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Como assessores protegem os EUA de seu próprio presidente

Em livro sobre os bastidores da Casa Branca, Bob Woodward relata episódios nos quais Trump é ignorado ou enganado pela própria equipe

     

    O jornal americano The Washington Post publicou na terça-feira (4) trechos de um livro escrito pelo veterano jornalista Bob Woodward sobre os bastidores da Casa Branca no governo de Donald Trump.

    Medo. Trump na Casa Branca” está disponível para pré-vendas, mas o lançamento oficial será só no dia 11 de setembro, nos EUA, e um mês depois no Brasil, pela editora Todavia.

    Os primeiros trechos revelados do livro de Woodward vêm provocando reações duras de Trump, além de desmentidos indignados de fontes ouvidas pelo jornalista e escritor.

    Na obra, Woodward descreve a Casa Branca como uma “cidade de loucos”, na qual o presidente americano age com a maturidade de um adolescente e é impedido o tempo todo pelos próprios assessores de tomar atitudes intempestivas que prejudicariam o país.

    O livro é uma “fraude”, é “falso”, uma “ficção total”, além de “chato”, reagiu Trump. “Só mais um livro ruim”, tuitou. É uma “ficção”, disse o secretário de Defesa, Jim Mattis.

    “Medo” já provoca o tipo de frisson que outro livro semelhante, “Fogo e Fúria”, provocou quando foi lançado nos EUA, em janeiro de 2018. A diferença é fundamentalmente a credibilidade. Michael Wolff, autor de “Fogo e Fúria”, é um jornalista proveniente da cobertura do mundo das celebridades e das fofocas.

    Woodward tem a queda de um presidente no currículo: Richard Nixon, em 1974, após as revelações que fez em parceria com outro repórter do Post, Carl Bernstein, no escândalo conhecido como Watergate.

    Os fatos relatados em “Medo” têm como base centenas de horas de entrevistas feitas por Woodward com quem ele assegura serem fontes de primeira mão, ou seja, pessoas que presenciaram os fatos descritos. Muitos desses fatos, no entanto, são relatados por fontes que pediram para não serem identificadas nominalmente.

    ‘Golpe de Estado administrativo’

    No meio da enxurrada de relatos desfavoráveis ao governo, Woodward reproduz pelo menos duas histórias nas quais assessores de Trump agiram deliberadamente para enganar o presidente, impedindo-o de tomar atitudes que prejudicariam o país.

    Essas atitudes são classificadas pelo autor do livro como “golpes de Estado administrativos”, pois, por meio deles, secretários impedem o presidente de tomar atitudes drásticas.

    Documento escondido

    Num dos episódios, Gary Cohn, um veterano do mercado financeiro em Wall Street e ex-principal assessor econômico de Trump, “roubou uma carta da mesa” do presidente para evitar que o documento fosse assinado.

    De acordo com Woodward, tratava-se de uma decisão que romperia formalmente acordos comerciais entre os EUA e a Coreia do Sul.

    Mais tarde, conta o jornalista no livro, Cohn contou a pessoas próximas que roubou o documento para proteger a segurança nacional. De acordo com ele, Trump nunca percebeu a falta dos papéis.

    Outro episódio semelhante ocorreu quando Trump quis retirar os americanos do Nafta, sigla em inglês do Tratado de Livre Comércio da América do Norte. “Não posso deter isso. Simplesmente vou tirar o papel da mesa dele”, disse Cohn, segundo Woodward. Os EUA continuam no Nafta até hoje.

    Pedido ignorado

    Segundo relato do livro, Trump telefonou em abril para seu secretário de Defesa, o general Jim Mattis, alarmado com o fato de o presidente da Síria, Bashar al-Assad, ter realizado um ataque com armas químicas contra a própria população.

    Trump queria de Mattis um plano para assassinar Assad. “Vamos matá-lo, porra! Vamos lá. Vamos matar toda essa gente de merda”, teria dito o presidente ao secretário.

    Ainda de acordo com o relato, Mattis assentiu na hora, mas, depois de desligar o telefone, disse para um assessor: “Não vamos fazer nada disso. Vamos ser muito mais comedidos”. No fim, os EUA realizaram um bombardeio aéreo contra alvos militares da Síria, no dia 13 de abril de 2018. Assad segue no poder até hoje.

    Presidente quer punir ‘difamação’

    Trump sabia que o livro seria publicado e que o conteúdo seria muito desfavorável a ele. Foi o próprio Woodward quem deu a notícia ao presidente, num telefonema gravado no dia 14 de agosto. O repórter pediu permissão ao presidente para gravar a conversa.

    Na chamada, Woodward disse a Trump que lamentava ter tentado exaustivamente, sem sucesso, entrevistá-lo para o livro. O presidente lamentou que o jornalista não tivesse conseguido acesso a ele e disse que teria falado com prazer.

    Ainda durante a ligação, Woodward esclareceu que havia falado com diversos políticos republicanos próximos a Trump e também com assessores diretos do presidente americano, durante meses, e que essas pessoas haviam se comprometido a fazer uma ponte.

    O telefonema terminou com um tom de desconfiança de Trump em relação a Woodward e, no fim, de advertência. O presidente americano disse esperar apenas que o livro não fosse desonesto com ele.

    O tom, relativamente amistoso, destoa completamente da chuva de ataques que Trump passou a mover contra Woodward desde então, em várias declarações e postagens.

    Numa delas, Trump pergunta: “Não é uma vergonha que alguém possa escrever um artigo ou um livro, inventar totalmente histórias e formar o retrato de uma pessoa que é o exato oposto dos fatos, e sair dessa sem nenhum custo ou consequência? Não sei por que os políticos não mudam a lei de difamação”, que nos EUA garante amplos direitos à imprensa.

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