Ir direto ao conteúdo

A trajetória do dramaturgo João das Neves, em 3 atos

Diretor, ator e autor de dezenas de peças, Neves se envolveu com o Centro Popular de Cultura, dirigiu o Grupo Opinião e resistiu à opressão e censura durante a ditadura

    Temas

    O dramaturgo, ator e diretor João das Neves morreu na sexta-feira (24), aos 83 anos, em sua casa em Lagoa Santa (MG), em decorrência de câncer. Ele era casado com a cantora Titane e pai de duas filhas.

    Um dos maiores nomes do teatro brasileiro, Neves ganhou notoriedade por sua atuação no teatro de resistência, produzindo peças críticas, políticas e populares, em oposição ao regime militar.

    Ao longo da vida, cravou residência em três estados brasileiros onde se relacionou nesses locais com “o que estava posto à margem”, como definiu o historiador especialista em teatro Fernando Mencarelli, envolvendo a população local na essência da sua produção teatral.

    Ato 1 - Rio de Janeiro

    Nascido no Rio de Janeiro, Neves começou sua carreira como dramaturgo e diretor com o grupo amador Os Duendes, que se apresentava no Teatro Arthur Azevedo, em Campo Grande, bairro da zona oeste carioca a duas horas de distância de Copacabana, onde morava.

    Na época, segundo depoimento do próprio Neves à jornalista Jalusa Barcellos, o grupo escrevia as peças durante o percurso de trem e faziam “de tudo um pouco”, teatro adulto, infantil e de fantoches, como não havia muitos grupos amadores no Rio na época, Os Duendes ganharam “certa importância”, disse.

    Por ironia, a atenção obtida acabou com o grupo. Com a montagem da peça “A grande estiagem”, o cenário foi destruído e o teatro fechado por ordem do então governador Carlos Lacerda. “Era uma peça sobre a seca e, é óbvio, o tratamento tinha de ser político”, explicou Neves.

    Sem teatro e grupo, o dramaturgo foi acolhido no CPC (Centro Popular de Cultura), onde se reuniam artistas e intelectuais interessados na produção de uma “arte popular revolucionária”. Por lá, ficou responsável pela coordenação de todos os projetos de rua, incluindo shows.

    Em 1964, com o golpe militar, o Centro Popular de Cultura foi fechado. Neves trabalhou então com Augusto Boal (então já conhecido por seu trabalho no Teatro de Arena em São Paulo) na montagem do espetáculo Opinião, com músicas de Zé Keti, João do Vale e Nara Leão, substituída posteriormente por Maria Bethânia.

    Com o sucesso, a dupla funda o Grupo Opinião, responsável pela montagem de uma série de peças envolvendo dramaturgos e elencos engajados, egressos do extinto CPC. Entre eles, Millôr Fernandes, Flávio Rangel, Paulo Autran, Ferreira Gullar e Oduvaldo Vianna Filho.

    João das Neves permaneceu como diretor do Opinião por 16 anos, até o fim do regime militar, resistindo à censura sem deixar o tom político de lado. Sobre os anos à frente da companhia, Neves disse:

    “Nosso trabalho era fundamentalmente político e, assim, pesquisar formas nos interessava – e interessa – muito. A busca em arte não é apenas estética. Ela é estética e ética ao mesmo tempo. Eu coloco no que faço tudo o que eu sou, tudo o que penso do mundo, tudo o que imagino da possibilidade de transformar o mundo, de transformar as pessoas. Acredito na possibilidade da arte para transformar. Se não fosse assim, eu não faria arte, faria outra coisa.”

    João das Neves

    No livro "História, teatro e política" (2012), de Kátia Paranhos

    São desse período peças como a releitura de “A Saída? Onde fica a Saída?” (1967), Antígona” (1969), o infantil “A lenda do vale da Lua” (1975), “O quintal” (1978), “Mural mulher” (1979) e “A pandorga e a lei” (1979).

