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Quem foi Sérgio Vieira de Mello. E os filmes sobre sua trajetória

O brasileiro, que foi diplomata da ONU durante 34 anos, recebe homenagens 15 anos após sua morte em um atentado terrorista em Bagdá

Na terça-feira (7), o MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, promoveu o lançamento do livro “Sérgio Vieira de Mello: o legado de um herói brasileiro”, escrito pelo jornalista Wagner Sarmento, transformado em documentário pela ZAZ Produções. Na quinta-feira (16), o projeto foi apresentado no Palácio do Itamaraty, no centro do Rio de Janeiro.

Documentário e livro, desenvolvidos ao longo de cinco anos, narram a trajetória do diplomata carioca, morto em um atentado terrorista ao prédio da ONU em Bagdá, em 19 de agosto de 2003. Vieira de Mello era Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, posto diplomático mais alto já ocupado por um brasileiro.

Além destes trabalhos, um filme da Netflix sobre Vieira de Mello, a ser lançado em 2019, está em produção. O roteiro foi adaptado da biografia “O Homem Que Queria Salvar o Mundo: Uma Biografia de Sergio Vieira de Mello”, escrito por Samantha Power e publicado em 2008. O ator Wagner Moura deve interpretá-lo.

Quem foi Vieira de Mello

Sérgio Vieira de Mello nasceu em março de 1948, filho de Gilda dos Santos, professora, e de Arnaldo Vieira de Mello, um diplomata brasileiro.

Em 1967, Sérgio (que pedia para ser chamado pelo primeiro nome) e sua mãe se mudaram do Rio de Janeiro para Genebra, onde Arnaldo residia. No ano seguinte, Sérgio mudou-se para Paris, onde completou seus estudos em filosofia na Universidade de Sorbonne, associados às ideias de Immanuel Kant (1724-1804). No título da sua tese de doutorado, “Civitas Maxima”, Sérgio faz referência a um governo supranacional, global.

Como Kant, Vieira de Mello considerava a razão  a guia da história humana, e tem uma abordagem cosmopolita.

Em maio de 1968, ainda como estudante, participou dos protestos estudantis contra o conservadorismo do governo do general francês Charles De Gaulle. Foi preso durante as manifestações e por isso foi impedido pela ditadura militar brasileira de retornar ao Brasil por quatro anos.

No ano seguinte, por determinação do governo militar, seu pai foi suspenso do serviço diplomático. Após o episódio, Sérgio declarou que “jamais trabalharia para o Brasil”. Ainda em 1969, formado, e após rejeitar uma vaga na Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), Sérgio começou a trabalhar no Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados). Esse foi o primeiro ano das suas mais de três décadas trabalhando na Organização.

O que ele fez

Vieira de Mello foi o brasileiro de carreira mais promissora dentro da ONU. Ficou conhecido pelo seu carisma, sua capacidade de negociação, persuasão e idealismo - é descrito como “Maquiavélico idealista” por Samantha Power. Também criticou a postura de descaso dos EUA, e defendia a independência da ONU diante de interesses nacionais de seus membros.

Durante sua carreira, sempre valorizou o trabalho na “linha de frente” - em campo, junto aos conflitos - e criticava os profissionais de carreira na ONU, que não conheciam a realidade. A sua trajetória em campo é, de fato, incomum entre os funcionários do alto escalão da organização.

Como funcionário do Acnur, Vieira de Mello atuou na missão de paz em Bangladesh, após a sua independência do Paquistão, e no Chipre, após a invasão turca no país. Depois, foi delegado substituto no Moçambique, coordenando o fluxo de refugiados durante a guerra civil no país, que em 1975 conquistara sua independência de Portugal. Entre 1981 e 1983, foi conselheiro político sênior da Unifil, a Força Interina das Nações Unidas no Líbano.

Em 1983, ao fim da missão, passou a ser subchefe de serviços de Kofi Annan, então secretário-geral da Organização. Foi nomeado por Annan para dirigir o escritório do Comissariado na Ásia, e também presidiu o comitê geral da Conferência Internacional sobre os Refugiados Indochineses.

