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A destruição do Museu Nacional. E a história perdida no Rio

Instituição científica mais antiga do Brasil e um dos maiores museus de história natural do mundo havia completado 200 anos em junho de 2018

 

Um incêndio de grandes proporções atingiu o Museu Nacional, localizado no parque Quinta da Boa Vista, zona norte do Rio de Janeiro, na noite de domingo (2), por volta de 19h.

As chamas foram controladas pelos bombeiros na madrugada de segunda. Foram seis horas de fogo ininterrupto.

O interior foi praticamente destruído – parte dele desabou, assim como o teto, e a fachada se encontra chamuscada. Uma avaliação de agentes da Defesa Civil sobre as condições da estrutura do prédio será realizada após o resfriamento.

A origem do fogo ainda não é conhecida, mas algumas hipóteses foram levantadas pelo ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, segundo registra a coluna da jornalista Mônica Bergamo na Folha de S.Paulo. Vinculada à Universidade Federal do Rio de Janeiro, a instituição era subordinada ao Ministério da Educação.

Uma delas é a queda de um balão no teto do edifício, já que vigilantes revelaram que o fogo começou de cima para baixo. Outra possibilidade é que tenha começado com um curto-circuito em um laboratório audiovisual da instituição.

O museu não tinha sistema de prevenção de incêndio. Ele seria instalado com a verba de um contrato de R$ 21 milhões, assinado em junho de 2018 com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para a restauração.

O incêndio começou depois do encerramento da visitação do museu e do zoológico, também localizado na Quinta da Boa Vista.

De acordo com o comandante-geral dos bombeiros do Rio, Roberto Robadey, o combate ao fogo foi prejudicado pela falta de água nos hidrantes próximos ao edifício. Foi preciso recorrer a caminhões-pipa e retirar água de um lago próximo.

Instituição científica mais antiga do país, o Museu Nacional completou 200 anos em junho de 2018. Sua administração está subordinada à Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Ele vinha enfrentando dificuldades orçamentárias devido aos cortes sucessivos de verbas: desde 2014, não recebe integralmente a verba anual de R$ 520 mil que custeia sua manutenção.

Uma das salas do museu, interditada durante meses devido a um ataque de cupins, chegou a ser objeto de uma campanha de financiamento coletivo online, organizada pelo museu, com o intuito de reabri-la.

Nem tudo o que havia no Museu Nacional (cujo site está fora do ar desde a noite de domingo) foi perdido. Segundo texto publicado no jornal O Estado de S. Paulo, “o Departamento de Vertebrados foi separado do prédio principal e ganhou uma nova sede ali perto, também na Quinta da Boa Vista. O mesmo aconteceu com o Departamento de Botânica. Ambos ficaram a salvo”.

Ouvido pelo jornal, o ministro da Cultura afirmou: “É preciso dizer que uma parte do Museu que fica no Horto como a botânica, biblioteca central que tem cerca de 500 mil volumes, parte da coleção de arqueologia e uma parte de coleção de vertebrados foram preservados”.

O que é um museu

Segundo Moacir dos Anjos, que foi curador da 29ª Bienal de Arte de São Paulo, diretor do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, no Recife, além de pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, “um museu é, antes de tudo, um equipamento educativo”.

Ouvido pelo Nexo, ele afirmou: “No caso de museus históricos ou de arte, museu é uma plataforma de aprendizagem a partir de objetos, imagens, registros diversos de nossa passagem por aqui. No mundo atual, muitas vezes os museus são reduzidos a lugares de distração, de divertimento, quando deveriam ser lugares de espanto, de ensinamento, de descobertas”.

Mas, o estado de um museu reflete, “como poucas coisas, o estado da sociedade a que ele pertence”. Para o pesquisador, um museu espelha ainda “a importância que é ou não é dada à reflexão sobre o que foi feito por essa comunidade até agora, à reflexão sobre como e porque somos o que somos e não outra coisa qualquer. Reflete a importância que damos ou que não damos à nossa capacidade de imaginar como foi nosso passado, preparando-nos para seguir adiante”.

Para ele, “museus deveriam ser, nesse sentido, patrimônio de todos: setor público e setor privado, independentemente de quem é proprietário do que está neles exposto. No Brasil, infelizmente, o ser de todos se confunde, quase sempre, com o ser de ninguém”.

O que é o Museu Nacional

A instituição foi fundada por dom João 6º em 1818. O palacete imperial de estilo neoclássico que a abriga foi a casa de membros da família real, como o próprio dom João 6º, dom Pedro 1º e a princesa Isabel. 

Nele, foi assinada a declaração de Independência em 1822. Foi também a sede da primeira Assembleia Constituinte Republicana de 1889 a 1891. O edifício é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

De caráter acadêmico e científico, o acervo de mais de 20 milhões de itens contava com coleções focadas em geologia, paleontologia, botânica, zoologia e arqueologia. Há, ainda, uma biblioteca com obras raras.

“Perdemos ciência, perdemos história. Não só ciência e história abstratas, mas material humano, feito por vidas humanas, que viviam ali havia mais de dois séculos. São inúmeros os pensadores que passaram por ali, que dialogaram e tentaram diagnosticar e propor reflexões sobre problemas sociais diversos que nos assolam, com vistas a superá-los”, disse o antropólogo Vitor Grunvald, em entrevista ao Nexo.

