O vazamento de dados do MyHeritage. E a alta dos testes genéticos

Dos mais de 90 milhões de contas expostas em outubro de 2017, 3,3 milhões eram de brasileiros, incluindo menores de 18 anos

    O site MyHeritage, que permite que seus usuários construam árvores genealógicas, inclusive por meio de testes de DNA, confirmou na terça-feira (28) que os dados de 3,3 milhões de brasileiros, 106,8 mil deles menores de idade, estavam entre os que foram vazados em outubro de 2017.

    O roubo de dados foi identificado pela empresa só no dia 4 de junho de 2018. Segundo o site, 92 milhões de contas de pessoas do mundo todo tiveram seus dados expostos.

    A confirmação sobre a parcela de brasileiros prejudicada foi feita em resposta à Comissão de Proteção dos Dados Pessoais ao Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, que no dia 10 de agosto protocolou um ofício com perguntas endereçadas ao diretor da empresa, Gilad Japhet.  

    Segundo o site MyHeritage, as informações expostas se limitaram aos endereços de e-mail e senhas (criptografadas) usados pelos usuários para acesso. Nomes, endereços, números de cartões de crédito, informações sobre familiares ou ainda os dados sensíveis de DNA não foram comprometidos.

    A Autoridade Nacional de Dados de Israel, país-sede da empresa, abriu investigação sobre o incidente e concluiu que o site não violou leis de proteção de dados do país.

    “A orientação da Comissão de Proteção dos Dados Pessoais é que os clientes da MyHeritage que não tenham trocado as senhas de acesso ao site após junho de 2018 devem fazê-lo por precaução”, disse o órgão brasileiro em nota.

    Como funciona

    Como frases como “encontre novos parentes que você nunca soube que existiam através de seu DNA compartilhado” e “seu DNA revela a sua herança única – os grupos étnicos e regiões geográficas das quais você originou”, o MyHeritage promete entregar aos usuários um panorama sobre seus ancestrais usando suas informações genéticas e cruzando com nomes e conexões familiares já presentes em sua base de dados.

    Seu modo de funcionamento é similar ao de outros sites similares, como 23andMe e Ancestry.

    Primeiro, o usuário cria uma conta e pode montar sua árvore genealógica inserindo nomes de pai, mãe, avôs e avós. O site então sugere possíveis parentes partindo de nomes já registrados na sua base de dados ou ainda de notícias antigas de jornais.

    Na sequência, o usuário pode comprar um kit – vendido por cerca de US$ 100 ou mais de R$ 300 no Brasil – com bastões semelhantes a cotonetes para coleta de material genético, pequenos tubos de ensaio e um envelope. Basta raspar a região interna da bochecha com os bastões, colocar o material nos potes e mandar tudo pelo correio. O resultado com um mapa genético fica pronto em até quatro semanas, diz o site.

    Com tais informações, é possível comparar os dados genéticos e descobrir ancestrais e possíveis parentes ainda vivos. Em seu canal no YouTube, a empresa faz comercial dos seus serviços com relatos de familiares que se descobriram por meio do site.

    Genética popular

    Serviços de teste genético se tornaram muito populares nos últimos anos. Só o MyHeritage, fundado em 2003, chegou a 25 milhões de usuários depois de apenas cinco anos de atividade. Uma década depois, esse número cresceu quase quatro vezes, chegando aos atuais 92 milhões.

    Atiçadas pela curiosidade de mapear suas origens, essas pessoas entregaram bastões com seu material genético atrás das tais “surpresas” prometidas por essas empresas.

    “O fato é que a proliferação desses exames está gerando novas discussões sobre raça e cultura. Muita gente mudou toda a narrativa sobre suas origens”, disse em abril de 2018 à Folha de S.Paulo a professora Anita Foeman, da Universidade West Chester (EUA), envolvida em uma pesquisa sobre o efeito desse tipo de teste no processo de construção de identidade social.

    “Há um desejo cada vez maior de saber mais sobre as nossas origens. Esses testes viraram uma extensão do selfie”, afirmou a professora. Em junho, em razão do uso desses serviços e das subsequentes conexões formadas entre parentes antes desconhecidos, o jornal americano The New York Times chegou a perguntar se testes genéticos haviam se tornado as novas redes sociais.

    Resolvendo crimes

    Em um caso curioso e controverso, em abril de 2018, essa nova rede global criada por conexões genéticas foi essencial para que policiais chegassem à identidade de um serial killer nos Estados Unidos, responsável por uma série de assassinatos e estupros em cidades da Califórnia entre 1974 e 1986.

    Conhecido como “Golden State Killer”, especialistas em genética conseguiram encontrar um dos irmãos do assassino por meio de uma amostra de DNA encontrada em uma cena de crime e enviada ao site americano que oferece serviços similares ao MyHeritage chamado GEDMatch. A investigação levou à prisão de Joseph James DeAngelo, um policial aposentado de 72 anos.

    Risco de doenças

    Desde abril de 2017, nos EUA, o site americano 23andMe passou a contar com autorização da agência reguladora do país para realizar testes genéticos, aos moldes desses de finalidade genealógica, e ainda se descobrir as chances de uma pessoa a desenvolver doenças como Alzheimer e Parkinson.

    O site expressa, porém, que os resultados não devem ser tomados como diagnóstico. “Fatores como estilo de vida, ambiente e marcadores genéticos não cobertos por esse teste também cumprem um papel”, diz o site.

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