Camboja

Em 1991, Vieira de Mello partiu em mais uma missão de campo, como enviado especial do Acnur e diretor de repatriação da UNTAC, a missão da ONU no Camboja. Lá, foi responsável por coordenar a repatriação de cerca de 360 mil refugiados cambojanos no Vietnã.

A comunidade internacional acabara de assistir à queda do muro de Berlim, e o mundo passava a se reorganizar após o fim da Guerra Fria. Nesse contexto, Sérgio foi alvo de críticas, e também de elogios, ao negociar diretamente com o Khmer Vermelho, o partido comunista do país.

Após servir no Camboja, Vieira de Mello se licenciou do Acnur em 1993, para atuar novamente em campo, na Bósnia. Em 1995, voltou à sede de Genebra, onde serviu como diretor de planejamento de políticas e operações do Acnur, e no ano seguinte foi nomeado coordenador humanitário nos Grandes Lagos na África.

Timor Leste

Sua missão de maior destaque foi no Timor Leste, ex-colônia portuguesa, onde foi representante especial da Untaet (Administração Transitória da ONU no Timor Leste). O país havia sido ocupado pela Indonésia durante 24 anos, e nesse período, ocorreram genocídios e a destruição de estruturas governamentais.

A missão no Timor Leste era a de ajudar a construir um Estado. Entre as tarefas da Untaet, estavam: criar uma nova Constituição, escolher moeda e idioma oficiais, convocar eleições e recriar os poderes judiciário, legislativo e executivo (detidos por Sérgio). Apesar do poder que tinha em suas mãos, valorizava a participação ativa da população na definição dos rumos do país. Então, trabalhou para que a presença da ONU fosse o mais curta possível, e o país pudesse se erguer independente de ajuda internacional.

Permaneceu no Timor Leste até a independência do país, em 2002, quando foi alçado ao cargo de  Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Dedicou-se a tornar a posição mais ativa, e afastá-la da burocracia da ONU. Também foi crítico de administrações anteriores e da politização do comissariado - principalmente da influência que sofria de potências, principalmente dos EUA.

No entanto, passou pouco tempo no seu escritório de alto comissário. A pedido de Kofi Annan, então secretário-geral da ONU, morto no sábado (18), Vieira de Mello foi para Bagdá, onde se organizava uma missão de assistência.

A missão havia sido declarada apesar da resistência de diversos países-membro da ONU - era a primeira vez que o Conselho de Segurança aprovava a ocupação de um país membro por outro país membro. Sérgio era crítico da ação americana no Iraque, e resistiu à nomeação para ser representante do secretário geral.

O plano era permanecer em Bagdá por quatro meses, mas em 19 de agosto de 2003, cerca de um mês após chegarem no país, a ONU foi alvo de um atentado terrorista da Al Qaeda, e Sérgio estava entre as 22 vítimas fatais.

A partir de 2008, as vítimas passaram a ser lembradas pelo Dia Mundial Humanitário, declarado pela Assembleia Geral das Nações Unidas.

Legado

Descrito como o “Pelé da democracia” por José Ramos Horta, presidente do Timor Leste (2007-2012) e Nobel da Paz em 1996, o brasileiro era dono de habilidades cruciais para as posições que ocupou. E para Horta, e outros que o conheciam, seria o sucessor natural de Kofi Annan na posição de secretário-geral.

Para Samantha Power, ele “começou como humanitário”, mas ao longo da carreira, se tornou também um diplomata e político. “Ele acumulara o conhecimento mais técnico, não era sobre ideologia - embora ele fosse um idealista, em nome da ONU. Era sobre realmente saber algo; como redigir uma constituição, como realizar eleições, reconstruir uma nação, justiça de transição, policiamento, desmobilizar soldados…”

Vieira de Mello disse, em discurso de boas-vindas a novos funcionários da ONU, que a organização é “a melhor oportunidade” para realizar seus sonhos. E também deixou um lembrete, “nunca se esqueçam de que os desafios reais e as recompensas reais de servir às Nações Unidas estão no campo, onde as pessoas estão sofrendo e precisam de vocês”.

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