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A relevância do filme ‘Café com Canela’, segundo este crítico

Produção é o primeiro longa nacional de ficção com uma mulher negra na direção a entrar em cartaz em 34 anos

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    Com uma mulher negra na direção e elenco predominantemente negro, filmado no interior da Bahia, premiado e exibido em festivais nacionais e internacionais, o filme “Café com Canela” estreou em circuito nacional em agosto de 2018.

    O longa-metragem entrou em cartaz em Salvador, no dia 16, e, a partir do dia 23, é exibido em São Paulo, Santos, Rio de Janeiro, Niterói, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre e São Luís. A distribuição foi viabilizada com os recursos do Prêmio Petrobras de Cinema, obtido no Festival de Brasília.

    A última estreia comercial de um longa-metragem nacional de ficção dirigido por uma mulher negra no país foi em 1984, há 34 anos. O filme era “Amor Maldito”, de Adélia Sampaio.

    Em março de 2018, um marco semelhante foi transposto por Camila de Moraes, diretora do documentário “O Caso do Homem Errado”.

    De Glenda Nicácio e Ary Rosa, o filme fez parte da seleção oficial do Festival Internacional de Cinema de Roterdã, venceu o prêmio de melhor filme pelo Júri Popular no 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, em 2017, e foi escolhido para abrir a 21ª edição da Mostra de Tiradentes, em 2018.

    O longa trata do reencontro de Margarida, que vive em São Félix, isolada pela dor da perda do filho, e Violeta, que mora em Cachoeira (ambas são pequenas cidades do Recôncavo Baiano), e vive as adversidades do dia a dia e os traumas do passado.

     

    Representatividade na direção e em cena

    Em um levantamento apresentado no “Boletim Raça e Gênero no Cinema Brasileiro” feito pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, divulgado em 2017, as mulheres negras estão completamente ausentes da função de direção. O boletim foi divulgado em 2017.

    O estudo investigou a presença de mulheres e pessoas negras em filmes brasileiros de grande público, entre 1970 e 2016.

    “[‘Café com Canela’] É uma produção de representatividades. Um elenco negro, um cenário de estéticas da negritude, referências às religiões afro-brasileiras, o cotidiano popular interiorano e a força da mulher são potências que constroem uma narrativa de sutilezas”, escreveu Paula Berbert no portal Geledés.

    “Tem uma coisa curiosa, que, em 2018, fica mais curiosa ainda: eu sinto que ‘Café com Canela’ é um filme otimista”, disse o crítico e professor Juliano Gomes, em entrevista ao Nexo.

    “Ele apresenta uma ideia otimista de Brasil, de comunidade, é um filme que tem uma certa fé na vida. E sem demagogia, porque a morte, o luto, a dor fazem parte da paisagem do filme. Não é que a vida seja um marzinho de rosas e vamos só pensar em coisas positivas. É um filme sobre uma afirmação de vida muito singular, porque não é um filme de alienação de forma nenhuma”, analisa Gomes.

    O Nexo perguntou ao crítico sobre o contexto de produção do longa, o que sua estreia significa para o cinema brasileiro e sobre as características do filme. Juliano Gomes responde abaixo, em três blocos.

    Hiato entre lançamentos

    “Esse marco, ser um um longa de ficção lançado no circuito comercial, dirigido por uma diretora negra, é um indicativo importante.

    O circuito comercial é um marcador mercadológico e, principalmente, de continuidade de carreira. Uma característica dos diretores e diretoras negras é ter carreiras muito descontínuas – muito espaçadas, com muita dificuldade de se manter férteis e produtivas, em que as pessoas consigam se manter trabalhando. Há alguns casos, mas a tendência são filmes muito espaçados.

    Sinto que estamos em um momento diferente nesse sentido. Não só para um filme como o ‘Café com Canela’, mas até para os curta-metragistas [negros] que estão, neste momento, por todo o Brasil, alcançando patamares de visibilidade maiores do que historicamente temos tido.

    Acho que há hoje a perspectiva de um novo patamar – que está longe do suficiente. Porém, há um grupo de cineastas e trabalhadores negros do cinema, na direção, roteiro, produção que têm a perspectiva de ter uma carreira continuada: vão fazer outros filmes, vão poder entrar em editais, vão poder ‘girar’ num papel e num lugar historicamente melhor do que vínhamos tendo antes.

    Este ano, a gente teve ‘O Caso do Homem Errado’, da Camila de Moraes, que é também um filme dirigido por uma diretora negra. No intervalo anterior a gente tem alguns outros filmes: “Vamos Fazer Um Brinde”, da Sabrina Rosa, dirigido com o Cavi Borges, “5x Favela”, um filme de episódios que também é um marco nesse sentido.

    Mas acho que o ‘Café’ tem a distinção de chegar em circuito com uma certa visibilidade, que tem a ver com a carreira que o filme vem tendo, muito marcada pela competição do Festival de Brasília, que é talvez, historicamente, o mais importante e simbólico do calendário brasileiro. É muito importante estar em uma janela como essa, acontece muito pouco”.

    Contexto e produção

    “É curioso estar falando desse filme em um momento de muita discussão no meio cinematográfico por conta de um movimento de mudança nas políticas do setor, em que a agência de cinema está se movimentando na direção de uma concentração de recursos públicos para grandes produtoras.