    Com “O último carro”, criada e proibida em 1966, e finalmente encenada em 1976, João das Neves relembrou o povo que tomava o trem com ele na madrugada, partindo de Campo Grande em direção ao centro da capital fluminense, e fez uma analogia do trem desgovernado brasileiro da época. Com montagem inovadora (o cenário circundava o público, que observava o espetáculo do centro da arena), a peça ganhou prêmios e elevou o nome de João das Neves.

    Ato 2 - Acre

    Sem o peso dos militares e “decepcionado com os rumos artísticos dos centros urbanos do Sudeste”, segundo o jornal O Globo, o dramaturgo se muda em 1986 para o Acre, a princípio para um período de seis meses. Acabou ficando oito anos. “A vida vai levando a gente”, explicou à Folha de S.Paulo em 2015.

    No Norte, João das Neves troca o Grupo Opinião pelo grupo Poronga, criado por ele unindo atores profissionais e amadores. No Acre do fim dos anos 1980, a tensão entre seringueiros e fazendeiros crescia. O dramaturgo se aproxima de Chico Mendes, assassinado em dezembro de 1988, apenas dois anos depois da sua chegada. Ao seringueiro e ativista, Neves escreve a peça “Tributo a Chico Mendes”, a pedido do Conselho Nacional dos Seringueiros.

    Próximo a diversos grupos indígenas, Neves se interessa em estudar seus mitos, especialmente os dos povos Kaxinawá, dos quais fica próximo. O resultado da sua pesquisa e do relacionamento com indígenas no estado resulta nos textos de “Caderno de Acontecimentos”, montado em um teatro de Rio Branco, em 1987, e “Yuraiá – o Rio do Nosso Corpo” (1991).

     

    Ato 3 - Minas Gerais

    Em 1992, João das Neves recebe convites para projetos em Belo Horizonte (MG) e deixa o Acre. Na capital mineira, continua suas montagens experimentais e encena “Primeiras Estórias”, uma adaptação do livro de João Guimarães Rosa, conduzindo o público por um trajeto no meio do Parque Lagoa do Nado.

    Por influência da esposa Titane, desperta interesse por tradições populares negras, o que o leva a se aproximar dos grupos de congada, uma manifestação cultural popular negra tradicional em Minas Gerais. Dessa relação, nasceram “Galanga, Chico Rei” (2011) e “A Santinha e os Congadeiros” (2008), peças que contaram com a participação dos próprios congadeiros no elenco.

    “Então a gente vê o João trabalhando nessas linhas, nessas frentes que são outros Brasis, outros territórios, se deslocando sempre fora daquilo que ele considera uma linha hegemônica da cultura brasileira.”

    Fernando Mencarelli

    Professor e pesquisador da UFMG, em entrevista para a “Ocupação João das Neves” do Itaú Cultural (2015)

    Nos últimos anos, Neves não parou de produzir. Merecem destaque a montagem de “Madame Satã” (2015) e “Zumbi” (2012), releitura do antológico musical “Arena Conta Zumbi”, encenado originalmente em 1965 no Teatro de Arena, em São Paulo. A montagem original contou, na época, com música de Edu Lobo, texto de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, que também assinava a direção. Em 2015, o dramaturgo, diretor e ator ganhou uma retrospectiva da sua obra no Itaú Cultural, em São Paulo.

    O acervo físico com a obra de João das Neves foi confiado pelo dramaturgo à UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), mas seus trabalhos também ganharam uma versão digital e estão acessíveis pelo site oficial do dramaturgo.

    “Especialmente no teatro o que vale é o ser humano. E dentro do ser humano o que vale é o espírito coletivo (...) Eu acredito muito num teatro que expressa realmente uma coletividade. Eu aposto as minhas fichas todas nisso, errado ou certo, eu aposto nessa coisa.”

    João Neves

    Em entrevista ao Programa Ribalta, em 2017

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: