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Como ler as primeiras pesquisas com a campanha na rua

Levantamentos de Ibope e MDA apontam Lula com ampla vantagem, mesmo preso e com uma candidatura que provavelmente será barrada pela Lei da Ficha Limpa. Três cientistas políticos analisam os números e o cenário político

     

    As primeiras pesquisas divulgadas com a campanha presidencial oficialmente em andamento colocam Luiz Inácio Lula da Silva na frente, com 37% na preferência do eleitorado, a menos de dois meses para a votação de 7 de outubro de 2018.

    O ex-presidente da República está preso desde 7 de abril pela Operação Lava Jato, condenado pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Continua, porém, sendo um dos pontos centrais da campanha, mesmo diante do fato de que sua candidatura será provavelmente barrada pela Lei da Ficha Limpa em razão de sua condição penal.

    Lula é o candidato oficial do PT registrado na Justiça Eleitoral. O fato de estar preso não o impede de disputar o Palácio do Planalto. Para ser retirado de fato da disputa, serão necessárias outras decisões judiciais, além da análise de seus recursos, o que pode levar algum tempo.

    Algumas previsões apontam para uma definição do Tribunal Superior Eleitoral até o fim de agosto. Não é possível, porém, prever ao certo quando exatamente o destino de sua candidatura será selado. A palavra final será do Supremo Tribunal Federal. 

    Os números da pesquisa MDA

    Na pesquisa MDA,  encomendada pela Confederação Nacional do Transporte e divulgada no fim da manhã de segunda-feira (20), o instituto fez uma comparação com o levantamento anterior, de maio, e registrou um aumento de quase cinco pontos percentuais nas intenções de voto no petista.

    Comparação

     

    O levantamento do instituto MDA foi realizado entre 15 e 18 de agosto, com 2.002 entrevistados. A margem de erro da pesquisa é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos. O restante das intenções de voto não computadas no gráfico acima é formado por entrevistados que não quiseram responder ou disseram não saber em quem votar ainda.

    O instituto não divulgou o cenário no qual o nome de Lula é excluído. Mas tentou aferir o destino do voto do ex-presidente, daqueles 37,3% que dizem hoje que o apoiam. Para onde vão esses votos se o presidente ficar mesmo de fora da corrida presidencial?

    Para quem vai o apoio

     

     

    Segundo o instituto MDA, Fernando Haddad, vice de Lula que assumirá a cabeça de chapa uma vez confirmada a negativa do registro de candidatura do líder petista, é o principal destino do apoio entre os nomes apresentados. Mas a maioria mesmo daqueles que declaram voto em Lula hoje diz preferir votar em branco ou nulo sem ele na disputa.

    Os números da pesquisa Ibope

    Na pesquisa do Ibope, encomendada pela TV Globo e pelo jornal O Estado de S. Paulo e divulgada no fim da tarde de segunda-feira (20), Lula também lidera com ampla margem.

    Cenário com Lula

     

     

    O instituto testou o cenário sem o nome do ex-presidente, que é, no fim das contas, o mais provável. Nele, quem assume a ponta é o candidato do PSL, Jair Bolsonaro.

    Chama atenção também o crescimento daqueles que dizem que vão votar em branco ou nulo: o índice salta de 16% com Lula para 29% sem Lula. Ou seja, no cenário mais provável, o índice daqueles que não escolhem nenhum candidato e optam por um voto em branco ou nulo é maior do que o índice do líder da pesquisa, no caso, Bolsonaro.

    Cenário sem Lula

     

     

    Haddad, o petista cotado para substituir Lula, fica com 4% das intenções de voto. O PT tem até 20 dias antes da eleição para trocar de candidato, senão fica sem nome na urna.

    O levantamento do Ibope foi realizado entre os dias 17 e 19 de agosto, com 2.002 entrevistas. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

    O restante das intenções de votos não computadas nos gráficos acima é formado por entrevistados que não quiseram responder ou disseram não saber em quem votar ainda.

    Como ler os números, segundo estes 3 analistas

    Diante do resultado das primeiras pesquisas divulgadas com a campanha oficialmente na rua (ela foi iniciada formalmente em 16 de agosto), o Nexo entrevistou três cientistas políticos. São eles:

     

    • Eduardo Viveiros, pesquisador de ciência político da PUC-SP
    • Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor de ciência política da FGV-SP
    • Marcia Dias, professora de ciência política da UniRio

     

    O que o resultado da pesquisa representa neste momento da campanha?

