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Qual a função de um museu de história natural e etnologia

O ‘Nexo’ conversou com dois antropólogos e dois curadores de acervos de amostras biológicas sobre as formas como esse material é consultado

 

Na noite de 2 de setembro de 2018, um incêndio de grandes proporções atingiu o Museu Nacional, localizado no parque Quinta da Boa Vista, zona norte do Rio de Janeiro (2).

Os bombeiros foram incapazes de debelar as chamas a tempo. Elas consumiram a maior parte dos documentos, objetos, fósseis e outros itens, coletados por pesquisadores ao longo dos 200 anos da instituição científica mais antiga do país.

Sua administração está subordinada à Universidade Federal do Rio de Janeiro, que vem sofrendo cortes de verbas há anos. Desde 2014, o museu não recebe integralmente a verba anual de R$ 520 mil para sua manutenção.

O Nexo conversou com quatro pesquisadores, dois do campo das ciências humanas e dois do campo das ciências naturais, sobre quais são as funções de uma instituição como o Museu Nacional do Rio de Janeiro.

‘Quando autoridades dizem que vão refazer o museu, falam das paredes’

Marcos Tavares

Curador do setor dedicado a crustáceos do Museu de Zoologia da USP

Um museu na verdade é duas instituições em uma. A mais conhecida do público é a que lida com a parte expositiva, onde a instituição comunica conhecimento a um público.

Mas a exposição é uma parte ínfima das atividades. O conhecimento exposto é reflexo da pesquisa feita no museu, que também é comunicada a outro público pelos artigos em periódicos científicos. Tudo isso é feito com base no acervo, e o Museu Nacional é um dos museus com um dos maiores acervos de história natural do Brasil, como o Museu de Zoologia e o museu [Paraense Emílio] Goeldi.

Eles são uma espécie de biblioteca da vida, com testemunho da biodiversidade de grupos zoológicos, botânicos. Isso foi perdido.

Qualquer espécie tem uma representação física na natureza, como um peixe, uma estrela-do-mar, um crustáceo. Essa representação é guardada nos acervos. Imagina quantas espécies existem nos 8.000 km de litoral do Brasil. Onde elas vivem? Como diferenciar uma da outra?

Quando uma instituição é largada, isso significa que o país não está preparado para lidar com sua importância. A memória nacional está ali dentro.

Esse testemunho material da diversidade virou cinzas, acabou, desapareceu. Quando autoridades dizem que vão refazer o museu, falam das paredes, porque o acervo é centenário. Tem espécies que vieram de lugares que não existem mais, não existe back up.

'Muitas vezes grupos vêm para redescobrir técnicas perdidas'

Renata de Castro Menezes

Professora associada do Departamento de Antropologia do Museu Nacional e Coordenadora do Laboratório de Antropologia do Lúdico e do Sagrado do Rio de Janeiro

Há 50 anos foi criada uma pós-graduação em antropologia social no Museu Nacional, a primeira do Brasil. No início, seguiu um modelo meio de viajantes, até mesmo expandindo a fronteira nacional, até chegar a cientistas especializados em antropologia para fazer um trabalho de campo.

Ao longo do século 20 a antropologia sofreu transformações teóricas e chegou a uma linha interpretativista, focada no significado das coisas, não apenas nelas em si. Houve uma aproximação às narrativas, aos mitos, e a cultura material vai sendo menos importante do que o significado atribuído a elas.

A partir do final dos anos 1960 há menos interesse à questão dos objetos, mas isso volta a interessar à antropologia, arqueologia e outras ciências nas últimas décadas, em que se discute os limites da arte ocidental.

O movimento indígena e o negro começam a se interessar pelos acervos, pelo fato de que seriam formas de reconstituir sua história e seus meios de vida. No mercado internacional de museus há  uma discussão pós-colonial da reparação pela devolução de objetos.

Estávamos discutindo com o governo da Nova Zelândia o tratamento das cabeças maori do acervo que não eram expostas por questões éticas.

Houve pedidos dos Carajá pela retirada de máscaras sagradas do acervo, e pela classificação de peças não pelos antropólogos, mas por pessoas do grupo indígena. Estávamos recorrendo ao acervo e produzindo mais, em diálogo com os grupos.

Há também estudos da questão da técnica, de como algo era feito. Muitas vezes os grupos vêm para redescobrir técnicas perdidas.

Tentávamos de alguma forma colaborar com questões de patrimonialização, de materializar saberes populares, como uma boneca carajá, uma panela de cerâmica, o samba de roda. Eu tinha acabado de trazer 12 fantasias da [escola de samba] Mangueira para pensar os limites de cultura popular e arte.

Eu estava estudando uma coleção regional dos tipos brasileiros, como a mulher rendeira, a baiana, o vaqueiro, formada pela Heloísa Alberto Torres, por volta de 1950. Eu estudava o que isso representava cientificamente naquela época.

É uma perda de gerações de pesquisadores, de pessoas. Eu perdi meu material desde 1982, quando era aluna de graduação.

Nós amamos o Museu Nacional muito profundamente, acreditamos muito no trabalho que fazemos aqui e vamos ter que achar uma saída para viabilizar o que fazíamos havia 50 anos. Trabalhamos fazendo pessoas mais competentes e melhores.

'Espécies são depositadas na coleção após serem descritas pela primeira vez'

Monica Angélica Varella Petti

Curadora da coleção biológica do Instituto Oceanográfico da USP (Universidade de São Paulo)

Eu trabalho com invertebrados, não sei exatamente quais grupos se salvaram e foram mais prejudicados, mas sei que o Museu Nacional tem - ou tinha - a maior coleção. 

São espécies que foram depositadas após serem descritas pela primeira vez. Muito disso foi perdido. Por que isso é importante? Porque na hora em que se encontra uma espécie, você recorre a amostras do material de um museu para consultar e verificar se é a mesma, ou se é diferente.

Esse material é muito precioso, é importante ter esse registro para saber se uma espécie existia e depois desapareceu. Às vezes, ao estudar se uma espécie é invasora, você pode descobrir que ela existia em uma área havia vários anos.

Você também pode verificar, a partir das amostras, se a densidade [das amostras] diminuiu no decorrer de décadas e tentar relacionar com mudanças ambientais. O Museu Nacional era a principal instituição dessa parte biológica, com o maior número de tipos de espécies descritas.

‘Acervo traz pistas de como determinado povo se representa’

Moacir Palmeira

Professor de antropologia social da pós-graduação do Museu Nacional

O museu não é só exposição. Um museu de etnologia comporta várias disciplinas, como a antropologia biológica, a antropologia cultural ou social, a arqueologia etc.

Na antropologia, os elementos materiais podem ser um acesso importante à cultura de um povo. Um trabalho importante no Brasil tem sido registrar culturas que vieram a desaparecer ou que foram completamente transformadas ao longo do tempo.

Há exames de material que dão indicações de povos que muitas vezes não têm informações orais ou escritas. São pistas sobre como determinado povo se representa, ou representava a natureza, além de instrumentos que indicavam atividades exercidas de um povo que não existe, ou do passado de um que existe.

A cultura material pode ajudar a reconstituir algum tipo de trajetória. Isso é muito importante. A atividade de pesquisa dessas disciplinas que existem no Museu Nacional também supõe trabalho de campo.

Tem colegas que trabalham com antropologia urbana, como Gilberto Velho trabalhou, que criam dissertações e teses que podem recorrer a um esforço de décadas, presente nas coleções.

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