT ao governo de São Paulo

     

    O discurso extremado de Bolsonaro, que inclui a defesa da ditadura militar (1964-1985) e de torturadores do regime, é alvo de constantes análises. A figura do candidato do PSL é associada recorrentemente a um risco à democracia.

     

    Na tarde de sexta-feira (7), o general da reserva Augusto Heleno, que comandou as tropas da missão das Nações Unidas no Haiti e chegou a ser cogitado como vice de Bolsonaro, culpou a imprensa pela facada sofrida pelo candidato:

    “O bárbaro atentado sofrido por Jair Bolsonaro é o desfecho de uma campanha diária, obstinada, que parte da imprensa desencadeou contra ele (...) É um radical irresponsável [o agressor de Bolsonaro], fiel a seus ideais marxistas”

    Augusto Heleno

    general da reserva

     

    Em entrevista ao Nexo publicada na quinta-feira (6), o professor de ciência política na USP Glauco Peres da Silva previu uma exacerbação inicial, mas propôs uma saída para a radicalização brasileira:

    “A consequência imediata é aumentar ainda mais o clima de tensão. Mas esse momento traz consigo também mais uma oportunidade de toda a classe política se unir para dizer que isso é inaceitável, que não é legítimo. É uma tremenda oportunidade para todos os candidatos pedirem calma e dizerem que ninguém vai ganhar nada com violência”

    Glauco Peres da Silva

    professor de ciência política na USP

     

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