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Como o dólar variou em anos de eleição presidencial

Moeda americana acumula alta de 24% este ano. Em 2002 e 2014, valorização se intensificou mais perto da votação

    Depois de dois anos e seis meses, o dólar voltou a ser negociado no Brasil acima da barreira dos R$ 4. A moeda americana já acumula alta de 24% frente ao real desde o primeiro dia útil de janeiro. Parte da valorização é explicada por fatores internacionais, mas a alta dos últimos dias está ligada a notícias no Brasil.

    O dólar já acumula três dias de alta depois que foram divulgadas as primeiras pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República após o início da campanha eleitoral.

    Na segunda-feira (20) pela manhã, a publicação dos números da pesquisa CNT/MDA influenciou a primeira alta, de R$ 3,91 para 3,95. De noite, já com o mercado fechado, foi divulgada a pesquisa do Ibope, que influenciou a alta de terça (21), quando o dólar fechou o dia cotado a R$ 4,03. Na quarta (22), com nova pesquisa, agora do Datafolha, e a moeda americana fechou o dia a R$ 4,05.

    Investidores e empresários que importam para o Brasil agora estão aceitando comprar dólares a preço mais caro porque têm o temor de que, após a eleição, a moeda americana custe ainda mais devido ao chamado efeito eleitoral, quando a incerteza do processo político influencia as expectativas para a economia no futuro.

     
    Qual a ideia que está em jogo
    Agentes do mercado financeiro reagem à divulgação de pesquisas eleitorais uma vez que seus resultados atualizam a probabilidade de determinados candidatos vencerem ou não as eleições. Com base em quanto as propostas de cada candidato se alinham com o que o mercado considera positivo para a economia, os preços dos ativos sobem e descem. Não raro, candidatos à Presidência, diante da perspectiva de poder, acabam mudando ou adaptando seus projetos a fim de "agradar ao mercado". As escolhas dos agentes não são feitas de forma coordenada, mas daí surgem questionamentos sobre a influência desses agentes econômicos dentro de uma democracia.

    Efeito eleitoral repetido

    O processo não é novo no Brasil. A volatilidade de ativos financeiros — como dólar, ações e juros — é comum em anos eleitorais, principalmente em pleitos indefinidos e quando há temor de uma guinada na economia.

    Ela acontece sempre que a eleição está indefinida ou há temor da vitória de um candidato que, na visão do mercado financeiro, tem planos econômicos considerados irresponsáveis. O mercado financeiro representa apenas uma parte da economia, e o dólar é um termômetro da percepção de risco de quem compra e vende ativos ou moeda estrangeira.

    Até agosto

     

     

     

    O dólar em 2018 parte de um patamar mais alto que em anos anteriores, mas é importante lembrar que esse é o valor nominal — a inflação do período não está descontada. Só como exemplo, os R$ 3,30 que a moeda americana superou no fim de julho de 2002 equivaleriam hoje, descontando tanto a inflação brasileira quanto a americana, a R$ 6,40. É um valor bem mais alto que o visto atualmente. A análise da variação percentual acumulada do câmbio até agosto torna mais fácil a comparação dos períodos.

     

    Acumulado

     

    Em anos em que a economia foi bem e em que as eleições tinham favoritos claros ou considerados não arriscados para a economia, o dólar pouco oscilou. Foi assim na reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2006 e na primeira eleição de Dilma Rousseff, em 2010. A eleição de 2014 também foi agitada, mas o dólar pouco se mexeu até agosto.

    Os anos eleitorais mais agitados

     

    A primeira vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, e a reeleição de Dilma Rousseff, em 2014, foram marcadas pela volatilidade no mercado. Nos dois casos, o período de maior nervosismo aconteceu depois de agosto, o que pode indicar que a valorização recente é apenas o início de um processo de oscilação.

    Crise perto da votação

     

    A maior valorização do dólar em ano eleitoral aconteceu em 2002, quando a moeda chegou a ser negociada, entre o primeiro e o segundo turno, com valor 70% mais caro do que em janeiro. Depois da vitória de Lula e de ele reafirmar publicamente compromissos com a estabilidade econômica, a moeda americana foi se desvalorizando.