    Há uma grande discussão e uma mobilização em torno disso. Isso tem a ver com ‘Café com Canela’ porque é um filme muito ligado a um contexto de políticas públicas em vários âmbitos.

    [Os diretores] são ex-alunos da Universidade Federal do Recôncavo Baiano, uma universidade muito nova, que faz parte das novas universidades [federais] criadas fora dos grandes centros urbanos tradicionais do Brasil.

    Há ali uma política em relação à criação da universidade, no acesso à universidade, que foi muito marcante nos últimos 10, 12 anos.

    E estamos em um momento de desmonte dessas políticas, com uma perspectiva bastante obscura quanto a elas serem continuadas.

    Talvez o ciclo que levou a um filme como ‘Café com Canela’ tenha chance de não se repetir. É marcante ter esse filme hoje no circuito como uma lembrança dessas características. Não só eles vêm de uma universidade pública, mas o edital [com que o filme foi feito] é de TV pública que, se não me engano, não foi reaberto. Está ligado à EBC [Empresa Brasileira de Comunicação] e sofre o risco de ser descontinuado.

    É um filme que diz respeito a todo um contexto de políticas públicas ligadas ao audiovisual que estão em pleno risco. Me parece muito importante marcar isso: ele tem uma íntima relação com a disputa do direcionamento das políticas públicas de audiovisual no Brasil.

    É um longa que vem do Recôncavo Baiano, região do Brasil muito rica culturalmente, mas que, em outro cenário, dificilmente conseguiria viabilizar a produção de um longa-metragem. Viabilizou e o filme está aí, fazendo essa bonita carreira”.

    O filme

    “É um filme com recorte na população negra porque trata de um território. É um filme muito ligado àquele lugar, cuja população é eminentemente negra.

    Então, o que o filme mostra é um recorte negro em relação aos personagens, vemos uma maioria de pessoas negras. Muito diferentes entre si, com várias características de personalidade, muito variadas.

    Entretanto, uma coisa muito curiosa que é interessante de se pensar, é que ele não fala de racismo. É um filme de recorte negro, sobre a vida dessas pessoas e o racismo, ações de racismo, não são um tema do filme, não aparecem situações onde isso está frontalmente presente.

    Entretanto, uma subjetividade negra está sendo plenamente mostrada ali, desdobrada em vários níveis. O filme obviamente tem um efeito antirracista; entretanto, essa palavra não é falada e atos de racismo não são material das cenas. Acho isso uma característica distintiva interessante.

    Ele tem um efeito antirracista porque mostra uma comunidade negra de forma diversa, matizada, heterogênea, sem simplificações. Ele contribui para ampliar o imaginário cinematográfico acerca de vidas que são muito brasileiras mas que não chegam às telas de um longa desta maneira. Ele não ensina que ‘racismo é errado’, ele mostra o quão rico e variado pode ser um ambiente simbólico, cultural, subjetivo de pessoas negras. É um filme afirmativo.

    No momento em que o debate antirracista cresce em escala, há às vezes uma premissa de que os trabalhos das pessoas negras têm uma certa obrigação a cumprir na tematização do racismo. Isso me parece algo encarcerante, que prende os artistas.

    É claro que muitos trabalhos vão trazer [o racismo] frontalmente e isso é muito saudável e interessante. Entretanto, a possibilidade de buscar outras perspectivas, de falar de um modo de vida que tem a ver também com raça, mas sem endereçar diretamente a situações de racismo, me parece uma possibilidade muito interessante que o filme coloca.

    Com isso, acho que ele evoca algo muito raro no cinema brasileiro: eu diria que é um filme popular. O que eu chamo de um filme popular é um filme de muita comunicação com as pessoas por apresentar situações de uma vida brasileira média, em uma cidade média, situações plenamente reconhecíveis.

    O filme tem uma fala muito da rua, um tipo de contato com a forma como as pessoas falam que eu acho que é muito comunicativa, além de um enredo sobre família, sobre vizinhança, sobre o modo de vida do brasileiro médio, essa coisa de entrar na casa do vizinho, de vidas muito misturadas, que não são essa vida muito separada de apartamento.

    O filme é sobre uma vizinhança, sobre essa troca, sobre entrar na vida dos outros, ter contato. Uma coisa que me toca no filme é que é um filme profundamente anti-isolamento. Acho que ele é um manifesto para que as pessoas façam contato umas com as outras. Vivemos um momento em que várias coisas nos empurram para a solidão e para o isolamento, para o não contato, inclusive físico. É um filme onde as pessoas se falam, se encostam, invadem as casas umas das outras, mas isso tudo com muito afeto e percepção. Essa ‘invasividade’ é ligada a um enorme carinho.

    Isso está ligado a um certo cinema popular, dos anos 1970 e 1980 – penso aí em uma série de filmes do Carlos Alberto Prates Correia e até do Carlos Reichenbach - que são filmes de situações de um brasileiro médio, eventualmente de baixa ou média renda, que não são das grandes cidades ou de personagens muito elitizados. Há uma descontração que dificilmente aparece nos filmes de maneira não caricata.

    ‘Café com Canela’ faz isso. Ele coloca essa paisagem humana de uma maneira muito direta e concreta, com uma emoção muito aberta, é um filme nada irônico”.

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