O acervo digitalizado da história da Poli-USP desde 1893

Cerca de 90 mil documentos registrados na escola de engenharia da Universidade de São Paulo desde a sua fundação estão agora disponíveis na internet

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    Quatro décadas antes de a Universidade de São Paulo ser criada e incorporar os cursos de engenharia da Escola Politécnica, esta já matriculava seus primeiros alunos. Desde então, a “Polytechnica” passou a guardar todo tipo de documento sobre seus alunos e todos os registros que diziam respeito ao dia a dia.

    O acervo com esses documentos, referentes ao período entre 1893 e 1934, foram digitalizados e estão disponíveis, desde terça-feira (28), no site do Arquivo Histórico da Escola Politécnica.

    No acervo há aproximadamente 90 mil documentos. Alguns são peças que dialogam com momentos da história do país, do estado e da cidade de São Paulo. Outros, nem tanto.

    Em 1901, por exemplo, há um com a “lista de rateio” dos alunos que juntaram dinheiro para comprar uma coroa de flores de um certo túmulo. Já em 1912, o estudante Antonino Gargione levou uma advertência por entrar na escola “armado de revolver” (grafia original) – o qual foi apreendido e “retido por tempo indeterminado”.

    Trivialidades à parte, o acervo pode ser usado como uma rica fonte de pesquisa. Além do cotidiano da Escola, era costume manter o registro do que faziam os estudantes mesmo depois de formados. A primeira escola de engenharia paulista, até 1934, formou agrônomos, geógrafos, arquitetos, mecânicos, maquinistas e engenheiros civis, industriais, mecânicos, químicos e eletricistas. Muitos deles atuaram na construção das rodovias, ferrovias, portos e hidrelétricas até hoje em uso.

    A instituição e seus alunos se envolveram ou foram afetados pelo levante paulista contra o governo de Getúlio Vargas que ficou conhecido como a Revolução de 1932. Alunos e ex-alunos – sobre os quais há diversos documentos disponíveis – da instituição foram mortos no conflito que contou com o uso de granadas de mão construídas pelos engenheiros locais. Da época, há um “Relatório Diário da Seção de Granadas de Mão” (com acesso restrito).

    Mulheres politécnicas

    Foto: Reprodução/Acervo Histórico da Escola Politécnica
    Registro de Bertha Chnaiderman, uma das raras estudantes mulheres da Politécnica, de 1933
    Registro de Bertha Chnaiderman, uma das raras estudantes mulheres da Politécnica, de 1933

    Até hoje, cursos de engenharia são formados majoritariamente por homens. Em 2017, levantamento publicado pelo G1 mostrou que mulheres representavam cerca de 30% das matrículas em cursos de engenharia civil no país. Ainda que baixa, a presença de mulheres atualmente representa um salto na comparação com o início do século 20.

    Ainda que raras, houve mulheres que se lançaram em cursos de engenharia na instituição paulista. Todas estão registradas no acervo da escola. O site do arquivo destaca a primeira delas, chamada Eunice Peregrina de Caldas, que se matriculou como aluna ouvinte ainda em 1899.

    Depois dela, também como ouvintes, Carmela Juliani (1918), Clotilde de Mattos (1924), Luiza La Terza (1927), Helena Koutousoff (1930) e Bertha Chnaiderman (1933) seguem a lista.

    Como estudante formal, a primeira mulher foi Anna Maria Frida Hoffmann, formada em Engenharia Química em 1928. No acervo, estão digitalizados todos os documentos usados para sua matrícula, seu histórico escolar e o que atesta a conclusão do curso.

    Graduada, Hoffmann se tornou também a primeira mulher a fazer parte do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), na USP, como pesquisadora. “O acesso a esta documentação possibilita várias leituras, tais como sobre as dificuldades para frequentar o curso, a relação entre os professores e dirigentes, as notas, tão boas quanto as de seus colegas do sexo masculino”, diz o site do arquivo.

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