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Qual a relação entre o gênero de um político e a corrupção

No quarto texto da série sobre representatividade feminina nas eleições, o ‘Nexo’ detalha estudo sobre o impacto do gênero sobre as políticas postas em prática por prefeitos

 

Escassas nos cargos eletivos do país, mulheres deparam, algumas vezes, com o discurso de que sua maior participação na política teria o poder de moralizar, “purificar” ou até trazer uma qualidade maternal, de cuidado, ao exercício do poder.

O estudo “What happens when a woman wins an election? Evidence from close races in Brazil” (“O que acontece quando uma mulher ganha uma eleição? Dados de eleições acirradas no Brasil”, em tradução livre),   publicado em 2016, mostra que, de fato, a relação entre mulheres no poder e menos corrupção existe.

Mas não pelas razões apontadas pelo discurso de que mulheres são naturalmente menos corruptas.

Com menos financiadores de campanha, as candidatas estão menos comprometidas com interesses privados de doadores e têm menor probabilidade de se envolver em irregularidades administrativas.

Realizada por Fernanda Brollo, professora no Departamento de Economia da Universidade de Warwick, no Reino Unido, e Ugo Troiano, professor do Departamento de Economia da Universidade de Michigan, nos EUA, a pesquisa é anterior à proibição, decidida pelo STF, das doações empresariais para campanhas eleitorais, em vigor desde as eleições de 2016.

Como foi feita

Foram analisadas 723 eleições em que uma mulher enfrentou um homem nas eleições municipais brasileiras, de 2000 e 2004.

A amostra foi reduzida para cerca de 400 pleitos mais acirrados, nos quais um homem ou uma mulher foram eleitos por uma pequena margem de votos em relação ao segundo candidato mais votado, do sexo oposto.

Foram coletados, ainda, resultados de tentativas de reeleição e informações de auditorias federais sobre compras e contratos municipais, que contabilizam irregularidades.

Os dados foram colhidos entre 2008 e 2012 e provêm dos relatórios de auditoria da Controladoria-Geral da União.

O objetivo foi o de compreender se as mulheres fazem políticas públicas diferentes das dos homens quando estão no poder.

Quais os resultados

O estudo evidencia que prefeitas implantam mais políticas sociais, conseguem transferência maior de recursos federais e sofrem menos processos por fraude ou improbidade administrativa.

Ao tentar a reeleição no Brasil, prefeitos costumam contratar, durante o ano eleitoral, mais trabalhadores em contratos temporários em busca de apoio político durante a campanha.

Prefeitas mulheres contratam entre 10% e 13% menos trabalhadores com contratos temporários durante o ano eleitoral, em relação a seus homólogos masculinos.

O estudo indica que é menos provável que as prefeitas cometam irregularidades, incluindo práticas ilegais de contratação de serviços e obras públicas, que podem ser usadas pelos políticos para conceder contratos a empresas em troca de aportes para suas campanhas.

Municípios governados por prefeitas apresentam entre 29% e 35% menos chances de se envolverem em condutas corruptas.

De modo geral, as prefeitas conseguem melhores resultados que os prefeitos.

“Em um sistema em que a distribuição de recursos é, em grande medida, descentralizada, os municípios governados por prefeitas alcançaram ligeiramente melhores resultados na área da saúde, ao garantir que um número maior de mulheres obtenham acompanhamento pré-natal”, escreveu a pesquisadora Fernando Brollo, em um artigo para o blog do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

As prefeitas atraem 60% mais transferências do governo federal para investimentos em infraestrutura.

Ainda assim, recebem menos doações para suas campanhas. De acordo com o artigo de Brollo no blog do BID, os resultados sugerem que elas provavelmente se envolvem menos em esquemas ilegais em troca de apoio eleitoral.

Também pode estar relacionado a outros fatores, como a crença dos doadores de que as mulheres possuem menos chances de ser reeleitas.

Durante os períodos analisados, as prefeitas recebem entre 30% e 55% menos aportes para suas campanhas, e a probabilidade de serem reeleitas está cerca de 20% abaixo dos candidatos do sexo masculino.

“O que está claro é que nosso estudo segue a linha de outros estudos de todo o mundo que indicam, por um lado, que é menos provável que as mulheres políticas participem de atos de corrupção e, por outro, que elas realizam um melhor trabalho do que suas contrapartes masculinas ao proporcionar bens públicos”, escreveu Brollo.

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