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PIB do 2º trimestre: por que a economia do Brasil parou

Em período marcado por greve dos caminhoneiros, produção avança 0,2% e mostra que recuperação do país será lenta

    A economia brasileira produziu, entre abril e junho de 2018, 0,2% mais do que no primeiro trimestre do ano. O resultado do Produto Interno Bruto foi divulgado na manhã de sexta-feira (31) pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

    R$ 1,693 trilhão

    valor do PIB brasileiro no 2º trimestre de 2018

    Por um lado, o número consolida um período sem resultados negativos. O leve crescimento, que o IBGE chama de variação, foi o sexto consecutivo sem queda (cinco positivos e um zero).

    Por outro lado, mostra que a recuperação da economia, após uma das mais graves recessões da história, é lenta e, mais importante, vem desacelerando nos últimos trimestres.

    Perdendo força

     

    O resultado cobre o período da paralisação de caminhoneiros e das empresas de transporte, bem como suas consequências. Durante 11 dias no fim de maio, o movimento parou o país, gerou desabastecimento e prejudicou a economia.

    O desarranjo prejudicou os índices econômicos de maio e alguns de junho. Sem a paralisação, o crescimento do PIB teria sido maior.

    Uma economia parada

    O PIB do Brasil teve duas variações positivas em 2018. Além de 0,2% no segundo trimestre, houve uma variação de 0,1% no primeiro — o resultado divulgado inicialmente havia sido de 0,4%, mas houve revisão pelo IBGE nesta sexta-feira (31). Isso significa que a economia ficou praticamente estagnada nos seis primeiros meses de 2018.

     

    Existem duas maneiras de se medir o PIB: somando tudo que o país produz ou somando tudo o que o país demanda. Pelo chamado lado da oferta, o IBGE soma o que foi produzido pelos setores de agropecuária, indústria e serviços. Do outro lado vêm gastos do governo, investimentos e consumo das famílias. Nas duas óticas, os resultados são tímidos e reforçam a estagnação.

     

    Do lado da oferta, a indústria teve queda de 0,6% em um trimestre marcado pela paralisação dos caminhoneiros. A construção civil, que faz parte da indústria, teve queda de 0,8% e segue em baixa. Mesmo depois que a economia do país parou de diminuir, o setor continuou caindo: são três trimestres negativos, dois positivos e um com variação zero.

     

    O que salvou o PIB de um resultado negativo no segundo trimestre de 2018 foi o setor de serviços. Apesar de ter crescido apenas 0,3% na comparação com o primeiro trimestre, ele tem peso importante na economia brasileira. Os serviços — setor amplo que vai de comércio a transporte, de venda de seguros a educação — representaram 62% da economia do país no trimestre. A agricultura ficou estagnada em 0%.

    Lado da oferta

     

    Na demanda, o destaque negativo foi a queda na Formação Bruta de Capital Fixo, nome técnico dado pelo IBGE para os “investimentos”.

    Investimento é todo gasto das empresas destinado a aumentar a produção, seja comprando máquinas e equipamentos para produzir mais bens, seja criando infraestrutura. O dado é importante porque é um indicador da capacidade de o país crescer no futuro — é um gasto que se transforma em mais crescimento.

    Lado da demanda

     

     

    O dado ruim consolida a estagnação como proporção do PIB. Depois que o Brasil deixou a recessão, no último trimestre de 2016, a formação bruta de capital fixo ensaiou uma reação, mas nos últimos três trimestres pouco se alterou.

     

    Isso faz com que o país permaneça com sua taxa de investimentos bem abaixo do patamar anterior à crise. No primeiro trimestre de 2014, último antes da recessão, o país investia 20,7% de seu PIB. Agora a taxa é de 16,3%.

