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A indecisão do voto feminino em 2018. E o que ela indica

No primeiro texto da série sobre a representatividade das mulheres nas eleições, o ‘Nexo’ analisa as razões pelas quais elas demoram mais para escolher um candidato

 

As mulheres representam 52% do eleitorado no Brasil, de acordo com dados de fevereiro de 2018 da Justiça Eleitoral.

Nas pesquisas de intenção de voto para presidente em 2018, que têm sido marcadas por uma expressiva porcentagem de indecisos, a quantidade de mulheres que declaram voto branco e nulo e daquelas que não sabem ou não responderam em quem irão votar é maior do que em relação aos eleitores homens.

Na primeira pesquisa Datafolha desde o início oficial da campanha para as eleições de 2018, divulgada no dia 20 de agosto, a indecisão feminina supera a do eleitorado masculino em todos os cenários: na pesquisa espontânea (em que se pergunta intenção de voto sem apresentar a lista de candidatos) e na estimulada (em que se pergunta intenção de voto com a lista de candidatos), com ou sem Lula. 

 

Não por acaso, esse eleitorado tem sido disputado por candidatos nos debates televisivos, nos programas de governo e na escolha de vices — entre os cinco primeiros colocados, todos, à exceção de Bolsonaro, têm chapas mistas (compostas por um homem e uma mulher).

Indecisão histórica

O Nexo levantou a taxa de homens e mulheres indecisos (que declararam a intenção de votar em branco, nulo ou nenhum, ou não sabiam em qual candidato votariam) nas pesquisas Datafolha do período de 2002 a 2018.

Em todas, a indecisão entre as respondentes do sexo feminino se mostrou superior em relação aos eleitores homens, mesmo que por uma pequena margem, o que mostra que, historicamente, as eleitoras brasileiras demoram mais para decidir o voto.

Razões

Para Céli Pinto, cientista política e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o fenômeno está relacionado ao afastamento das mulheres da política partidária.

“Se olharmos a história da política brasileira, veremos que as mulheres sempre foram afastadas da vida política pelos partidos e pelas estruturas políticas. O político sempre foi patriarcal, masculino e empurrou as mulheres para fora. As mulheres levam mais tempo para chegar ao ‘tempo da política’, da campanha eleitoral”, disse.

Ela ressalta, porém, que os fatores de indecisão variam conforme as clivagens entre as próprias mulheres. “Mulheres não votam só em função de serem mulheres — têm classe, cor, religião”, disse a professora ao Nexo.

Maria do Socorro Braga, cientista política e professora da Universidade Federal de São Carlos, também afirma ser difícil falar do eleitorado feminino como um bloco homogêneo, sem ter maiores informações sociodemográficas sobre as mulheres indecisas.

Mulheres são mais sensíveis a políticas públicas, enquanto eleitores homens demonstram mais interesse por assuntos ligados ao jogo de poder, como as escolhas partidárias

Em entrevista ao Nexo, Braga apontou a descrença ou rejeição à oferta como fatores que, normalmente, motivam a decisão do eleitorado. No caso das mulheres, ela pode estar conectada ao perfil da oferta de candidatos e à relação delas com os projetos políticos que defendem.

A atenção para esse recorte de gênero no grupo de indecisos, trazida pela percepção de que as mulheres demoram mais para decidir o voto, ainda é recente, segundo a professora.

“Seria interessante saber, por exemplo, se as mulheres mais escolarizadas são as que demoram mais. Nesse caso, eu diria que é porque hoje elas têm muito mais informações, estão conhecendo melhor os candidatos e acabam tendo um juízo forte em relação aos principais. Vão assistir aos debates, ler os programas, precisar de muito mais informação para se decidir”, disse.

“Há um outro eleitorado que terá menos informação. Esse eleitorado pode tender a ser mais petista, por já conhecer melhor o Lula”, disse Braga.

Ela ressalta que muitas mulheres ganharam autonomia financeira e na relação conjugal com o programa Bolsa Família, pago às mulheres. “Para mim, essa eleitora vai votar com o Lula ou com o PT, com o candidato apoiado por ele”, disse.

A socióloga Fátima Pacheco Jordão apresenta uma outra leitura do fenômeno da indecisão das eleitoras brasileiras.

