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Por que a obra de James Baldwin precisa ser lida no Brasil

Em entrevista ao ‘Nexo’, uma editora, um sociólogo e um antropólogo, conhecedores da obra do escritor e ativista americano, detalham a importância de conhecê-la hoje

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    Ao assistir aos primeiros minutos do documentário “Eu não sou seu negro”, é difícil não se perguntar o que o escritor e ativista James Baldwin americano teria a dizer sobre os Estados Unidos do presente, que em 2016 elegeram Donald Trump.

    Na cena que abre o filme, ao ser perguntado por um repórter branco sobre a melhora na situação dos negros no país, sobretudo no campo da representatividade, Baldwin diz não haver muita esperança e coloca a questão sobre o que aconteceria ao país.

    A entrevista é cortada e surgem na tela fotos de manifestações do movimento Black Lives Matter, que protesta, desde 2014, contra o racismo e a violência policial contra negros no país.

    Indicado ao Oscar de melhor documentário em 2017, o trabalho  do cineasta Raoul Peck usa um livro inacabado de James Baldwin sobre seus três amigos e líderes do movimento pelos direitos civis – Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King Jr –, assassinados nos anos 1960, para examinar questões raciais contemporâneas.

    O filme renovou o interesse pela obra e pelo ativismo de Baldwin. As questões de raça, sexualidade e gênero presentes em seus livros também ganham atenção privilegiada em uma época de intenso protagonismo dessas pautas no debate político.

    No Brasil, a Companhia das Letras lança, entre julho de 2018 e 2019, quatro livros do escritor. São eles, por ordem de publicação:

    • “O quarto de Giovanni” (1956) é o segundo romance do autor. “É um clássico da literatura gay, um romance que descreve a estadia em Paris de um americano que, enquanto espera a namorada voltar da Espanha, engata um caso arrebatador com um italiano e vê suas convicções postas em xeque”, disse a editora da Companhia das Letras Alice Sant’Anna, em entrevista ao Nexo.
    • “Terra estranha” (1962), terceiro romance de Baldwin. “É um verdadeiro tour de force, com mais de 500 páginas, que descreve os vínculos de um baterista com as pessoas que o cercam, tendo como pano de fundo uma Nova York agressiva e inóspita”, diz Sant’Anna.
    • “Se a rua Beale falasse” (1974), romance sobre um casal jovem em Nova York. O livro está sendo adaptado para o cinema por Barry Jenkins, diretor de “Moonlight”, vencedor do Oscar de melhor filme em 2017.
    • “Notes of a Native Son” (1955), ainda sem título em português, está previsto para 2019. O volume de ensaios é definido por Sant’Anna como uma obra-prima da não ficção.

    Além de Sant’Anna, responsável pela reedição das obras de Baldwin no Brasil, o Nexo entrevistou também o sociólogo e professor da Fundação Getúlio Vargas Márcio Macedo e o antropólogo e professor da Universidade Federal de Goiás, Alex Ratts, autor do artigo de 2011 “Negritude, masculinidade, homoerotismo e espacialidade em James Baldwin: uma leitura brasileira”.

     

    Comentários dos três sobre a relevância, pertinência e atualidade da obra do autor americano são agrupados abaixo, em torno de dois temas principais.

    Relevância e atualidade

    Alice Sant’Anna Baldwin narrou como ninguém a realidade sombria dos Estados Unidos, quadro que se mostra profundamente atual não só lá, mas no Brasil e em todo o mundo.

    Ao abordar temas como a questão racial, a bissexualidade, a homossexualidade, as relações violentas, as opressões veladas e as escancaradas, Baldwin se tornou uma leitura urgente para esses tempos

    Ao abordar – com estilo vibrante, límpido e fascinante – temas como a questão racial, a bissexualidade, a homossexualidade, as relações violentas, as opressões veladas e as escancaradas, Baldwin se tornou uma leitura urgente para esses tempos.

    Márcio Macedo Racismo, homofobia, encarceramento em massa, violência policial e institucional são realidades contemporâneas que afligem indivíduos negros e população LGBTT [o sociólogo usa a sigla com dois ‘T’ para ressaltar as identidades trans e travesti], tanto nos EUA como no Brasil.

    Nessas temáticas, Brasil e EUA sempre foram tomados como realidades muito próximas e dignas de comparação, tanto por ativistas e intelectuais como pela população culta leitora como um todo.

    Baldwin faz uma espécie de realismo, onde se coloca com uma escrita confessional reflexiva, contando sua experiência como homem negro, gay, cosmopolita e expatriado

    James Baldwin nos ajuda a olhar para o Brasil nesses temas de uma perspectiva crítica e desnaturalizada, mesmo falando do contexto estadunidense. Por fim, Baldwin fornece um modelo estético do que poderia vir a ser uma literatura negra nos EUA, incorporando a linguagem, cotidiano e especificidade cultural do universo afro-americano em um diálogo frutífero com os grandes mestres da literatura norte-americana ou do cânone anglo-saxão.

    Baldwin evita maniqueísmos e faz uma espécie de realismo onde se coloca, com uma escrita confessional reflexiva, contando sua experiência como homem negro, gay, cosmopolita e expatriado, oriundo de uma família pobre e religiosa do Harlem, meca da cultura negra norte-americana.