    Eduardo Viveiros A pesquisa indica polarização entre uma candidatura de esquerda e uma candidatura de direita - provavelmente entre Lula/Haddad e Bolsonaro.

    A estratégia do PT de tensionar a “corda” da inelegibilidade pode dar certo, uma vez que Lula está crescendo na preferência do eleitorado e isso levaria a um aumento do potencial de transferência de seus votos para Haddad. Essa estratégia, no entanto, é arriscada, tem uma limitação e vai ser testada no início da campanha eleitoral de rádio e TV [em 31 de agosto], se a candidatura de Lula não for impedida até lá.

     

    Marco Antonio Carvalho Teixeira O resultado das pesquisas surpreende, já que Lula está crescendo. O que se imaginava era que ele já começasse a colher o resultado das incertezas sobre sua candidatura, o que as pesquisas mostram que ainda não aconteceu.

    Surpreende também ver [Geraldo] Alckmin [candidato do PSDB à Presidência] continuar empacado. O tucano foi o que construiu o maior arco de alianças. O resultado dessa coalizão já deveria se espelhar de alguma maneira na candidatura dele, mesmo que o horário eleitoral ainda não tenha começado. Isso mostra que a aliança de Alckmin com o centrão não passa de um acordo de cúpulas, que não se reflete nos estados.

     

    Marcia Dias [Os resultados]  mostram que Lula tem uma intenção de voto sólida, consistente e que, na pesquisa espontânea [do instituto MDA], se revela através dos indecisos. Entre a pesquisa espontânea [sem que nomes sejam apresentados para os entrevistados] e a pesquisa estimulada [quando o pesquisador dá uma lista de opções], tem uma diferença brutal no número de indecisos.

    Na espontânea, o número de indecisos está em torno de 38%. Quando Lula aparece na estimulada, esse número cai para cerca de 8%. Significa claramente que essas pessoas entrevistadas, as que estão indecisas e que formam esse volume enorme, são eleitores de Lula. Eles não sabem se Lula vai ser candidato, porque a grande maioria está nessa incerteza sobre a candidatura.

    O que o resultado projeta em termos de estratégia dos candidatos?

    Eduardo Viveiros Devemos lembrar que todos os cenários mostrados nas pesquisas até agora trazem um dado preocupante, que mostra a indefinição marcante nestas eleições: alto índice de brancos, nulos e indecisos. A volatilidade de qualquer cenário, e das estratégias dos partidos, vai ser muito grande.

    Não será surpresa se alguns candidatos não muito expressivos desistirem antes do primeiro turno para apoiarem candidatos dos polos que estão se configurando (direita e esquerda).

    Outra projeção possível afeta Alckmin. O chamado centrão, na iminência de uma “tragédia” eleitoral com Alckmin, pode se dispersar entre as candidaturas de centro-direita e direita.

    Marco Antonio Carvalho Teixeira Para o PT, o resultado dessa pesquisa estimula o partido a levar a questão sobre definição da candidatura de Lula até o limite, na expectativa remota de conseguir o registro dele. A alternativa é partir para o plano B, que é o de lançar o vice [Haddad], que muita gente já lê como o verdadeiro candidato.

    Para Bolsonaro, tudo vai depender da produção de fatos políticos contra ele e da ação dos seus seguidores para combater esses fatos. Isso sem falar também que é preciso aguardar para saber o quanto esses fatos políticos vão afetar a campanha de Bolsonaro no horário eleitoral, já que o candidato do PSL tem pouco tempo de exposição no rádio e na TV.

    Da mesma forma, é preciso aguardar o início do horário eleitoral para analisar os efeitos da aliança do centrão com Alckmin [a coalizão dá o maior tempo de TV ao tucano]. Na minha avaliação, as pesquisas apontam para um cenário mais preocupante para o candidato do PSDB. As próximas duas semanas vão definir a viabilidade da candidatura dele.

    Marcia Dias As projeções que podem ser feitas agora são com base no índice de transferência dos votos de Lula. O horário eleitoral sequer começou. E mesmo assim, Haddad já está herdando a maioria dos votos do ex-presidente.

    Quando o horário eleitoral começar, o PT vai recorrer mais ainda a Haddad falando de Lula. Isso pode vincular de maneira consistente as imagens de ambos, propiciando uma transferência maior de votos e diminuindo aqueles percentuais de votos de Lula que são hoje transferidos para outros candidatos, como Ciro [Gomes, candidato do PDT] e Marina [Silva, candidata da Rede].

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