Grunvald foi mestrando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ de 2006 a 2009.

“Estavam lá documentos agora irrecuperáveis, dados brutos e  anotações de pesquisa, registros e muitos materiais que nunca foram inventariados, que nunca ganharão o mundo e realizarão sua potência”, disse.

Casa de pesquisadores do programa, conhecido por sua excelência na área, o espaço também era valorizado afetivamente, como lugar de convivência e produção de conhecimento. 

“Para quem viveu entre essas paredes, está a perda de um espaço que muitos não receariam em chamar de segunda casa, dadas as horas incontáveis que passávamos ali. Um espaço de formação pessoal e intelectual que, para muitos de nós, nos transformou na pessoa, no pesquisador e professor que somos”, disse Grunvald. 

Itens do acervo

O Nexo destaca abaixo algumas das peças que fazem parte das coleções do museu.

A documentação sobre o Império

Além de farto acervo sobre os primórdios da pesquisa científica no país, de um horto botânico, de coleções de borboletas, conchas e fósseis, o Museu Nacional foi lar da família imperial brasileira no século 19.

Era o palácio imperial de D. João 6º desde a transferência da corte portuguesa para a colônia, em 1808, Posteriormente, foi usado por D. Pedro 1º .

Peças de época, joias, móveis e importantes documentos do Brasil Império estavam guardados no local. 

O acervo botânico de Bertha Lutz

Zoóloga de renome, Bertha Lutz (1894-1976) era filha da enfermeira inglesa Amy Fowler e do brasileiro Adolpho Lutz, um dos mais proeminentes cientistas brasileiros a investigar doenças tropicais. Estudou biologia em Paris e, como pesquisadora, dedicou parte da vida ao estudo dos anfíbios.

Sua atuação foi ampla: lutou pelo sufrágio feminino nos anos 20, desafiando as convenções de então e pilotando um avião pelo Norte e Sudeste do país, distribuindo folhetos em prol do voto feminino. Foi fundadora da Federação pelo Progresso Feminino em 1922. No mesmo ano, representou as mulheres brasileiras na Assembleia Geral da Liga das Mulheres Eleitoras, nos Estados Unidos.

 

Na década de 1930, visitou quase 60 museus em solo americano, especialmente instituições ligadas à ciência, financiada por uma bolsa de estudos. Como resultado, escreveu “A Função Educativa dos Museus”.

Mas, ainda nos primeiros anos do século 20, foi secretária do Museu Nacional. O fato teve grande repercussão, pois ainda era tabu nomear mulheres para cargos administrativos e executivos.

O acervo de herpetologia do Museu Nacional foi ideia sua. Muitas espécies descobertas por ela levam seu sobrenome.

O crânio de Luzia

Alunos e pós-graduandos de arqueologia e paleontologia da UFRJ tinham aula no Museu Nacional, em meio a um dos maiores acervos de fósseis da América Latina.

O mais valioso deles era o crânio de Luzia, um fóssil humano de aproximadamente 11.500 anos encontrado em uma gruta da Lapa Vermelha, perto de Belo Horizonte. A peça era mantida em uma gaveta do Museu Nacional.

Pelas mãos da pesquisadora Annette Lamin-Emperaire, Luzia  tornou-se uma importante peça na recuperação da história da ocupação das Américas.

 

Foi a análise do crânio de Luzia que levou Walter Neves, cientista e antropólogo ligado ao Instituto de Biociências da USP, a criar uma nova hipótese: a que dizia que, possivelmente, houve duas levas migratórias na ocupação do continente americano.

Hoje, toda a área de Lagoa Santa, já notada por naturalistas no século 19, é considerada um importante sítio arqueológico.   

O meteorito Bendegó

Maior meteorito já encontrado em solo brasileiro, o Bendegó está entre os poucos itens, de número ainda desconhecido, que sobreviveram intactos ao fogo.

Feito de ferro maciço, pode suportar temperaturas superiores a 10 mil graus centígrados.

O Bendegó está exposto no Museu Nacional desde 1892. Foi encontrado no sertão da Bahia por Joaquim da Motta Botelho, nas proximidades do riacho Bendegó, no século 18. Pesa mais de 5 toneladas e é considerado um dos maiores do mundo.

Os meteoritos são fragmentos de corpos extraterrestres, como asteróides ou cometas, que sobrevivem a entrada da atmosfera terrestre e às altas temperaturas, conseguindo atingir o solo. A instituição detém a maior coleção de meteoritos do país, com 62 peças.

O esqueleto da jubarte

O Museu Nacional concentrava um bom número de esqueletos reais de mamíferos aquáticos e terrestres brasileiros. Boa parte desse acervo passava por restauração ou estava guardado.

O maior e mais completo esqueleto de uma baleia jubarte da América Latina, entretanto, havia voltado à exposição no Museu Nacional, após 10 anos afastada e um trabalho longo de restauração, para ser exibido nas comemorações dos 200 anos do Museu Nacional, em junho de 2018.

Foram feitas limpeza, higienização e recuperação do pH da peça, além da remoção de manchas de caneta e clareamento de partes escurecidas pelo tempo.

O esqueleto estava no museu há mais de 100 anos e tinha 17 metros de comprimento.

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