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A cidade destruída pelo Estado Islâmico que quer voltar a ser turística

Presença do grupo extremista na Síria provocou danos a bens históricos, que devem passar por um lento processo de restauração

“Um oásis no deserto da Síria, a nordeste de Damasco, contém ruínas monumentais de uma grande cidade, que foi um dos mais importantes centros culturais do mundo antigo”, descreve o Comitê do Patrimônio Mundial da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre a antiga cidade síria de Palmira e seu legado histórico.

Tratada como bem cultural da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) desde 1980, Palmira já foi uma das principais rotas turísticas da Síria, recebendo uma média de 150 mil visitantes por ano. As atrações consideravam o legado artístico-arquitetônico do local, que combina a influência de culturas islâmicas às das civilizações grega, romana e persa.

“Mencionada pela primeira vez em documentos da etnia mari de 2.000 a.C., Palmira era um verdadeiro oásis para caravanas no deserto quando passou a ser controlada por Roma na metade do primeiro século d.C. Desde então, ganhou importância como uma cidade da rota comercial entre Pérsia, Índia, China e o império romano, como ponto estratégico para diferentes civilizações do mundo antigo”

Trecho de comunicado do Comitê do Patrimônio Mundial da ONU sobre Palmira

A partir da eclosão da guerra civil no país, em 2011, e o surgimento do Estado Islâmico, o status de referência histórica e turística deu lugar ao de patrimônio ameaçado.

O domínio por parte do grupo extremista, além de promover massacres e aumentar o número de refugiados, envolveu uma verdadeira campanha de destruição do legado cultural. Templos antigos com centenas de anos e peças de arte valiosas foram destruídas, repudiadas por carregarem traços de raízes culturais ligadas a povos não-islâmicos.

O primeiro momento de controle do Estado Islâmico da cidade histórica de Palmira, parte da atual província de Homs, se deu na primavera de 2015. À época, partes importantes do legado histórico local, como os Templos de Bel e Baal-Shamin, o Arco do Triunfo e colunas do “Vale dos Túmulos” vieram abaixo pela ação de militantes extremistas.

 

Durante um breve período, o governo sírio retomou o controle da cidade, graças à mobilização de tropas locais pelo presidente Bashar Al-Assad. Esse controle durou pouco tempo, e a região foi novamente capturada pelos radicais em dezembro de 2016. Cerca de quatro meses depois, em março de 2017, o Estado Islâmico voltou a perder o controle da região em definitivo. Fala-se, agora, em intensificar o processo de reconstrução do local.

“As autoridades têm, agora, um projeto para recuperar os danos causados na cidade histórica de Palmira”, disse Talal Barazi, governador da província de Homs, ao site russo Sputnik News em agosto de 2018.

Barazi afirmou ter recebido “boas ofertas de outras partes do mundo” para restaurar artefatos e o valor histórico de Palmira. Além da Unesco e ONGs europeias, países como Rússia, Polônia e Itália demonstraram apoio às ações. Recentemente, uma parceria entre arqueólogos sírios e russos começou a realizar um trabalho de restauração de estátuas e esculturas que foram destruídas.

O governante havia estimado em US$ 2 bilhões o custo para reparação dos danos sofridos por Homs (o que inclui também obras de infra-estrutura como instituições públicas, habitações, hospitais e escolas), como destacou o jornal americano Art Newspaper.

“Acredito que Palmira estará completamente pronta para receber turistas novamente no verão de 2019”, completou Barazi.

Apesar do desejo do poder público de recuperar o passado turístico, deve demorar um bom tempo até que a região de Homs volte a contar com afluxo de visitantes estrangeiros. A recomendação expressa de ministérios de turismo de países como Estados Unidos, Reino Unido, Nova Zelândia e Canadá, por exemplo, permanece a mesma: evitar qualquer tipo de viagem à Síria, até que o conflito se resolva em definitivo.

Qual a situação da guerra civil na Síria

O movimento de pressão popular por democracia conhecido como Primavera Árabe, que levou milhares de sírios às ruas do país em 2011, aumentou a prática de repressões violentas de dissidentes pelo regime de Assad. Tal cenário de instabilidade colaborou para que uma guerra civil se instalasse no país.

Após mais de sete anos de duração, 400 mil mortos e seis milhões de refugiados, o conflito na Síria ainda não terminou por completo. O grande inimigo não é mais o Estado Islâmico, que perdeu unidade desde 2015, mas algumas áreas do país permanecem sob domínio de grupos islâmicos extremistas.

O grande último reduto de resistência à Assad é a região de Idlib, no noroeste da Síria. Há algumas semanas, o governo reúne forças militares na área, o que, acredita-se, pode ser a preparação de uma ofensiva. Como aponta esta reportagem do jornal americano New York Times, estima-se a presença de 30 mil rebeldes na região.

Na sexta-feira, 31 de agosto de 2018, o ministro de relações exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, defendeu que o governo sírio tinha direito de remover terroristas de Idlib. A Rússia é uma das principais apoiadoras do regime de Bashar Al-Assad, e conduz uma operação militar na Síria desde setembro de 2015.

Segundo a liderança russa, negociações entre as nações envolvem a instalação de um corredor humanitário para a saída de civis para a região. Estima-se que três milhões de pessoas vivam na região - destes, um milhão de sírios fugidos de outras partes do país. 

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