    Diria que Baldwin é conhecido de um público leitor muito específico, mas não do grande público. Isso tem mudado mais recentemente, com uma discussão contemporânea sobre a noção de interseccionalidade trazida por feministas negras, a maior visibilidade da comunidade LGBTT negra e de filmes que resgataram a figura de Baldwin, como o documentário ‘Eu não sou seu negro’, além de uma discussão mais aprofundada a respeito da noção de masculinidade e, especificamente, masculinidade negra, que veio a reboque das contribuições e problematizações do feminismo negro e do movimento LGBTT negro.

    Os textos ficcionais e os ensaios de Baldwin trazem linhas, parágrafos e páginas com personagens negras falando de si ou sendo retratadas com muita acuidade

    Baldwin é um autor que escreveu livros distantes de nós por 44 anos, mas evidencia uma lucidez na escolha e forma de lidar com os temas que impressiona qualquer leitor contemporâneo.

    Alex Ratts Os textos ficcionais de Baldwin, assim como os ensaios, trazem linhas, parágrafos e páginas com personagens negras falando de si ou sendo retratadas com muita acuidade, no tocante às tensões e identificações da pessoa negra e do corpo negro, das relações interraciais e homoafetivas.

    Baldwin nos remete à literatura de autores/as negros/as brasileiros dos anos 1970 e 1980 como Paulo Colina, Oswaldo de Camargo e Conceição Evaristo, dentre outros.

    São autores que trazem as questões negras e raciais como constitutivas da nação e da formação brasileira, com textualidades variadas, todas muito primorosas no que concerne às narrativas e temporalidades, descrições de pessoas e corpos, à relação entre corporeidades e espaços segregados por raça, gênero e classe, antecipando, junto com autoras feministas negras, a perspectiva interseccional.

    Histórico de recepção no Brasil

    Alice Sant’Anna James Baldwin é um dos escritores mais importantes do século 20, mas esteve longe das estantes brasileiras nas últimas décadas. A retomada das edições, com novas traduções, busca preencher essa lacuna.

    Márcio Macedo Entre romances e coletâneas de ensaios, vários livros de James Baldwin foram publicados no Brasil entre os anos 1960 e 1980. Contudo, há uma divisão na forma como foram lidos: ‘O quarto de Giovanni’ é um livro que foi lido majoritariamente por um público gay, uma vez que a questão racial não é colocada de forma explícita (mesmo que esteja presente no livro).

    Baldwin afirma a sua independência nesse livro, escrevendo não necessariamente como um escritor/autor negro falando de questões raciais (os personagens do livro são, em sua maioria, brancos americanos e a história se passa em Paris).

    Os outros livros de Baldwin publicados posteriormente no Brasil, começando por ‘Terra Estranha’, já abordam a questão racial e passaram a chamar a atenção de um público negro, em boa parte, de ativistas e intelectuais. A leitura de Baldwin também se dava no contexto de entendimento das relações raciais nos EUA dos anos 1960 e, nesse sentido, os ensaios por ele publicados são essenciais.

    Alex Ratts Sua leitura no Brasil entre os anos 1960 e 1980, sobretudo de romances e ensaios, se aproxima da emergência cultural e política desses temas àquela época, que agora se recolocam pela entrada em cena de sujeitos negros diferenciados em seus pertencimentos, no vasto e denso período mencionado (luta pelos direitos civis, entrada em cena do feminismo, uma inflexão da arte negra, particularmente da música e da literatura).

    Baldwin se tornou muito relevante no Estados Unidos, mas também em outros países de significativa presença negra, como Brasil, entre os anos 1950 e 1970, por sua escrita literária (romances e contos) e por observação crítica e sensível (ensaios e entrevistas) das relações raciais, do racismo e da colonização, assim como de temas que nos parecem contemporâneos como imagem, linguagem e corporeidade, gênero e sexualidade.

    Quem foi Baldwin

    James Arthur Baldwin nasceu no Harlem, bairro negro de Manhattan, em Nova York, em 1924. Veio de uma família pobre e religiosa do sul dos Estados Unidos, onde vigoravam as leis de segregação racial conhecidas como “Jim Crow”.

    Sua mãe, Emma Berdis Jones, abandonou ainda grávida o pai biológico de Baldwin e se casou com o reverendo David Baldwin, pastor de moralidade rígida. A relação com o padrasto foi um fator importante do desenvolvimento da produção literária do autor.

    Na escola, seu talento para a escrita foi notado desde cedo e foi estimulado por professores. O contato com o artista plástico Beaufor Delaney também foi importante na introdução de Baldwin no universo artístico. Mas, por dificuldades familiares e financeiras, nunca chegaria a cursar o ensino superior.

    Em 1948, antes de publicar seu primeiro romance e a exemplo de outros artistas e intelectuais, se autoexilou em Paris. Retornou aos EUA nos anos 1950, em meio ao crescimento do movimento pelos direitos civis.

    Baldwin faleceu em 1987, em Saint-Paul-de-Vence, na França, vítima de um câncer no estômago.

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