     

    Investimento comparado ao PIB

     

     

    A retomada dos investimentos era um objetivo do governo de Michel Temer, que, após o impeachment de Dilma Rousseff, assumiu a Presidência em maio de 2016 prometendo melhorar o ambiente de negócios para que os empresários voltassem a investir e gerar emprego. Para isso, o governo conseguiu a aprovação do teto de gastos, da reforma trabalhista e da lei das terceirizações.

     

    Na visão da equipe econômica do governo, então chefiada pelo atual candidato à Presidência Henrique Meirelles (MDB), a confiança era fundamental para que o país saísse da recessão e voltasse a crescer de maneira sólida. Só metade do caminho foi percorrida até agora.

     

    “Sai a ideologia e entra a matemática”

    Moreira Franco

    ministro de Minas e Energia, em declaração de setembro de 2016, época em que era secretário-executivo de PPI (Programa de Parcerias e Investimentos) de Temer

    A frustração maior foi não ter conseguido aprovar a reforma da Previdência — que teve sua tramitação prejudicada pela delação da JBS, que gerou duas denúncias criminais contra Michel Temer. As acusações acabaram congeladas pela Câmara dos Deputados, mas a um custo político alto para o presidente.

    A retomada lenta

     

    O PIB brasileiro está há seis trimestres sem um resultado negativo, mas a velocidade da retomada é bem menor do que a projetada anteriormente.

     

    Pela metodologia do Codace (Comitê de Datação de Ciclos Econômicos) da Fundação Getúlio Vargas, a recessão na economia brasileira começou no 2º trimestre de 2014 — a despeito de duas altas tímidas no 3º e no 4º trimestre daquele ano. O período recessivo acabou no fim de 2016, quando o país atingiu o fundo do poço.

     

    A economia brasileira é atualmente 6% menor do que era no 1º trimestre de 2014, último antes do início da recessão. Ou seja, o país ainda produz e consome 6% menos do que consumia mais de quatro anos atrás. O cálculo é feito com base em dados do IBGE que medem o PIB e descontam dos resultados trimestrais os efeitos da sazonalidade, ou seja, variações características de cada época do ano.

    Ponto zero

     

    Duas análises sobre o resultado do PIB

    Sobre o resultado do Produto Interno Bruto do segundo trimestre de 2018 e as razões para a lenta recuperação da economia brasileira, o Nexo conversou com duas economistas:

    • Alessandra Ribeiro, diretora da área de macroeconomia e política da Tendências Consultoria
    • Luana Miranda, pesquisadora do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da FGV)

     

    Como explicar o resultado do segundo trimestre?

    Alessandra Ribeiro O resultado confirma que a economia está bem devagar. Saiu do fundo do poço, mas o ritmo deixa a desejar.  Veio dentro do esperado, o que decepcionou um pouco foi o comércio. Houve um crescimento de gastos do governo porque, em relação ao ano passado, havia uma margem para aumentar dentro do teto. E isso era esperado em ano eleitoral.

    Se olhar só o dado de máquinas e equipamentos, está bem até. Como caiu muito nos últimos anos, em um cenário um pouquinho melhor as empresas voltam a investir, substituem máquinas que já deveriam ter sido substituídas. Além disso, em um cenário mais difícil, é preciso ganhar eficiência.

    O que deixou mesmo a desejar foi a construção civil. A coisa vinha melhorando em 2017, alguns lançamentos, um pequeno boom de reformas com a liberação do FGTS. Isso não se repete. A construção civil pesada, ligada à infraestrutura, também está mal. O pacote de concessões do governo gerou uma frustração. Muito pouco foi concedido.

    Luana Miranda A recuperação é, de fato, muito lenta. O impacto da greve [dos caminhoneiros] foi importante no resultado do segundo trimestre porque abril tinha sido um mês muito bom para serviços, indústria, comércio. Então a expectativa era de que fosse um trimestre muito bom. A retomada que a gente esperava era gradual, mas mais rápida, principalmente pelo dado de abril.