Segundo ela, a condição de usuárias mais frequentes dos serviços públicos, como a saúde, sobretudo se há crianças sob seus cuidados, faz com que elas comecem a se envolver mais com a eleição a partir da propaganda de rádio e TV.

Ao jornal O Globo, Jordão explicou que os problemas do cotidiano são debatidos pelas campanhas na comunicação da massa. Com o início da propaganda nesses meios, a proporção de indecisas vai diminuindo, mas permanece superior a dos homens até as vésperas da votação.

Em 2010, a socióloga realizou um estudo sobre o poder do voto feminino para o Instituto Patrícia Galvão.

A pesquisa mostrou que mulheres são mais sensíveis a políticas públicas, enquanto eleitores homens demonstram mais interesse por assuntos ligados ao jogo de poder, como as escolhas partidárias.

Essa diferença explica que homens tenham, em geral, mais certeza do voto na etapa inicial da corrida eleitoral, quando as decisões políticas estão sendo tomadas.

Particularidades de 2018

As brasileiras estão se sentindo pouco inspiradas pelos candidatos ofertados e não representadas por suas propostas, diz uma reportagem da agência de notícias Bloomberg.

Em 2018, o cenário indefinido e imprevisível está agravando a indecisão do eleitorado em geral e também das mulheres, na avaliação da professora da UFRGS, Céli Pinto.

Descrita por ela como uma eleição muito diferente das outras, “por ter um candidato que está preso com mais de 30% de intenção de voto”, o pleito deste ano pode fazer as eleitoras levarem ainda mais tempo para se dividirem.

A professora também chama atenção para o fato de que candidatas a cargos políticos não se colocavam, até pouco tempo atrás, como mulheres em seus discursos. Com o feminismo em alta, elas passaram a enfatizar com mais frequência o fato de serem mulheres na política.

Mesmo candidatos homens buscam se comprometer e não antagonizar com questões ligadas às mulheres.

“Tenho a impressão de que, na propaganda eleitoral deste ano, na fala de candidatas e candidatos, a questão dos direitos das mulheres e da violência contra a mulher estará mais presente do que em qualquer eleição brasileira desde a redemocratização, em função da capilaridade do feminismo”, disse Céli Pinto ao Nexo.

“Ninguém consegue mais ignorar esse tema, que era solenemente ignorado quatro anos atrás por todos os partidos políticos, tanto pela esquerda quanto pela direita”, observou.

Implicações

É difícil prever se “as mulheres irão definir as eleições”, como algumas manchetes têm anunciado. “Já se disse isso outras vezes”, lembra Céli Pinto. 

No entanto, o voto feminino ganhou um protagonismo impressionante no cenário das eleições de 2018, para a professora da Universidade Federal de São Carlos, Maria do Socorro Braga.

De acordo com Braga, as mudanças recentes nas regras no jogo eleitoral favorecem o voto feminino — o aumento das verbas e do tempo na TV concedido às candidatas favorece candidaturas e representatividade, mas também o eleitorado, com potencial de aproximá-lo das eleições.

Além disso, para Braga, se as eleitoras direcionarem seu apoio mais significativamente para uma das candidaturas principais, podem levar o candidato em questão a vencer em primeiro turno. 

“No segundo turno, esse eleitorado feminino também pode ser super importante para levar uma candidatura que já tem o apoio feminino a vencer”, disse.

“Nos quadros que temos hoje, os candidatos sabem que vão precisar mais do voto feminino. A direita está muito dividida. A esquerda tem o Lula, e outros candidatos mais frágeis”, disse Braga. “O eleitorado feminino passa a ser forte para fazer a diferença, principalmente para a centro-direita, e coloco a Marina aí. A tentativa dela é de atrair o eleitorado feminino para ela, coisa que Bolsonaro e Alckmin não estão conseguindo fazer.”

No cenário sem Lula, segundo o Datafolha de 22 de agosto, Marina Silva passa a ser a candidata com maior intenção de voto entre as mulheres.

“Ela sabe disso. No debate da Rede TV, ela foi incisiva com o Bolsonaro e suas bandeiras que colocam as mulheres como submissas. Ela está tentando aumentar seu eleitorado feminino”, diz a professora de São Carlos. 

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