O apoio da Nike ao jogador Colin Kaepernick. E o debate nos EUA

Atleta está sem emprego em clubes da NFL desde 2017, o que ele credita ser uma retaliação ao seu posicionamento político

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    A Nike, uma das marcas que patrocinam equipes e atletas da NFL (associação de futebol americano), se envolveu em um debate nos Estados Unidos ao escolher o jogador Colin Kaepernick como seu novo garoto-propaganda.

    Como parte da campanha de 30 anos do slogan “Just do it” (Apenas faça, em inglês), o jogador publicou uma foto em preto e branco do seu rosto no Twitter na segunda-feira (3) com a frase: “Acredite em algo. Ainda que isso signifique sacrificar tudo”.

    Além dele, a tenista Serena Williams publicou uma imagem no mesmo estilo (com a frase “É só um sonho louco até que você o realize”), dizendo-se hornada em fazer parte da “família Nike”. Há duas semanas, a atleta já havia recebido apoio da marca em meio à polêmica envolvendo o veto a um uniforme seu na França.

    Williams também falou sobre Kaepernick recentemente. No dia 31 de agosto, após enfrentar sua irmã, Venus, nos Estados Unidos, a atleta disse à imprensa que “todo atleta, todo ser humano, e definitivamente todo negro americano [african-merican] deveria estar completamente grato e honrado pelo quanto Colin e Eric [Reid] estão fazendo por um bem maior”. 

    A polêmica envolvendo o quarterback

    O nome de Kaepernick virou sinônimo de polêmica nos EUA em 2016 quando, contra a violência policial contra negros e em solidariedade aos protestos liderados pelo movimento Black Lives Matter, o jogador passou a se ajoelhar em campo – antes, ele sentava no gramado – durante a execução do hino nacional americano.

    O gesto, seguido por Eric Reid, companheiro de Kaepernick no time San Francisco 49ers, bem como por uma série de jogadores de outras equipes e esportes, como o basquete, causou polêmica dentro e fora de campo.

    Parte dos americanos entendeu que a atitude ativista do atleta era desrespeitosa à bandeira e ao país. Entre eles, o presidente americano Donald Trump. Em uma ocasião, em 2017, ele afirmou: “Vocês não adorariam ver um desses donos da NFL, quando alguém desrespeita nossa bandeira, dizer ‘tirem esse filho da puta do campo agora. Fora. Você está demitido’?”.

    Em março de 2017, Kaepernick não renovou seu contrato com o San Francisco 49ers e ficou de fora do futebol americano desde então. Apoiado por uma série de atletas da NFL, Kaepernick passou a acusar a NFL de estar o boicotando em razão do seu posicionamento político. Em novembro do mesmo ano, o atleta levou o caso para a Justiça em processo que ainda aguarda decisão do juiz.

    Antes do apoio da Nike, Kaepernick foi convidado pela Random House para escrever um livro sobre sua vida, foi considerado o “cidadão do ano” pela revista masculina GQ e ganhou o prêmio de “embaixador da consciência” da Anistia Internacional, por seu “espírito de ativismo e coragem excepcional”.

    A campanha de boicote à Nike

    Kaepernick conta com o patrocínio da Nike desde 2011. Em 2016, após seu nome dominar o noticiário nacional nos EUA, as camisetas com seu número (sete) se tornaram as mais vendidas nas lojas de esporte – algumas delas foram queimadas por fãs contrariados, que registraram a ação em vídeo.

    Com a nova campanha, que conta com um vídeo, a marca lançará uma série de produtos vinculados à imagem de Kaepernick, como camisetas e tênis. Segundo uma fonte ouvida pelo jornal americano The New York Times, a empresa também deve apoiar financeiramente a campanha “Know Your Rights” (conheça seus direitos) liderada pelo atleta, que visa conscientizar jovens sobre “educação superior, empoderamento e maneiras de lidar com autoridades em vários cenários”, diz seu site.

    À ESPN, o vice-presidente de marca da Nike, Gino Fisanotti, explicou a escolha do jogador para a nova campanha: “Nós acreditamos que o Colin é um dos atletas mais inspiradores da sua geração, que alavancou o poder do esporte para ajudar a fazer o mundo avançar”.

    A decisão da Nike gerou reações de apoio e rejeição de modo similar ao que se viu em 2016 após o protesto silencioso do atleta. Nas redes sociais, pessoas contrárias a Kaepernick passaram a promover uma campanha de boicote à Nike com a hashtag #NikeBoycott. Algumas se manifestaram destruindo peças da marca compradas por elas.

    No Twitter, um usuário publicou um vídeo em que queima um par de tênis da marca e diz: “Primeiro a NFL me forçou a escolher entre meu esporte favorito e o meu país. Eu escolhi meu país. Então a Nike me força a escolher entre meu tênis favorito e o meu país. Desde quando a bandeira americana e o hino nacional se tornaram uma ofensa?”.

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