O projeto que vai criar um novo Muro de Berlim na capital alemã

Instalação ocupará várias quadras da cidade e tem entre seus realizadores cineasta russo que tentou criar ‘realidade paralela’ comunista para filme

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    O stalinismo tem data para renascer no centro de Berlim. Uma gigantesca recriação dos tempos soviéticos acontecerá na cidade entre 12 de outubro e 9 de novembro de 2018. A instalação, que deve ocupar alguns quarteirões, contará com um “muro de Berlim” cenográfico.

    A realização é do diretor de cinema e artista russo Ilya Khrzhanovsky junto com a produtora Berliner Festspiele. Dentro da instalação, visitantes poderão transitar por ruas em que equipamento urbano e placas “darão a impressão de uma viagem em um país estrangeiro”, segundo os criadores do evento.

    Para entrar, será preciso comprar um “visto” e cruzar uma barreira de imigração, como se o visitante estivesse entrando em Berlim Oriental. O celular deve ser trocado por um dispositivo eletrônico que ajudará a realizar um passeio “individualmente customizado”. O local funcionará 24 horas por dia.

    Os responsáveis pela instalação também irão oferecer uma fartura de material audiovisual, num total de 700 horas de material, incluindo 13 longa-metragens e várias séries de filmes. Artistas como o produtor britânico Brian Eno, o grupo britânico Massive Attack e a artista de performance sérvia Marina Abramovic colaboram com o projeto.

    A réplica do muro de Berlim será destruída no final do evento, que coincide com o 29º aniversário da queda da construção original.

    Um dos organizadores da Berliner Festspiele explicou que não se trata de “uma versão à la Disney de Berlim Oriental”. O projeto tem custo estimado de 6,6 milhões de euros.

    Realidade paralela

    Há mais controvérsia ligada à iniciativa. Muitas das imagens a serem mostradas são de um projeto cinematográfico de grandes proporções que o diretor Khrzhanovsky realiza na Ucrânia desde 2009, mas que ainda não foi concluído.

    Chamado “Dau”, o filme recriou um instituto de pesquisas da era soviética em um estúdio perto da cidade de Carcóvia. Durante dois anos, cerca de 400 pessoas ficaram confinadas no “Instituto”, vivendo uma simulação do cotidiano da era comunista. 

    Com 12 mil metros quadrados, o local mantinha regras bastante rígidas. Só era permitido usar roupas de época, com muitos atores e figurantes permanecendo no personagem mesmo quando não havia filmagens acontecendo. Celulares ou acesso à internet eram proibidos. Se alguém tentasse burlar a regra, era multado.

     

    “Talvez eu nunca me encontre em uma situação assim outra vez”, disse um dos residentes ao Moscow Times. “As pessoas hoje são diferentes, mais malvadas; no set de filmagem, todo mundo era generoso, sorriam e se ajudavam. As meninas eram tão lindas sem maquiagem, roupas provocantes ou saias curtas.”

    Um repórter da revista GQ que visitou o local em 2011 teve de se vestir a caráter para entrar no recinto. Ele chamou o projeto de “o mais complicado e ambicioso projeto de filme jamais tentado”.

    A recriação viajou por três décadas de história soviética, entre as décadas de 1930 e 1960. De acordo com os produtores, não havia roteiro, mas tudo que aconteceu no “Instituto” foi filmado.

    “Dau” conta a história do físico russo Lev Landau. Ganhador do Prêmio Nobel, Landau teve uma vida pontuada por histórias de experimentos sexuais, internações psiquiátricas e um acidente de carro que o deixou em coma por dois meses.

    Um dos patrocinadores do filme seria o milionário e filantropo russo Sergey Adoniev, que seria do círculo de amizades de Vladimir Putin, o presidente da Rússia, de acordo com o jornal alemão Der Tagesspiegel. Os produtores dizem que a produção foi financiada integralmente pelo Ministério da Cultura russo.

    Apesar de ter concluído a etapa de filmagens, o cineasta ainda não entregou o filme. A imprensa russa reportou que o ministério tem cobrado de Khrzhanovsky a prestação de contas de US$ 340 mil em custos de produção.

    A vida na Alemanha Oriental

    A Alemanha foi dividida em Ocidental e Oriental com o fim da Segunda Guerra Mundial. Perdedor no conflito, o país foi repartido em “zonas de ocupação” administradas por potências aliadas entre 1945 e 1949.

    Os Estados Unidos, Reino Unido e França cuidavam de regiões do que, a partir de 1949, seria a República Federal da Alemanha, ou Alemanha Ocidental. A União Soviética ficou com o que no mesmo ano se tornaria a República Democrática Alemã, ou Alemanha Oriental. Em 1990, as duas Alemanhas voltaram a ser um só país.

    No lado oriental, saúde e educação eram gratuitas e havia pleno emprego. Por outro lado, a economia era toda controlada pelo Estado e liberdades individuais eram restritas. Até a construção do Muro de Berlim, em 1961, estima-se que um quarto dos habitantes do lado oriental fugiu para a Alemanha capitalista.

    O Museum in der Kulturbrauerei, em Berlim, conta com uma exposição permanente sobre a vida na Alemanha Oriental. “A vida cotidiana na RDA” apresenta 800 itens originais e mais de 200 documentos sobre o tema, além de gravações em áudio e vídeo.

    O museu afirma ter em seu acervo ainda cerca de 160 mil objetos de design do dia a dia da Alemanha comunista que estão sendo catalogados e pesquisados.

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