Ir direto ao conteúdo

Bolsonaro, debates e o cálculo político da exposição na TV

Candidato do PSL disse que iria limitar participação em debates, voltou atrás, mas não deixou claro se estará em todos. O ‘Nexo’ entrevistou dois cientistas políticos para entender os efeitos dessa decisão

     

     

    O candidato do PSL à Presidência da República, Jair Bolsonaro, levantou dúvidas sobre sua participação nos debates programados até a realização do primeiro turno das eleições, em 7 de outubro.

    O capitão da reserva é vice-líder nas pesquisas de intenção de voto e líder quando nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é excluído.

    A discussão sobre a participação de Bolsonaro nos debates começou com uma declaração do presidente nacional do PSL, Gustavo Bebianno, ao site da revista Veja. O dirigente disse na quinta-feira (23) pela manhã que o candidato estava estudando desistir de todos os debates.

    “Nosso tempo é muito escasso. As viagens nossas são todas de avião de carreira e a equipe é muito pequena. Para nós, é melhor ter contato direto com o povo”

    Gustavo Bebianno

    presidente nacional do PSL

    Bolsonaro cumpria agenda em Araçatuba, no interior de São Paulo. Foi então questionado sobre o assunto. Primeiro, disse que só iria a três debates a partir dali: os promovidos pela TV Gazeta/ Estadão (9 de setembro), SBT/Folha (26 de setembro) e Rede Globo (4 de outubro).

    “Tem três debates na televisão que eu posso ir. Se eu for a todos que me convidam, eu não faço campanha, e faltam só 40 dias”

    Jair Bolsonaro

    candidato do PSL à Presidência

    Um pouco mais tarde, ainda em Araçatuba, Bolsonaro voltou a ser questionado sobre o número de debates dos quais iria participar. Desta vez, o candidato disse que marcaria presença em cinco deles.

    Na sexta-feira (24), a rádio Jovem Pan, que havia programado um encontro entre os postulantes ao Palácio do Planalto para segunda-feira (27), anunciou o cancelamento do debate em razão da ausência de Bolsonaro.

    A agenda de debates tem mais seis encontros marcados. Cinco deles em emissoras de TV (a esses, Bolsonaro diz por ora que vai). Há ainda mais um programado, com transmissão via Youtube.

    Os debates

    9 de setembro

    TV Gazeta, às 19h30

    18 de setembro

    Youtube, às 10h

    20 de setembro

    TV Aparecida, às 21h30

    26 de setembro

    SBT, às 18h

    30 de setembro

    TV Record, às 22h

    4 de outubro

    TV Globo, sem horário divulgado

     

    Já foram realizados dois debates até aqui. O primeiro foi em 9 de agosto, organizado pela TV Bandeirantes. O outro ocorreu em 17 de agosto na RedeTV. Bolsonaro participou de ambos.

    O desempenho na Band

    No primeiro embate de ideias entre os postulantes ao Palácio do Planalto promovido pela Band, o candidato do PSL estava calmo no começo e agitado no final.

    Bolsonaro manteve seu discurso tradicional conservador. Além de ter dito que os trabalhadores precisam abrir mão de direitos para que o país volte a criar mais empregos, ele também criticou os governos do PT e defendeu a Escola Sem Partido.

    O único confronto protagonizado por Bolsonaro no debate foi com o candidato do PSOL, Guilherme Boulos. A tensão entre os dois fez com que ambos chegassem a pedir direitos de resposta, mas nenhum foi aceito pelos organizadores do encontro.

     

    O desempenho na RedeTV

    No segundo encontro entre os presidenciáveis, Bolsonaro permaneceu com o discurso contra o que chama de “ideologia de gênero” e contra o “fantasma do comunismo”, além de ter feito críticas diretas ao PT.

    Dois momentos marcaram a participação do ex-capitão da reserva e candidato do PSL no debate. O primeiro foi quando ele titubeou depois de ter sido questionado pelo jornalista Reinaldo Azevedo sobre as dívidas públicas.

    Já na parte final do encontro, Bolsonaro entrou em confronto direto com a adversária Marina Silva, da Rede. A ex-senadora questionou o candidato do PSL a respeito de seu posicionamento quanto à desigualdade de salários entre homens e mulheres.

    Minutos antes, Bolsonaro tinha dito que os direitos das mulheres estavam garantidos pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e que não era preciso “se preocupar” com esse assunto.

    Marina foi firme com Bolsonaro, cobrando-o não só pela desigualdade de salários entre homens e mulheres, mas por outras posições extremistas do candidato. “Você acha que pode resolver tudo no grito, na violência”, disse a candidata da Rede.

    Após o fim do encontro, ganhou destaque uma foto na qual Bolsonaro lia as palavras “pesquisa, arma e Lula” escritas a caneta em sua mão, numa espécie de “colinha” para se lembrar de temas a serem tratados no debate.

    A exposição da imagem

    O Nexo entrevistou dois cientistas políticos para saber os efeitos da exposição da imagem de candidatos em debates. São eles:

    • Felipe Borba, professor de ciência política da UniRio
    • Fabio Vasconcellos, professor de ciência política da Uerj

     

    Para Bolsonaro, qual o cálculo de ir ou não ir a um debate?

    Felipe Borba Não ir a debates pode prejudicá-lo em dois aspectos. Primeiro, porque o debate é uma forma de compensar a falta de tempo de televisão [Bolsonaro terá apenas alguns segundos nas propagandas que começam em 31 de agosto]. Segundo, porque passa a imagem de alguém que teme enfrentar de peito aberto seus adversários, o que contraria a imagem que construiu nos últimos anos de alguém convicto, determinado e corajoso. Bolsonaro teria de lidar com a crítica de que “amarelou” e tem medo de debater.

