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Quem é o guru brasileiro Prem Baba, acusado de abuso sexual

Líder espiritual paulista seguido por celebridades foi acusado de se aproveitar da confiança de duas seguidoras casadas para ter relações sexuais com elas

    O guru brasileiro conhecido como Prem Baba, de 52 anos, foi acusado de abusar de duas de suas seguidoras entre 2008 e 2010. Em um dos casos, relatado pelo ex-marido em uma reunião fechada com o guru no domingo (26), o casal estava em crise e buscou ajuda espiritual. Prem Baba inicialmente teria dado conselhos aos dois. Em seguida, propôs exercícios tântricos à mulher e depois passou a manter relações sexuais com ela.

    Ainda de acordo com o relato do ex-marido, que se referiu ao guru na reunião como “o pai da verdade que mente compulsivamente”, a esposa teria confiado no mestre de que tudo fazia parte de um tratamento e a ajudaria a se reaproximar do marido. O caso foi revelado pela coluna de Monica Bergamo publicada no jornal Folha de S.Paulo na edição desta quinta-feira (30).

    A história veio à tona agora depois de uma das mulheres relatar o caso ao marido, há três semanas. Os casais envolvidos terminaram seus relacionamentos, mas todos continuaram a frequentar o grupo de Prem Baba em São Paulo. Uma das mulheres, no entanto, após lidar com depressão e episódios de síndrome do pânico, buscou tratamento psicológico tradicional. Foi quando, segundo ela, percebeu que, na verdade, havia sido vítima de abuso.

    Em um vídeo enviado aos membros do seu grupo espiritual, o guru nascido e residente em São Paulo disse ter mantido relações sexuais “com uma pessoa casada” e ainda com uma segunda mulher. Mas, em nota, a assessoria do seu movimento Awaken Love (Despertar do Amor), negou que os casos se configurem abuso.

    “Não houve qualquer forma de abuso, e sim relações amorosas que chegaram ao fim na época, mas deixaram marcas nos envolvidos”, diz a nota enviada posteriormente ao jornal O Globo. “Não nos cabe analisar a atitude dos ex-maridos.”

    Ainda ao jornal carioca, um porta-voz do guru chamado Fábio Torreta  disse que as acusações causaram surpresa, já que todos os envolvidos no caso eram “muito amigos”. “As acusações não têm fundamento. São apenas uma tentativa de difamação, que nos surpreendeu a todos”, disse.

    O líder espiritual, que no passado já declarou ser celibatário, afirmou à Folha de S.Paulo, entretanto, que essa questão não era algo definitivo e que seu celibato “foi resultado de uma busca que ainda ocorria em 2010”. Prem Baba tem uma filha de 15 anos.

    Quem é Prem Baba

    Antes de se tornar guru, Sri Prem Baba – em sânscrito, Sri significa senhor, Prem é “amor divino” e Baba, santidade – era Janderson Fernandes de Oliveira, filho de família católica de classe média e morador do bairro da Aclimação, em São Paulo.

    Quando jovem, formou-se psicólogo, passou a praticar ioga e teve experiências com Santo Daime. Segundo perfil feito pela Folha de S.Paulo em 2017, “problemas matrimoniais, frustrações e angústias acumulavam-se em sua vida logo depois de ter chegado aos 30 anos”.

    Nessa época, teve contato com os ensinamentos de Osho, polêmico guru indiano retratado em documentário recente.

    “Mergulhei nesse universo do Osho e passei a ler as suas palestras (...) Sempre tive a clareza de que o Osho é muito importante na minha jornada. Mas não era o meu mestre, o meu guru. (...) Mas o Osho continua presente na minha jornada espiritual. Na Índia, no Brasil e em todos os lugares que eu vou as minhas portas são abertas pelo Osho”, diz o guru brasileiro em seu site oficial.

    Durante uma sessão de ioga, entrou em um “transe místico” e ouviu uma voz dizendo para ele ir para Rishikesh, na Índia, quando fizesse 33 anos. Tempos depois, disse também ter visto a figura de um senhor de longa barba branca durante uma sessão de meditação convidando ele para a região aos pés do Himalaia.

    Recém-casado, obedeceu ao suposto chamado e foi para a Índia na sua lua-de-mel. Lá, conheceu Sri Hans Raj Maharaj Ji, mestre da tradição hindu Sachcha, do líder espiritual indiano Sant Shri Sachcha Baba Ji. Depois de tempos de devoção e aprendizado, Maharaj fez de Janderson um mestre e o convidou a disseminar o conhecimento de Sachcha.

    Em 2011, com a morte de Maharaj Ji, o guru brasileiro assumiu o posto e passou a liderar seu “ashram”, a comunidade internacional de discípulos.

    Além da Índia, Prem Baba dá palestras e cursos de meditação e autoconhecimento na “Awaken Love House”, que tem unidades na Argentina, Espanha, Estados Unidos, Israel e Alemanha. No Brasil, o guru atua em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e em Alto Paraíso de Goiás, na Chapada dos Veadeiros.

    Guru das celebridades

    Por aqui, passou a ser chamado popularmente de “guru das celebridades” em razão do grupo de famosos simpáticos ao mestre paulistano. Dentre eles, estão atrizes, atores e apresentadores como Reynaldo Gianecchinni, Bruna Lombardi e Marcio Garcia.

    Em 2014, Garcia organizou um jantar com o mestre e convidou os amigos globais Ana Maria Braga, Giovanna Antonelli, Christiane Torloni e Isis Valverde. “Chamei amigos que sei que simpatizam com ele (...) Foi maravilhoso. A meditação coletiva é ótima. A ‘vibe’ tomou conta da casa e teve gente que eu nem vi chegar, porque estava totalmente focado”, disse na época.

    Além de arrebanhar seguidores ilustres, o guru já teve encontros com o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e com o ex-prefeito de São Paulo João Doria (PSDB).

    #MeToo ioga

    outros casos no passado de relatos e acusações de abuso sexual envolvendo gurus espirituais. Um dos mais conhecidos é o do indiano com nacionalidade americana Bikram Choudhury. Fundador de uma modalidade de “hot yoga”, feita em ambientes quentes e úmidos, Choudhury recebeu acusações de abuso sexual e estupro contra diversas mulheres, entre 2013 e 2015.

    O guru e professor de ioga deixou os Estados Unidos em maio de 2016 rumo à Índia. Um ano depois, um tribunal em Los Angeles emitiu um mandado de prisão contra Choudhury após ele ter deixado de pagar US$ 7 milhões a uma de suas vítimas de abuso.

    Outros casos de acusações por abuso sexual envolveram figuras como Amrit Desai (acusado de abusar sexualmente de seguidoras em 1994, foi condenado a pagar US$ 2,5 milhões para encerrar o processo) e John Friend (professor americano de ioga que em 2012 foi acusado de se relacionar durante um ritual com alunas, algumas delas casadas; como resultado, deixou a direção do seu instituto).

    Outro guru, o indiano de nacionalidade americana Swami Satchidananda, morto em 2002 e chamado de “superstar da ioga” pelo The New York Times, foi acusado em 1991 por manifestantes de cometer abuso sexual, casos que seriam acobertados pelos membros da própria comunidade.

    Na esteira das denúncias feita pelo movimento #MeToo e #TimesUp em diversas áreas, como no cinema, grupos de espiritualidade e ioga passaram a expor casos similares ocorrendo dentro das suas comunidades por meios das hashtags #metooyoga.

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