    Na indústria como um todo, houve uma queda em relação ao primeiro trimestre. O desempenho ruim foi puxado pela construção civil, que pode ter sido impactada pela greve, mas menos. Isso impacta mais a indústria de transformação.

    Como a paralisação dos caminhoneiros afetou o resultado?

    Alessandra Ribeiro  O impacto está principalmente na indústria da transformação. No nosso cenário, sem a greve dos caminhoneiros o PIB poderia ter sido cerca de 0,4% no trimestre. A greve não tem só esse efeito pontual, tem um efeito mais permanente na confiança. Depois daquele episódio, caiu a confiança, principalmente dos consumidores.

    Luana Miranda A greve tem um efeito de curto prazo, mas tem também um efeito de longo prazo, menor, na cadeia produtiva. Aconteceu uma bagunça na cadeia produtiva, animais morreram na pecuária, produtos estragaram, tudo impacta a cadeia produtiva. Isso é mais difícil de quantificar.

    No setor de serviços, chama atenção que transportes não foram tão afetados com a greve quanto se imaginava. Caiu em relação ao primeiro trimestre, mas menos do que se imaginava.

    Qual o efeito do cenário externo no resultado?

    Alessandra Ribeiro Até janeiro estava tudo bem, mas mudou o clima. Primeiro foi a expectativa de aumento de juros nos Estados Unidos, depois, as disputas comerciais, e isso afeta os emergentes. Algumas economias com fundamentos mais frágeis, como Argentina, Turquia e África do Sul, apanham muito mais.

    Luana Miranda O cenário internacional, no início do ano, era favorável. Todos esses conflitos comerciais geram uma deterioração da confiança, piora as condições. Isso aumenta o risco no país, faz com que o real se desvalorize. Aí vem a crise Argentina, que é um dos principais parceiros comerciais do Brasil, impacta nossa indústria de transformação, exportações, principalmente no setor automotivo.

    As reformas promovidas pelo governo não melhoraram o ambiente econômico?

    Alessandra Ribeiro Na nossa avaliação, o governo fez até bastante coisa. Houve as grandes reformas, trabalhista e teto de gastos, mas teve também uma série de reformas de regulação microeconômicas, mudança de setor de óleo e gás, de crédito. Mas essas medidas não têm maturação no curtíssimo prazo, elas só vão ter efeito ao longo do tempo. Em um cenário de continuidade, resolvendo o problema fiscal, esperamos que isso se traduza em aumento de produtividade.

    Essa saída de crise já prometia ser mais lenta porque os agentes econômicos estavam muito endividados: famílias, empresas e governo. Então primeiro tem que lidar com o endividamento, para depois voltar a consumir, investir. Mas a avaliação era melhor para o ano, tinha capacidade para isso com confiança e juros baixos. Mas aí veio a conjunção de fatores: cenário internacional, greve dos caminhoneiros e cenário político. Então a junção de tudo isso deve resultar em um crescimento mais próximo a 1%, cerca de 1,2%.

    Luana Miranda O que está acontecendo é que não foi suficiente, existem muitas questões a serem resolvidas no país. Não basta ter o teto, é preciso saber como ele vai ser cumprido. Com as contas do jeito que estão, é difícil cumprir o teto sem reforma da Previdência. Existem muitas questões estruturais.

    Caiu a ficha dos investidores que, sem reformas fiscais, é impossível sustentar crescimento, inflação na meta. Isso trava investimento, trava o consumo. No mercado de crédito, apesar de termos uma Selic num patamar historicamente baixo, a transmissão para o consumidor ainda não aconteceu. O custo do crédito também trava.

    A retomada é lenta porque o mercado de trabalho continua ruim. A taxa de desemprego vem caindo lentamente, mas segue em dois dígitos, segue muito alta. Isso afeta a economia como um todo, mercado de trabalho e atividade se retroalimentam. A gente projeta um crescimento de 1,5%.

    Colaborou Rodolfo Almeida (gráficos)

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