    Por outro lado, a campanha pode ter colocado os prós e contras na balança e percebeu que ele tem mais a perder do que a ganhar indo aos debates, pois seu desempenho pode não agregar votos. Sua falta de desenvoltura para debater temas mais densos da pauta pública, como política econômica, por exemplo, talvez transforme os debates em um ambiente hostil para ele.

     

    Fabio Vasconcellos É preciso considerar que debates atraem majoritariamente eleitores com um grau de informação relativamente alto sobre os candidatos. São eleitores mais atentos à cena política. Quase sempre têm uma posição eleitoral prévia quando decidem assistir aos debates. O efeito do debate nesse grupo, portanto, é o de reforçar suas convicções, a sua preferência eleitoral.

    Eleitores mais convictos são cabos eleitorais importantes para os candidatos. É esse grupo que vai atuar nas redes sociais e na internet para ampliar de forma muito dinâmica a visibilidade dos debates e as interpretações sobre os desempenhos. Essas informações acabam chegando de algum modo aos demais eleitores, ou seja, aqueles que preferem outros candidatos ou que estão hoje indecisos.

    No primeiro grupo, quase nada muda. No segundo, sim. Pode haver mudança. Quanto maior o número de indecisos, portanto, mais importantes são os debates ou as informações que esses eventos produzem. É preciso lembrar ainda que um terceiro agente nesse ambiente é como a imprensa vai interpretar a atuação dos candidatos ou a decisão do candidato de não participar. Há um possível prejuízo aí [ao não participar] que ele não controla e que depende de como os outros competidores vão se posicionar.

     

    A estrutura de Bolsonaro nas redes sociais é capaz de contornar eventuais ausências em debates?

    Felipe Borba A militância virtual de Bolsonaro pode suprir em parte sua ausência nos debates e a falta de espaço no horário eleitoral. No entanto, não podemos esquecer que a maior parte da população brasileira ainda se informa principalmente pela TV. As redes sociais são um canal de comunicação mais restrito e complementar, alimentando a própria bolha.

     

    Logo, o seu alcance é bem menor e tende a circular entre pessoas com o mesmo perfil e preferências, apenas alimentando uma bolha, sem ampliar o seu público.

    Fabio Vasconcellos Essa é uma questão importante. Não saberia dizer se é capaz de suprir, mas é um eleitorado bastante ativo, disposto a defender o candidato dos ataques que eventualmente ele sofra nos debates.

    Esses eleitores estarão atentos e vão combater interpretações negativas sobre Bolsonaro, seja em razão das críticas dos adversários, seja por conta da sua ausência nos debates. Tem uma parcela do eleitorado que considera muito importante o candidato participar, porque eles tendem a ver os debates como um teste de fogo para o competidor.

    Se ele não vai, a mensagem transmitida pode ser: ele não tem coragem de enfrentar os adversários. Só que a imagem de fragilidade não combina muito com a imagem que Bolsonaro vem imprimindo e que anima tanto o seu eleitorado. Mas há uma imagem que mais ou menos vem se cristalizando, a de que Bolsonaro não teria conhecimento suficiente sobre as políticas que dizer querer implantar.

    Mas, repito, isso só tem efeito entre os eleitores dos demais candidatos e entre os indecisos que não assistirão ao debate e ficarão sabendo apenas depois como os competidores participaram.

    Ou seja, Bolsonaro, caso não compareça aos debates, vai precisar que seus eleitores engajados acentuem suas ações nas redes para reduzir os prejuízos. Não é possível dizer hoje o quanto eles conseguirão, porque as redes, como sabemos, operam muito por meio de bolhas. A ação deles terá que reverbera para fora da bolha para chegar ao eleitor que gostaria de ver o candidato encarando os demais. E, novamente, especialmente entre os indecisos, ou os que tomaram uma decisão eleitoral, mas não têm ainda tanta certeza.

    O pouco tempo de exposição no horário eleitoral será um problema para Bolsonaro?

    Felipe Borba  Diria que sim, pois, além de não ter espaço para apresentar suas propostas ao eleitorado, Bolsonaro não terá espaço para rebater as acusações que serão feitas contra ele.

    A expectativa inicial é que a campanha de [Geraldo] Alckmin [candidato do PSDB à Presidência] mire a de Bolsonaro para crescer e avançar ao segundo turno, porque os dois disputam o mesmo nicho de eleitorado.

     

    Alckmin terá um latifúndio de tempo de TV e parte desse tempo será para desconstruir a campanha de Bolsonaro, que, por sua vez, não conseguirá responder adequadamente. O sucesso de um é necessariamente o fracasso do outro.

    Fabio Vasconcellos Precisa ser um tempo adequado. Muito tempo de  televisão, no caso de [Geraldo] Alckmin [candidato do PSDB], cria dificuldades também. É mais caro produzir os comerciais e o horário eleitoral, como também pode produzir saturação.

    O eleitor pode simplesmente passar a ignorar a mensagem em função do excesso de mensagens de um candidato.

    Será preciso tomar cuidado para não cansar o eleitorado. É uma estratégia complexa para Alckmin, porque o tucano precisa tirar votos dos outros candidatos. Por outro lado, o competidor com pouquíssimo tempo de TV fica prejudicado.

    Primeiro, porque não pode se defender em uma mesma mídia na qual sofreu um ataque. E, segundo, porque tem reduzida a sua capacidade de produzir mensagens sobre políticas que estão no radar do eleitorado. É provável que Bolsonaro adote uma estratégia de usar a TV apenas para estimular os eleitores a irem para as redes, onde tempo não é problema.

     

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!