O que são os ‘desafios de internet’. E o caso da boneca Momo

Embora a maioria dos populares desafios proponha atividades divertidas e inofensivas, há uma parcela que envolve práticas perigosas a crianças e exige atenção

    A morte de um garoto de 9 anos do Recife, Pernambuco, e a suspeita de que ela tenha sido resultado da participação do garoto em um desafio de internet está promovendo uma onda de alertas entre escolas e pais de alunos.

    O corpo de Artur Luis Barros dos Santos foi encontrado pelos pais. Estava enforcado no quintal de casa no dia 15 de agosto de 2018, minutos depois do horário do jantar da família. Antes do incidente, o menino teria mostrado a foto de uma “boneca feia” no celular.

    Na internet, a “boneca” é conhecida como Momo. Trata-se originalmente de uma escultura de uma criatura meio mulher, meio pássaro, intitulada “Mother Bird”.

    A foto da sua face, que ganhou popularidade na internet, foi feita em 2016, quando a obra de autoria do artista japonês Keisuke Aisawaestava exposta em uma galeria de Tóquio.

    A relação entre a boneca e caso do suposto suicídio do garoto de Recife está no fato de a imagem da Momo estar sendo usada por perfis de criminosos que promovem desafios, como se enforcar, por redes sociais como Facebook e WhatsApp.

    O caso ainda está sob investigação.

    “Ainda não podemos afirmar com certeza o que realmente houve”, disse a delegada Thais Galba, responsável pelo caso.

    Segundo relatos colhidos por ela, Artur não apresentava histórico de depressão, nem tomava medicamentos controlados. “[Era] um aluno bom, com notas boas. A possibilidade de suicídio é descartada cada vez com mais força”, afirmou Galba.

    Tanto o celular quanto o tablet usados pelo menino estão sob perícia no Instituto de Criminalística de Recife.

    Casos recentes

    O caso de Artur surge na sequência de pelo menos outros dois casos envolvendo vítimas de desafios na internet. Um deles, fatal, se deu na Argentina no dia 22 de julho. Uma garota de 12 anos foi encontrada enforcada e a polícia investiga se o suicídio teria sido induzido em razão de um vídeo gravado pela própria vítima antes do ato. Nele, a jovem parece seguir instruções de outra pessoa pelo celular.

    Outro caso aconteceu nos Estados Unidos, na cidade de Detroit. Uma jovem também de 12 anos teve quase a metade do seu corpo queimado enquanto fazia o “desafio do fogo”, em circulação na internet há pelo menos quatro anos. O “desafio” consiste em se filmar ateando fogo no corpo coberto por líquido inflamável.

    “As crianças muitas vezes não percebem que a vida é um dom precioso e que elas não podem imitar as coisas que veem na internet”, disse a mãe, que publicou uma foto nas redes sociais da garota no hospital para alertar outros pais. “Eu espero que nenhuma outra família passe por isso. Como mãe, você sempre quer proteger seu filho, não quer que ele sinta nenhuma dor.”

    Momo e os desafios de internet

    A maioria dos “desafios de internet” não envolve tirar a própria vida. Em diferentes redes sociais e plataformas de vídeo, como Instagram e YouTube, é possível encontrar desafios divertidos envolvendo dança, movimentos específicos ou a realização de façanhas, sendo promovidos por personalidades influentes e seguidos por uma massa de usuários.

    Como exemplo, atualmente está em alta o “Dele Alli Challenge”, que consiste em conseguir imitar um gesto com a mão feito pelo jogador de futebol do Tottenham, na Inglaterra. Da mesma forma, já foram moda no passado os desafios do Harlem Shake, do manequim, da garrafa de água, e do balde de gelo.

    Há outros, porém, que envolvem ações potencialmente perigosas, caso do Kiki Challenge, que por envolver andar e dançar ao lado de um carro em movimento foi desaconselhado por autoridades policiais em países como a Índia.

    No caso dos desafios supostamente relacionados à ‘boneca Momo’, a história é bem diferente.

    Segundo especialistas que acompanham o fenômeno, a imagem da “boneca” está sendo usada por criminosos na promoção de desafios que envolvem, entre outras coisas, atentar contra a própria vida. Mecanismo semelhante ao do suposto desafio conhecido como “baleia azul”.

    À Folha de S.Paulo, o delegado da Polícia Federal em Pernambuco, Giovani Santoro, disse que criminosos tiram vantagem do fato de muitas crianças e jovens atrelarem o número de WhatsApp ao seu perfil no Facebook. Dessa forma, colhem informações sobre a vida da vítima e iniciam conversas pelo aplicativo de mensagens fazendo ameaças e dizendo o que sabe sobre elas.

