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Como uma mostra levantou a questão do ‘olhar feminino’ no cinema

Retrospectiva feita em Nova York coloca em evidência trabalho de diretoras de fotografia e discute teoria feminista aplicada a filmes

     

    A direção de fotografia está entre as funções em que as mulheres são mais subrepresentadas no cinema.

    Elas são, além disso, pouco reconhecidas na profissão: em Hollywood, somente em 2018 uma mulher (a americana Rachel Morrison) disputou, pela primeira vez, o Oscar na categoria de melhor fotografia.

    “A persistência do termo ‘cameraman’ diz tudo”, critica o texto de apresentação de uma retrospectiva realizada no Lincoln Center, complexo de artes localizado em Nova York, dedicada à contribuição das fotógrafas para o cinema.

    “Apesar da falta de representatividade, mulheres inovadoras deixaram sua marca na área através de seu talento extraordinário e profunda visão”, diz ainda o texto.

    Realizada entre 26 de julho e 9 de agosto de 2018, a mostra exibiu 36 filmes dirigidos por cineastas tão diferentes quanto o americano Ryan Coogler, a francesa Claire Denis, argentina Lucrecia Martel e o japonês Kiyoshi Kurosawa, destacando o trabalho das diretoras de fotografia nesses filmes.

    Além de homenagear fotógrafas de cinema como Agnès Godard, Natasha Braier, Ellen Kuras e Babette Mangolte, a programação também pretendia discutir, em painéis e entrevistas com as diretoras de fotografia, a existência de um “olhar feminino” no cinema. 

    Antecedente teórico

    Publicado em 1975, o ensaio “Prazer Visual e Cinema Narrativo”, da teórica britânica Laura Mulvey, foi um marco nos estudos fílmicos por fazer uma intersecção inédita entre a teoria feminista, a psicanálise e a teoria cinematográfica.

    Em resumo, Mulvey usa a psicanálise para entender o fascínio exercido pelo cinema hollywoodiano. Ele se explica através da noção de escopofilia (o gosto por olhar), que, de acordo com Freud, é um impulso fundamental.

    De natureza sexual, como todas as pulsões, a escopofilia seria responsável por manter o espectador com os olhos grudados na tela.

    Há o prazer visual voyeurístico, produzido ao se olhar para um personagem ou situação como objeto, e o prazer visual narcisista, derivado da autoidentificação do espectador com a figura da imagem.

    “Em um mundo ordenado pela desigualdade sexual [o termo ‘gênero’ ainda não era usado quando o texto foi escrito], o prazer de olhar se dividiu em ativo/masculino e passivo/feminino. O olhar masculino determinante projeta sua fantasia na forma feminina, que é estilizada de acordo com ele. Em seu papel tradicionalmente exibicionista, as mulheres são simultaneamente olhadas e expostas, com sua aparência codificada em função de um forte impacto erótico e visual, para que se possa dizer que conotam uma qualidade daquilo que foi feito para ser olhado”, escreveu Mulvey. 

    Essa perspectiva masculina, ainda segundo Mulvey, se faz presente em três dimensões: no espectador, na pessoa que está atrás da câmera e nos personagens da obra.

    Esse binarismo entre ativo e passivo, olhar e ser olhado, também se relaciona com a concepção de que a direção de fotografia, no cinema, é uma função masculina.  

    “Uma parte [dessa concepção] tem a ver com a fisicalidade do ofício, que tradicionalmente envolve operar máquinas grandes e pesadas em um set”, disse Madeline Whittle, uma das organizadoras da retrospectiva “The Female Gaze” no Lincoln Center, em entrevista à revista The Atlantic.

    “Mas uma outra parte está ligada em como tendemos a associar o papel de sujeito aos homens e objetos às mulheres. A autoridade implícita no trabalho de olhar é uma que culturalmente relacionamos a homens em posições de poder. Quando mulheres ocupam essa posição, ficamos surpresas de vê-las nele”, disse.

    A ideia da escopofilia no cinema clássico ser forjada a partir de um olhar masculino, teorizada por Mulvey, deu origem à ideia de sua contrapartida feminista: a construção de um “olhar feminino”, a partir do qual a mulher se libertaria do lugar estanque de quem é observado, passando também a assumir a perspectiva ativa daquele que olha.

    “A expressão que identifica o anti-olhar masculino — e a aguardada política que supostamente dela decorre — se tornou de uso popular. Quando mulheres dirigem filmes, tiram fotos, fazem esculturas ou até escrevem livros ou artigos, diz-se frequentemente que estão fortalecendo o ‘olhar feminino’”, diz um artigo de 2017 publicado pelo site The Nation.

    O olhar feminino hoje

    Em 2016, Jill Soloway, criadora da premiada série “Transparent”, deu uma palestra no Festival Internacional de Cinema de Toronto a respeito do olhar feminino.

    Sua fala busca dar algumas definições para o conceito, cujo significado havia sido até então definido como a negação do olhar masculino. Em uma delas, Soloway diz que o olhar feminino usa a câmera para realizar a tarefa cheia de nuances, quase impossível, de se mostrar a sensação que se tem quando se é o objeto do olhar, invertendo o jogo.

    Ao mesmo tempo em que a ideia de um olhar feminino se difundiu para além da Academia, sendo continuamente referida para debater ou destacar a perspectiva de mulheres nas artes, seu uso também é questionado.

    No catálogo produzido para a retrospectiva do Lincoln Center, diretoras de fotografia falam em entrevistas sobre suas trajetórias e comentam a ideia de olhar feminino.

    “Acreditar em um ‘olhar feminino’ significa crer que há um ‘olhar masculino’, e eu sinceramente espero que estejamos indo na direção de um mundo que se baseie em binarismos de gênero”, disse a diretora de fotografia Ashley Connor.

    “Acredito profundamente na teoria de Laura Mulvey sobre o olhar masculino, mas tenho dificuldade de usar o termo hoje porque, à medida em que lutamos pela igualdade de gênero, também redefinimos velhos termos”, disse Connor, que é diretora de fotografia do filme “The Miseducation of Cameron Post”, ainda inédito no Brasil.

    Entre os filmes exibidos na retrospectiva, todos fotografados por mulheres, não há uma “qualidade simplista”, unificada por um olhar feminino, escreveu o repórter David Sims na reportagem publicada pela revista The Atlantic.

    Segundo Sims, o ponto em comum entre eles é o quanto as perspectivas apresentadas são revigorantes e originais. “Há muitas imagens sexualizadas nesses filmes...mas acho que [neles] há uma diferença na relação de poder entre sujeito e objeto”, disse Madeline Whittle ao Atlantic.

    Em seu depoimento para o catálogo da retrospectiva “The Female Gaze”, diretora de fotografia do filme “Demônio de Néon”, a argentina Natasha Braier, afirma que seu olhar ao fotografar se baseia em sua experiência de maneira mais ampla, não somente na sua condição de mulher.

    “Sim, pode-se dizer que meu olhar tem algo de feminino, com certeza, mas também tem algo relacionado ao fato de eu ser uma sul-americana que emigrou para a Europa aos 18 anos; a influência de ter sido criada por dois psicanalistas; de ter vivido em quatro países e mergulhado em diferentes culturas. Meu olhar tem a experiência de viver na floresta com os xamãs, e contém vestígios de cada vez que meu coração foi partido”, disse Braier.

     

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