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Como é feita a escolha de membros para a Academia Brasileira de Letras

Com candidatura apoiada por abaixo-assinado e nas redes sociais, escritora Conceição Evaristo pode se tornar primeira mulher negra ‘imortal’

 

No dia 30 de agosto, a Academia Brasileira de Letras (ABL) realiza, entre seus membros, a votação que deve eleger um sucessor para o cineasta Nelson Pereira dos Santos, falecido no dia 21 de abril de 2018. Santos era o detentor da cadeira de número 7, cujo patrono é o poeta baiano Castro Alves (1847-1871).

Em abril, segundo uma reportagem da Folha de S.Paulo, a ABL estava dividida entre dois nomes: o do colecionador de manuscritos Pedro Corrêa do Lago e o do cineasta Cacá Diegues.

Uma interferência inédita vinda da sociedade civil no processo de escolha, porém, pode mudar o rumo da eleição. Entre abril e maio, uma campanha nas redes sociais deu origem a um abaixo-assinado em defesa da candidatura da escritora mineira Conceição Evaristo.

Aos 71 anos, a escritora é uma das autoras negras mais reconhecidas do país e pode se tornar a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Ela é autora de romances, contos e poemas, construídos a partir de sua “escrevivência”, termo criado por ela para descrever seu processo literário que parte do cotidiano, da memória e da experiência de mulher negra no Brasil. Publicou seu primeiro livro aos 44 anos e venceu o Prêmio Jabuti na categoria “contos” em 2015, com “Olhos d’água”.

Evaristo formalizou sua candidatura em 18 de junho. O movimento em torno da candidatura, no entanto, não foi bem recebido pela Academia, tendo sido percebido como “intimidação” por seus membros, segundo o blog Painel das Letras, da Folha de S.Paulo.

“Como se sabe, a Casa de Machado costuma ter seus rituais — o que inclui a corte discreta aos acadêmicos antes de a candidatura ser anunciada. E esse passo Evaristo começou quando a campanha já estava na rua”, escreveu Maurício Meireles, autor do blog.

Questionada pelo Nexo a respeito do posicionamento sobre a mobilização, a assessoria da ABL afirmou que não se pronunciaria.

Mobilização

O apoio popular à candidatura de Conceição Evaristo nas redes sociais começou com um post no perfil do Facebook da jornalista e colunista do jornal O Globo, Flávia Oliveira, no dia 24 de abril.

A provocação de Oliveira, que disse que “faltava preto” na ABL, foi registrada no dia seguinte pela coluna de Ancelmo Góis no jornal carioca.

A partir disso, foi criada a hashtag #ConceiçãoEvaristoNaABL, usada em milhares de tuítes para apoiar a nomeação da primeira mulher negra à Academia.

Também foi lançado um abaixo-assinado pela eleição da escritora, organizado pelo coletivo Diálogos Insubmissos de Mulheres Negras. Em 29 de agosto, a petição contava com mais de 21 mil assinaturas.

É a primeira vez que uma eleição na Academia Brasileira de Letras se torna tema de debate nas redes sociais.

A campanha por Conceição Evaristo na instituição gerou 3,6 mil menções no Twitter do dia 1º até 25 de junho, de acordo com um levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (DAPP-FGV).

Processo de votação

A Academia Brasileira de Letras tem 40 membros efetivos e perpétuos – uma vaga de sucessão só é aberta após a morte de um dos membros. Quando isso acontece, os próprios escritores interessados devem postular suas candidaturas.

Na eleição do dia 30 de agosto, referente a apenas uma vaga, o número de votantes possíveis é de 39. Mas, segundo Maria Carmem de Oliveira, secretária da instituição ouvida pelo Nexo, nem todos votarão, por razões de idade e saúde.

O pleito é realizado em até quatro escrutínios e exige que o candidato eleito tenha a maioria absoluta dos votos. Caso não se alcance essa maioria que declara o vencedor em nenhum dos quatro pleitos, a cadeira é novamente declarada vaga, e outra eleição é marcada.

O voto é secreto e é possível votar presencialmente, na sede da Academia no Rio de Janeiro, ou por carta. 

Com relação aos critérios, a secretária da instituição diz serem pessoais de cada votante.

Composição

Segundo um levantamento publicado pelo site Gênero e Número em julho, a Academia é hoje formada por um homem negro, cinco mulheres brancas e 33 homens brancos.

Ainda assim, segundo o Gênero e Número, o retrato da ABL em 2018 é o mais diverso da história da instituição.

Entre os 39, as cinco mulheres brancas e um homem negro, representam, respectivamente 12,5% e 2,5% do total, a maior proporção desses dois grupos nos 121 anos da instituição.

Histórico

A Academia Brasileira de Letras foi inaugurada em julho de 1897 e seu primeiro presidente foi Machado de Assis. A academia literária nacional, dedicada ao “cultivo da língua e da literatura nacionais”, foi criada nos moldes da Academia Francesa e é uma instituição privada independente.

Embora um homem negro  – o escritor Machado de Assis – tenha estado entre seus fundadores, a ABL tem sido um espaço quase exclusivamente de homens brancos, mostra o Gênero e Número.

Eles foram 287 dos 295 nominados “imortais” até hoje, o que representa 97%. As mulheres, todas brancas, são oito até agora, e as duas pessoas negras (Assis e Domício Proença Filho) que passaram pela Academia até hoje foram homens.

Nos primeiros 80 anos de existência da ABL, apenas homens podiam pertencer à academia. A partir de 1951, a exclusão de mulheres se tornou, inclusive, formal, e a restrição à participação de “brasileiros do sexo masculino” passou a integrar o regimento interno.

Somente em 1976 o regimento interno foi alterado para permitir a candidatura de escritoras. No ano seguinte, Rachel de Queiroz se tornou a primeira mulher a integrar a Academia.

“Essa autoria [de mulheres negras na literatura] vem acontecendo, mas são mulheres que não recebem um tratamento de destaque na história da literatura brasileira. Porque essa história é marcada pela autoria de homens brancos de classe média”, disse Evaristo em entrevista ao Nexo em 2017.

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