    Em um caso na Argentina, segundo o jornal O Globo, uma garota de 15 anos foi contatada pelo WhatsApp por um perfil com a imagem da boneca Momo. Inicialmente ignorado, o criminoso enviou fotos de pessoas mortas e mensagens com o endereço, nomes de parentes e amigos da vítima, e exigiu que a menina respondesse.

    Há casos de criminosos que usam o contato para colher informações como senhas, exigir envio de dinheiro ou ainda propõem instalação de “programas maliciosos para roubo de dados ou infecção dos aparelhos”, afirmou a organização Safernet Brasil, em comunicado no início de julho.

    No YouTube, canais populares fizeram vídeos humorísticos sobre o fenômeno, aumentando o alcance do assunto. Um deles, produzido pelo youtuber Felipe Neto e, publicado no dia 20 de julho, tem atualmente mais de 5 milhões de visualizações.

    A boneca Momo atrai atenção desde 2016, mas ganhou maior repercussão no Brasil em meados do mês de julho de 2018, após casos de suicídios no México e na Argentina serem atribuídos à prática de desafios lançados por perfis com a foto da boneca.

    Veja abaixo a comparação de buscas por “Momo” no Google Trends desde junho entre Brasil, Argentina e México.

    Escolas disparam comunicados de alerta aos pais

    Colégios pelo país passaram a soltar comunicados alertando pais e responsáveis sobre o fenômeno.

    No dia 20 de agosto, o Colégio Educacional Recriando, no Rio de Janeiro, publicou nota no Facebook dizendo que alguns alunos haviam assistido a vídeos sobre Momo e levado o assunto para a escola.

    “Nós conversaremos com as turmas maiores sobre o assunto, mas solicitamos a parceria de todos para que as crianças não fiquem assustadas. Cada um de nós tem um canal de informação mais ativo e essas informações são decodificadas de formas diferentes para cada pessoa. Por isso a importância de estarmos atentos a tudo que nossos filhos(as) estão assistindo e compartilhando”, diz a nota.

    Na segunda (27) foi a vez da rede Salesiana Brasil, com escolas espalhadas por todo o país. “Mais uma vez, nos encontramos diante de um cenário preocupante e desafiador para as famílias, que é uma atração perigosa para crianças e adolescentes, que está circulando pelo aplicativo de mensagem WhatsApp”, diz a nota. A rede alerta os responsáveis a “estarem cada vez mais próximos de seus filhos e atentos a essa armadilha virtual, que ameaça as crianças e adolescentes, usando de sua inocência, aterrorizando as famílias e retirando a paz da sociedade”.

    Nesta quarta (29), o Colégio São Paulo da Cruz, na capital paulista, emitiu nota informando sobre o desafio e o risco de golpe. “Por este motivo, alertamos e aconselhamos os pais e responsáveis a permanecerem ainda mais atentos às atividades dos filhos no uso de celulares, com acompanhamento e diálogo, para que estes não caiam nesta recente armadilha virtual, por inocência ou falta de informação”, afirma o texto.

    Já a organização Safernet Brasil, dedicada à defesa de direitos humanos na internet, recomenda ser “fundamental orientar crianças e adolescentes a ter cuidado ao adicionar pessoas desconhecidas e orientá-las a bloquear contatos indesejados sem enviar nada”.

    “Lembramos que proibir o acesso a Internet pelos filhos, confiscar celular e monitorar o uso de aplicativos através de programas ‘espiões’ são medidas pouco educativas e fadadas ao fracasso. Elas não previnem os riscos e comprometem o vínculo de confiança que deve existir entre pais e filhos. A tentativa de eliminar qualquer exposição a riscos em espaços públicos como a Internet é praticamente impossível, e os pais e a escola precisam conversar de forma franca e aberta sobre como os adolescentes podem lidar e responder a esses riscos.”

    Safernet Brasil

    Recomendações sobre ‘suposto desafio da Momo’

    Caso alguém já tenha sido vítima e considere ter sofrido ameaça à sua integridade física, financeira ou emocional, a recomendação é registrar o fato em alguma delegacia por meio de boletim de ocorrência. A Safernet dispõe ainda de um canal chamado Helpline, descrito como “um serviço gratuito de escuta, acolhimento e orientação especializada destinado a crianças, adolescentes, pais e responsáveis que estejam vivenciando alguma situação de risco ou violência online”.

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