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Os fragmentos do racismo americano na arte de Melvin Edwards

Com 81 anos, escultor americano ganha exposição no Masp, em São Paulo, e traz ao país sua série ‘Lynch Fragments’

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    “Melvin Edwards é um dos melhores escultores americanos. Ele é também um dos menos conhecidos”, escreveu o curador, crítico e historiador de arte Michael Brenson em 1988. Naquele ano, Edwards assinou a escultura “Palmares”, uma homenagem sua ao histórico quilombo, nos 100 anos da abolição da escravidão no Brasil.

    Foto: Brandon Seekins/Alexander Gray Associates
    Melvin Edwards em seu ateliê, em 2016
    Melvin Edwards em seu ateliê, em 2016

    Três décadas depois, o artista de 81 anos está no Brasil para a abertura de uma exposição do seu trabalho no Museu de Arte de São Paulo, e foi chamado pelo curador responsável de “um dos principais escultores em atividade no mundo”, cuja obra “só recentemente atingiu o reconhecimento internacional merecido”.

    A exposição sobre Edwards traz para o Brasil a série “Lynch Fragments”, um conjunto de 37 esculturas produzidas desde 1963 pelo americano, e dialoga com as demais envolvidas na mostra “Histórias afro-atlânticas”, inaugurada em junho de 2018 no museu paulista e no Instituto Tomie Ohtake.

    Os fragmentos e o linchamento presentes no título da série se mostram associados nos trabalhos do escultor, que solda peças do passado rural do negro escravizado, elementos da violência contra essa população nos EUA durante o século 20 em meio à luta por direitos civis, e, por fim, objetos da cultura africana.

    Assim a arte de Edwards se traduz em obras de objetos (de tesouras, facas e ferraduras a correntes) e metal derretido e se situa, diz o curador Rodrigo Moura, “na fronteira entre a abstração e figuração”.

    “No início dos anos 1960, o movimento pelos direitos civis estava esquentando. Usei meu trabalho para expressar como me sentia e o que eu achava ser importante. O linchamento foi a mais dominante realidade negativa e noção simbólica na cultura americana. Eu senti que os meus trabalhos precisavam ser tão dinâmicos quanto negativos. Então inventei os Lynch Fragments como um título coletivo (...) Foi apenas experimento e alívio.”

    Melvin Edwards

    Em entrevista, em maio de 2016

    Melvin Edwards nasceu em 1937 em Houston, no Texas. Nos Estados Unidos racialmente segregados, conseguiu vaga no departamento de artes da USC (Universidade do Sul da Califórnia), em Los Angeles, onde se iniciou na escultura com metal.

    “Vi alguns alunos graduados fazendo trabalhos em aço e aquilo me encantou (...) Pedi para um deles me ensinar, tive uma ou duas aulas, mas todo o resto aprendi sozinho.”

    Melvin Edwards

    Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, na quarta (22)

    Na cidade do oeste americano, presenciou as “racial riots” no bairro de Watts, parte de uma série de revoltas conduzidas por americanos negros em protesto a episódios racistas de violência policial.

    Nessa época, deu aulas em colégios e universidades, teve sua primeira exposição individual e, com o reconhecimento, mudou-se em 1967 para Nova York, onde foi convidado a exibir suas esculturas no celebrado Whitney Museum of American Art, o que fez dele o primeiro negro a alcançar tal prestígio.

    Nas décadas seguintes, expôs em diversos países, sobretudo africanos, pelos quais nutria especial interesse. Sua relação com o continente resultou na abertura de um ateliê na cidade de Dacar, no Senegal, em 2000. Desde então, alterna meses de trabalho entre lá e Nova York.

    Abaixo, algumas das esculturas presentes na exposição sobre o artista no Masp, em São Paulo, que fica aberta até 15 de novembro de 2018.

    Foto: Melvin Edwards/Alexander Gray Associates
    ‘His’ (1963)
    ‘His’ (1963)
    Foto: Melvin Edwards/Alexander Gray Associates
    ‘His and Hers’ (1964)
    ‘His and Hers’ (1964)
    Foto: Melvin Edwards/Alexander Gray Associates
    ‘Ogun again’ (1988)
    ‘Ogun again’ (1988)
    Foto: Melvin Edwards/Alexander Gray Associates
    ‘Angola’ (1992)
    ‘Angola’ (1992)

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