     

    A eleição de 2014 teve característica diferente. Até agosto, o cenário era relativamente calmo, com o dólar em desvalorização ao longo do ano. Mas, no segundo semestre, a economia do país passou a apresentar números ruins, o que polarizou a campanha. A vitória de Dilma Rousseff, diferentemente do que aconteceu com Lula em 2002, aumentou o nervosismo — mesmo com a presidente prometendo fazer um ajuste fiscal após a reeleição.

     

    Entre o primeiro turno e o fim de 2014, o dólar teve valorização de quase 15%. Era o início da crise política e econômica que ainda deixa consequências no Brasil.

    Disparada em 2002

     

     

     

    Em 2018, boa parte da valorização, principalmente até junho, é explicada por fatores externos. A moeda americana ganhou valor frente a moedas de países emergentes em todo o mundo.

     

    O principal motivo é o processo de aumento da taxa de juros nos Estados Unidos, que aumentam a atratividade da moeda. Isso faz investidores trocarem moedas emergentes pelo dólar, o que explica boa parte da valorização.

     

    O efeito eleitoral no Brasil ficou mais claro apenas nas últimas semanas, quando houve certa estabilidade no mundo e o real se desvalorizou mais.

     

    Como o mercado reage

     

    A principal preocupação dos investidores no momento é com o crescimento da dívida pública, alimentado pelos deficits primários que o governo tem desde 2014. O valor do real frente ao dólar é um termômetro dessa preocupação.

     

    Simplificando o raciocínio: os investidores estão preocupados em saber se o próximo presidente vai se comprometer com a redução do deficit fiscal e não praticar intervencionismo excessivo na economia — uma prática que consideram negativa. Na visão deles, a melhor maneira de fazer isso é continuando as reformas iniciadas pelo governo de Michel Temer.

     

    A desconfiança dos investidores é colocada no preço dos ativos, inclusive do dólar. Por isso, boas notícias para candidatos que se dizem contra as reformas como as que foram feitas e propostas por Temer são mal recebidas. Se Geraldo Alckmin (PSDB) ou Henrique Meirelles (MDB) subirem nas pesquisas, isso provavelmente puxará o preço do dólar para baixo.

     

    A preocupação do mercado com a saúde das contas do governo tem a ver com a capacidade que ele terá de pagar o dinheiro que tomou emprestado. Recolocando a dívida pública em uma trajetória sustentável (através do controle de gastos, no caso de Temer), os juros que o governo paga sobre a dívida pública diminuem, pois a percepção de risco de calote diminui.

     

    Com Dilma Rousseff acontecia o contrário. A ex-presidente ampliou os gastos do governo e abriu mão de impostos para tentar incentivar a economia real, mas piorou a situação fiscal do país e ganhou a rejeição dos investidores. Apesar de Luiz Inácio Lula da Silva e Ciro Gomes se declararem comprometidos com o equilíbrio das contas, as propostas deles são vistas pelo mercado como intervencionistas e irresponsáveis do ponto de vista fiscal.

    A situação de 2018

     

    O Brasil hoje é muito menos dependente da entrada de dólares do que era em 2002. Naquele ano, a saída de moeda estrangeira obrigou o governo a recorrer ao FMI (Fundo Monetário Internacional) para repor seu estoque de dólares. Atualmente, o Banco Central tem reservas internacionais de US$ 381 bilhões — ou seja, não faltam dólares para quem quiser comprar.

     

     

    Armínio Fraga, que era o presidente do Banco Central em 2002, no governo Fernando Henrique, acredita que agora a situação é ainda mais complicada — apesar de o país ter reservas. Para o economista, Lula conseguiu na época reafirmar seu comprometimento com a estabilidade econômica fazendo um pequeno ajuste fiscal, de 0,5% do PIB. Agora, na visão de Fraga, o próximo presidente tem que reduzir gastos ou aumentar receitas que correspondem a 6% do PIB — doze vezes mais.

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