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Como o atentado a Bolsonaro impacta uma eleição já incerta

Candidato do PSL levou uma facada em ato de campanha em Juiz de Fora. Ele foi transferido para São Paulo e está ‘consciente e em boas condições clínicas’, segundo o hospital

     

     

     

    O atentado contra Jair Bolsonaro acrescentou mais uma camada de dramaticidade a uma eleição presidencial que já se mostrava atípica. O candidato do PSL foi atacado com uma facada no abdome durante um ato de campanha na quinta-feira (6) em Juiz de Fora, Minas Gerais. O capitão da reserva, de 63 anos, passou por uma cirurgia e depois foi transferido para São Paulo. Ele está “consciente e em boas condições clínicas”, segundo o Hospital Albert Einstein, onde está internado.

     

    O homem apontado como autor do crime está preso em Minas. Adelio Bispo de Oliveira, de 40 anos, é da cidade de Montes Claros. Ele disse à polícia que agiu “a mando de Deus”. Aparentemente transtornado, Oliveira vinha fazendo publicações repletas de contradições e críticas difusas em seu perfil no Facebook. Além de maçonaria e Michel Temer, citava com frequência Bolsonaro. A Polícia Federal investiga o caso.

     

    Trata-se de um episódio que, além de grave, desafia a democracia brasileira. E que terá consequências em uma disputa presidencial cujo início oficial ocorreu em 16 de agosto e caminha agora para seu mês final, com votação de primeiro turno prevista para 7 de outubro de 2018.

     

    Os possíveis impactos eleitorais na campanha foram mencionados, a princípio, no próprio círculo de Bolsonaro. Seu filho Flávio, deputado estadual e candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro, deu a seguinte declaração na quinta-feira (6), diante de apoiadores que estavam na frente do hospital em Minas:

    “Um recado para esses bandidos que tentam arruinar a vida de um cara que é pai de família, que é esperança para todos os brasileiros: vocês acabaram de eleger o presidente. Vai ser no primeiro turno”

    Flávio Bolsonaro

    deputado estadual e candidato a senador no Rio

     

    Nesta sexta-feira (7), o senador Magno Malta (PR-PR) divulgou um vídeo gravado ainda no hospital de Minas, no qual Bolsonaro relata o que sentiu ao ser atingido pela faca. A coordenação do comitê do candidato ainda analisa o que fazer, mas tudo dependerá do processo de recuperação de Bolsonaro. Os atos de campanha de rua, no entanto, estão comprometidos.

    Segundo a assessoria de imprensa do Hospital Albert Einstein, a previsão é de que Bolsonaro continue internado por um período de sete a dez dias. Por isso, não vai comparecer ao debate da TV Gazeta, previsto para este domingo (9).

    Bolsonaro é líder nas pesquisas de intenção de voto nos cenários sem Luiz Inácio Lula da Silva. O ex-presidente da República foi barrado pela Lei da Ficha Limpa e está na iminência de ser substituído pelo vice, Fernando Haddad. Lula tem uma ampla vantagem sobre os adversários, mas teve o registro de candidatura negado pelo Tribunal Superior Eleitoral e está preso em Curitiba por corrupção e lavagem de dinheiro, no caso tríplex, da Operação Lava Jato. O líder petista se diz perseguido e questiona a legitimidade de seu processo judicial.

    A ausência de Lula nas pesquisas faz com que o índice de intenção de votos em branco, nulo e de quem diz não saber ou não ter candidato supere, inclusive, o patamar atingido até aqui por Bolsonaro. O atentado a faca contra o capitão da reserva acentua esse cenário de incerteza.

    Para tentar entender o que vem pela frente nesta tumultuada campanha, o Nexo ouviu dois cientistas políticos. São eles:

     

    • Lara Mesquita, professora de ciência política da FGV-SP
    • Carlos Pereira, professor de ciência política da FGV-RJ

     

    O que esperar agora de uma eleição em que o candidato preferido do eleitor está preso e barrado e o segundo preferido está em uma cama de hospital, alvo de um atentado?

    Lara Mesquita Ainda é muito cedo para saber o que esperar da eleição diante do novo contexto. O mais óbvio é que a eleição deixa de ser centrada na presença ou ausência de Lula e na decisão do PT sobre sua candidatura e passa a girar em torno do atentado sofrido pelo candidato Jair Bolsonaro.

    Carlos Pereira Lula e Bolsonaro são dois mártires. Um está na prisão e outro, agora, está no hospital. Isso tudo é uma tragédia. Uma das possibilidades é que ocorra o voto estratégico já no primeiro turno. Normalmente, na literatura que fala a respeito de voto útil e do voto sincero, argumenta-se que, em eleições em dois turnos, o eleitor vota sinceramente no primeiro turno. E, se o candidato preferido por ele no primeiro turno não passa para o segundo, o eleitor então ajusta essa preferência e vota estrategicamente no segundo turno. Vota no menos ruim. O que prevejo com o atentado é o aumento da incerteza em função disso. A ponto de fazer com que os eleitores se vejam obrigados a procurar candidatos úteis já no primeiro turno. Em vez de o atentado lançar vantagens a Bolsonaro, acaba jogando mais incertezas na disputa.

     

    Flávio, um dos filhos de Bolsonaro, disse depois do ataque: ‘acabaram de eleger um presidente’. As chances do candidato cresceram ou não há influência?

    Lara Mesquita Não tem como saber se a grande comoção em torno do candidato pode ter como consequência a queda da rejeição ao candidato [o Ibope mostrou que Bolsonaro tem a maior taxa de rejeição entre os competidores], ou se impactará em aumento nas intenções de voto. O que sabemos é que a exposição do candidato aumentou.

    Carlos Pereira  É muito cedo para dizer isso. Obviamente é natural que o filho de Bolsonaro e o próprio candidato utilizem politicamente o episódio. Mas  é muito cedo para fazer qualquer conclusão. Não sabemos como o eleitor de Bolsonaro vai reagir a isso. É natural que o eleitor mais próximo a ele reforce seu voto. Mas existe uma franja de eleitores potenciais dele que tanto pode se sensibilizar quanto não. Temos quatro semanas até o primeiro turno das eleições e muita coisa pode acontecer. Dizer hoje que Bolsonaro será vitorioso é peça de retórica. O grau de rejeição dele é muito alto, especialmente entre mulheres. Existe uma barreira grande a Bolsonaro que as pesquisas sinalizam e que mostra que o candidato que for com ele para o segundo turno venceria. É precipitado falar que isso vai catapultar Bolsonaro na disputa. E acho improvável que isso aconteça.

    O que muda na estratégia dos candidatos? O tucano Geraldo Alckmin, por exemplo, vinha atacando abertamente Bolsonaro. Isso deve mudar?

    Lara Mesquita Os demais candidatos deverão rever suas estratégias de campanha, uma vez que não há mais clima para ataques ao candidato, como a campanha de Alckmin vinha fazendo, por exemplo.

    Carlos Pereira No curto prazo, sim. Não é recomendável que Alckmin continue na mesma toada. Mas, logo em seguida, a campanha negativa vai retornar, porque Alckmin não tem muitas alternativas. O tucano tem que fazer campanha negativa contra Bolsonaro e também contra o PT. O que ele deve fazer agora é aproveitar esse momento que não vai atacar Bolsonaro para atacar o PT. É natural que Alckmin continue utilizando os recursos que têm para fazer campanha negativa. E é completamente legítimo. Todos os demais candidatos também vão esperar ver as reações de Bolsonaro nos próximos dias antes de definirem suas estratégias.

     

    Bolsonaro, agora, ficará um tempo internado, sem ir a debates de TV e sem participar de outros eventos. Qual o efeito para sua campanha?

    Lara Mesquita Ainda é cedo para avaliar qual será a estratégia adotada pela campanha de Bolsonaro. A princípio, todos os candidatos suspenderam suas agendas de campanha. Não há como dissociar a ausência do candidato de agendas de campanha do atentado sofrido, por isso é muito difícil mensurar o impacto que terá na campanha dele. Não há pesquisas na ciência política brasileira ou internacional que nos permitam fazer qualquer afirmação ou previsão sobre o impacto que terá na campanha dele.

    Carlos Pereira A estratégia clara que Bolsonaro vai utilizar é o da vitimização. Gravações de programas eleitorais no leito do hospital podem ajudá-lo nesse momento. Por outro lado, o atentado vai limitar sua participação em eventos de rua, em debates. No fim, acho que ele tentará priorizar as mídias sociais. A questão é que os outros candidatos também estão fazendo isso.

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