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A carreira da atriz Beatriz Segall, em 4 momentos marcantes

Atriz que interpretou Odete Roitman, icônica vilã da novela de televisão ‘Vale Tudo’, faleceu em São Paulo na quarta-feira (5)

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    A atriz Beatriz Segall morreu no dia 5 de setembro de 2018, em São Paulo, aos 92 anos. Vítima de problemas respiratórios, Segall esteve internada nas últimas semanas no Hospital Albert Einstein.

    Com extensa carreira no teatro e na televisão e vários papéis no cinema, Segall é mais conhecida por ter vivido uma das grandes antagonistas da história da telenovela brasileira: a personagem Odete Roitman, de “Vale Tudo”, novela de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, exibida pela Rede Globo entre 1988 e 1989.

    Em 2018, a novela já está em sua segunda reprise no canal a cabo Viva. “Com língua ferina, a megera nunca economizou preconceito, provocações ou frases ácidas”, escreveu o colunista Nilson Xavier em seu blog no UOL. “Continua na lembrança do público, como uma das mais marcantes malvadas de nossa teledramaturgia.”

    “A personagem é muito atual, embora muita coisa tenha mudado no Brasil ”, disse ao Nexo a pesquisadora e professora da Escola de Comunicações e Artes da USP Esther Hamburger. “O público se encantou pela firmeza glamourosa e classuda da personagem interpretada de maneira sedutora pela grande atriz que perdemos hoje.”

    Segundo Xavier, a personagem foi tão marcante que, após a conclusão de “Vale Tudo”, Segall se recusou a falar sobre ela por um bom tempo e só aceitava interpretar papéis bem diferentes da vilã.

    “Eu sou muito mais que Odete Roitman. Já fiz tanta coisa, os papéis mais diversos. Eu sou uma atriz de teatro, não sou uma atriz de um papel só”

    Beatriz Segall

    Em entrevista à Veja, em 2011

    Trajetória

    Beatriz de Toledo nasceu em 1926 no Rio de Janeiro. Vinda de uma família de classe média, recebeu uma educação da melhor qualidade – seu pai era diretor de uma escola carioca de prestígio, o Instituto Lafayette. 

    Tornou-se professora de francês e frequentou a escola de formação de atores do Serviço Nacional de Teatro. Estreou profissionalmente nos palcos na década de 1950.

    Em 1953, recebeu uma bolsa do governo francês para estudar língua e teatro, formando-se na Sorbonne, em Paris. De volta para ao Brasil, casou-se com Maurício Segall, filho do pintor Lasar Segall, e se mudou para São Paulo. 

    Foi nos anos 1960 e 1970 que ela se consolidou como uma das grandes atrizes brasileiras de sua época.

    Se a teledramaturgia daria a ela sua personagem mais famosa, além de muitas outras personagens marcantes, Segall demorou a “aderir” à televisão.

    Participou de novelas nas emissoras Tupi e Record entre 1967 e 1970. Em 1978, fez Celina, mãe do personagem de Antônio Fagundes na novela da Globo “Dancin’ Days”, e foi escalada para a novela seguinte, “Pai Herói”.

    Seguiu fazendo novelas até “Lado a Lado”, em 2012. Seu último trabalho na televisão foi em 2015, em um episódio da série da Globo “Os Experientes”.

    No cinema, atuou em dez filmes, entre eles  “À Flor da Pele” (1976), “O Cortiço” (1978) e “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (1980). O último foi “Família Vende Tudo”, em 2011.

    No final da vida, sem trabalho na TV, começou a dar aulas particulares de interpretação. Em entrevista ao portal Notícias da TV, em 2014, disse que a Globo nunca havia lhe dado importância.

    4 momentos

    Passagem pelo Teatro Oficina (anos 1960)

    Após uma pausa de alguns anos na carreira, Segall retornou aos palcos em 1964, substituindo Henriette Morineau na peça “Andorra”, montagem do Teatro Oficina, dirigida por José Celso Martinez Corrêa.

    Em 1965,  fez “Os Inimigos”, de Máximo Gorki, novamente com direção de Zé Celso no Oficina. Os conflitos entre atriz e diretor se tornaram célebres nos bastidores do teatro brasileiro de meados dos anos 1960.

    Emily Dickinson, no monólogo “Emily” (1985)

    Com “Emily”, monólogo de William Luce dirigido por Miguel Falabella em 1985, Segall assegurou “definitivamente seu status de grande dama dos palcos”, segundo a Enciclopédia Itaú Cultural. Centrado na vida da poetisa norte-americana Emily Dickinson, o papel lhe rendeu diversos prêmios.

    Odete Roitman, na novela “Vale Tudo” (1988)

    “Só há uma solução. É evidente que é a pena de morte. E pra ladrão e assaltante, cortar a mão em praça pública.” No papel de uma das maiores vilãs da história da televisão brasileira, a rica empresária interpretada por Segall cunhou bordões e seguiu odiada pelo público, o que garantia o sucesso da novela “Vale Tudo”.

    O Brasil parou para ver Odete Roitman ser assassinada no capítulo que foi ao ar em 24 de dezembro de 1988, véspera de Natal. “E durante os 13 dias seguintes, em todos os cantos do país, não se falou em outro assunto: ‘Quem matou Odete Roitman?’”

    Sobre a personagem, Beatriz afirmou: “Acho que é uma personagem que vai ficar, não por minha causa, na história. Eu fui gostando muito de fazer a personagem. Eu fazia com um prazer imenso. Quanto mais maldade ela fazia, mais interessante o papel ficava. Como a personagem em geral provocava os acontecimentos importantes da novela. Cresceu muito e ficou um ‘papelão’”.

    “‘Vale Tudo’ coincide com a redemocratização e a Constituinte que produziu a Constituição, que também faz 30 anos em 2018”, lembra a professora Esther Hamburger.

    “No fim dos anos 1980, Beatriz Segall encarnou a imaginação nacional, interpretou uma das vilãs mais poderosas e populares. Como outras de seu tempo, a novela aliava o mundo glamouroso do consumo, ao conhecimento e à ascensão social, de certa maneira acenava  para a integração social através do consumo”, disse.

    A mulher mais velha na peça “Três Mulheres Altas” (1995)

    Acompanhada de Nathalia Timberg e Marisa Orth, a atriz viveu o papel da octogenária - as outras atrizes interpretavam a mesma mulher em outras fases da vida. O texto do americano Edward Albee, sob direção de José Possi Neto, é um dos mais importantes do teatro contemporâneo. Segall foi premiada com o Mambembe de melhor atriz de 1995.

     

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