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Por que o MST aposta na produção de alimentos orgânicos

Defensora da agroecologia como contraponto ao agronegócio, organização dos sem-terra vê na comercialização de produtos uma oportunidade de 'diálogo com a sociedade'

 

“Desses sem-terra aqui eu gosto, aquele que fecha a pista [estrada] eu não gosto”, disse uma senhora a uma assentada do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) que comercializava sua produção na barraca de uma feira organizada pelo movimento em Maceió. “Mas aqueles sem-terra e esses aqui são os mesmos”, respondeu a vendedora.

A história foi contada por Débora Nunes, da coordenação nacional do MST, ao Nexo. Serviu como exemplo do diálogo que o movimento acredita poder estabelecer com a sociedade urbana por intermédio de suas feiras agroecológicas.

Segundo Nunes, são realizadas feiras desse tipo em quase todos os estados brasileiros em que o movimento atua. A principal ocorre em São Paulo, no Parque da Água Branca. Intitulada Feira Nacional da Reforma Agrária, realizou sua terceira edição em 2018, com duração de quatro dias e lotação nos corredores de venda de produtos.

Nas feiras é comercializada a produção de assentamentos de todo o Brasil de alimentos orgânicos, produzidos segundo princípios da agricultura ecológica. Os dois conceitos foram incorporados no discurso do MST em anos recentes.

Além das feiras próprias, os produtos orgânicos advindos da rede do movimento podem ser encontrados em lojas e feiras orgânicas em bairros de classe média e alta das cidades brasileiras. No Instituto Chão, em São Paulo, o Nexo ouviu de uma vendedora que “sem o MST, não haveria produtos orgânicos no Brasil”.

Projetos e distribuição

Grandes redes de supermercados também contam com produtos de assentamentos em suas prateleiras. Um exemplo é o arroz orgânico produzido pela Cooperativa Agropecuária Nova Santa Rita, do Rio Grande do Sul. Em 2012, a rede Pão de Açúcar comprou 15 toneladas do produto. Atualmente pode ser encontrado no site da rede Zona Sul, do Rio de Janeiro.

Em 2017, o movimento alcançou a posição de maior produtor de arroz orgânico na América Latina: para a safra de 2016-17, foi estimada a colheita de 27 mil toneladas, produzidas em 22 assentamentos. A informação foi confirmada pelo Instituto Riograndense do Arroz (Irga).

No ano de 2013, o MST firmou um acordo com a Prefeitura de São Paulo para fornecimento de arroz orgânico para as escolas municipais da cidade. Segundo comunicado da prefeitura da época, um total de 260 mil crianças estudavam nas escolas que seriam contempladas pelo acordo.

 A demanda pela reforma agrária como vinha sendo feita desde os anos 1980 foi substituída pela defesa da agroecologia, dos “alimentos saudáveis” como alternativa ao “veneno” representado pelos defensivos agrícolas usados na agricultura tradicional

Na cidade de Ribeirão Preto, uma fazenda dedicada à produção de cana-de-açúcar e desapropriada por questões trabalhistas e ambientais se tornou um assentamento com produção diversificada que fornece para iniciativas como o Programa de Aquisição de Alimentos e o Programa Nacional de Alimentação Escolar, ambos do governo federal.

Outros produtos orgânicos plantados pelo MST incluem café, tomate, feijão, mandioca, berinjela, batata-doce, beterraba, entre outros produtos.

Opção pela agroecologia

De acordo com Nunes, o grupo sempre defendeu uma agricultura em oposição ao modelo “hegemônico”. Antes, esse lado a ser contraposto era o do latifúndio, das grandes propriedades concentradas em poucos donos. Atualmente, é o chamado agronegócio.

Para a coordenadora, o contraponto não poderia “reproduzir a lógica do outro lado”, desde o modo de trabalhar com a terra até a relação com o meio ambiente. Ao mesmo tempo, o movimento sempre apostou no modelo das pequenas propriedades, centradas na família.

Ela conta ainda que, em 2014, durante o sexto congresso do movimento, foi feita "uma elaboração teórica da prática que já tínhamos desde os anos 1980”. A luta pela reforma agrária como vinha sendo feita foi substituída pela defesa da agroecologia, dos “alimentos saudáveis” como alternativa ao “veneno” representado pelos defensivos agrícolas, ou agrotóxicos, usados na agricultura tradicional.

A opção do movimento “tem um poder simbólico muito grande, capaz de conseguir a adesão de muitos agricultores”, acredita Marcos Sorrentino, professor do departamento de Ciência Florestais da Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo). “A agroecologia é a maneira de garantir o sucesso da agricultura familiar”, acrescentou, em entrevista ao Nexo.

No entanto, o conceito define um olhar para a produção agrícola que leve em conta não apenas modos e técnicas de produção, mas as relações sociais e econômicas envolvidas e o impacto no meio ambiente. Assim, a produção da agroecologia é orgânica (embora nem sempre tenha a certificação oficial), mas produtos orgânicos não são necessariamente agroecológicos.

“A agroecologia pressupõe uma nova forma de vida. Não consigo produzir se as relações humanas e sociais não foram saudáveis, se as relações de gênero não forem saudáveis”, afirmou Nunes.

Fatores que também devem ser considerados são “o uso do espaço e dos recursos; aumento de  produtividade e uso mais eficiente de solo, nutrientes, água e radiação solar; reciclagem de nutrientes; conservação da água”, de acordo com o livro “Agroecologia: as bases científicas da agricultura alternativa”, do agrônomo chileno Miguel Altieri, uma referência no tema.

Origens do MST

O MST começou a se consolidar na década de 1980. Não foi o primeiro grupo organizado de trabalhadores rurais. Antes dele, iniciativas como Ligas Camponesas e Movimento de Agricultores Sem Terra (Master), atuantes entre as décadas de 1940 e 1960, defenderam a reforma agrária no país. A ditadura militar (1964-1985) reprimiu com violência esses grupos, prendendo ou matando seus líderes e membros.

As disputas no campo e os pedidos por reforma agrária não arrefeceram. Entre o fim da década de 1970 e o início dos 1980, em paralelo à abertura política, protestos de sem-terra se intensificaram em diferentes pontos do país. Em 1984, é fundado um movimento de abrangência nacional.

No ano seguinte, em Congresso, o grupo afirma sua opção pela ocupação do que considera propriedades rurais improdutivas. Em maio de 1985, foram realizadas 12 ocupações em Santa Catarina. Em pouco tempo, havia movimentos do tipo em diversos estados. Com a pressão, governos iniciaram políticas de desapropriação de terras e assentamento de agricultores ligados ao movimento.

Segundo dados do site do movimento, o MST está atualmente presente em 24 estados nas cinco regiões do país. O número de assentados totaliza 350 mil famílias, afirma a página da organização.

De acordo com o site do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), o assentamento rural é um conjunto de várias unidades independentes onde “originalmente existia um imóvel rural que pertencia a um único proprietário”. Para o instituto, tal propriedade deve contar apenas com a mão de obra familiar para sua produção.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto falava em Programa Nacional de Merenda Escolar. Na realidade, o programa federal responsável se chama Programa Nacional de Alimentação Escolar. O texto foi corrigido às 11h33 de 27 de agosto de 2018.

 

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