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O que é saúde indígena. E como este filme trata do assunto

‘Como fotografei os Yanomami’ retrata atendimento prestado em terras indígenas, trazendo à tona questões pouco visíveis

 

Lançado no dia 9 de agosto de 2018, o documentário “Como Fotografei os Yanomami”, dirigido por Otávio Cury, registra o trabalho de enfermeiros e técnicos de saúde junto ao povo indígena. 

As terras Yanomami vão da Serra de Surucucu, no extremo oeste de Roraima, ao estado do Amazonas. Os agentes de saúde só conseguem acessá-las de avião ou helicóptero.

Passam, alternadamente, 30 dias na floresta trabalhando, e 15 em suas casas. O contato dos Yanomami com não indígenas ainda é relativamente recente.

“Nas aldeias de recente contato, quem chega é a saúde. Nelas, o acesso se dá fundamentalmente pelos enfermeiros e técnicos”, disse Otávio Cury ao Nexo.

Cury acompanha, há mais de uma década, a ONG Expedicionários da Saúde. Baseada em Campinas, a organização leva hospitais temporários para terras indígenas. O diretor registra, em foto e vídeo, esse trabalho.

A partir da proximidade do cineasta com esse universo, surgiram os desejos que resultaram no documentário: dar visibilidade e discutir a saúde indígena; falar sobre os profissionais de saúde que atuam nas aldeias, “que têm uma vida única”, segundo Cury; e compreender como a imagem (o registro fotográfico e fílmico das pessoas), para os Yanomami, se relaciona com a doença e a morte.

“O que se chama de saúde indígena, no fundo, é um pouco invisível, porque acontece dentro da terra indígena”, disse o diretor.

 

Segundo ele, na produção cinematográfica brasileira dedicada à temática indígena – feita por brancos, por cineastas indígenas ou em conjunto –, a saúde acaba ficando em segundo plano porque “a prioridade é sempre falar das questões mais urgentes: terra e agressões”.

No bojo do registro do atendimento de saúde nas aldeias Yanomami, o documentário traz outras questões: a relação entre indígenas e não-indígenas, a questão da imagem, o xamanismo, doença, cura, morte e seus significados para os Yanomami.

“Antigamente, antes dos brancos chegarem à nossa floresta, morria-se pouco. (...) Os xapiri eram os médicos de nossos antigos, desde sempre. Apesar de os xapiri saberem curar, hoje em dia os xamãs também precisam contar com o auxílio dos remédios dos brancos para manter essas doenças longe de nós”

Trecho do livro ‘A queda do céu — Palavras de um xamã Yanomami’

Davi Kopenawa e Bruce Albert

No filme, há depoimentos dos técnicos não indígenas em suas casas, depoimentos dos yanomami, entre eles, o agente de saúde indígena, e registros in loco do atendimento.

Os depoimentos são entremeados por trechos do livro “A queda do céu — Palavras de um xamã Yanomami”, de Davi Kopenawa e Bruce Albert, sobrepostos a imagens e sons da floresta.

Eles explicam, na perspectiva dos Yanomami, as concepções do que é adoecer, por que e como se adoece, e a atuação do xamã na cura.

“É assim que nós Yanomami pensamos, quando um não indígena pega nossa imagem. Quando morrermos, a nossa imagem continuará, quando morrermos ela não acabará. Quando estamos com saúde vocês pegam as nossas imagens. Nós Yanomami não somos iguais a vocês, não indígenas. Quando uma pessoa morre, nós não ficamos olhando a sua imagem. Não gostamos de ver as imagens dos mortos. As imagens que vocês pegam não acabam, elas permanecem e isso é ruim, isso nos faz sofrer”

Marcio Hesino Yo

Agente de saúde indígena, em ‘Como fotografei os Yanomami’

Para os Yanomami, a captura de sua imagem pode levá-los a adoecer e até a morte.

“Ao retratar a saúde indígena em terra yanomami, a minha câmera se insere no contexto de saúde. Porque saúde e imagem, ou, mais do que saúde, doença e imagem são noções que fazem parte de uma coisa só para os yanomami”

Otávio Cury

Em entrevista ao Nexo

Contato

Em parte, a complexidade da saúde indígena tem a ver, segundo Cury, com a “eterna questão do contato do branco com os povos indígenas”.

O documentário mostra que essa relação é permeável para ambos os lados. “Da mesma maneira que os yanomami estão com seus celulares, os brancos incorporam rituais”, disse Cury. 

O diretor registra esse encontro, “que, em muitos casos, também pode ser lido como um desencontro”. Diferenças culturais e dificuldades de comunicação fazem parte do atendimento.

“Historicamente, a troca sempre foi prejudicial aos indígenas, eles sempre perderam. Mas ela continua acontecendo”, disse Cury.

 

A ideia, segundo o diretor, foi “dar visibilidade à saúde indígena e discuti-la: se ela é boa, se as pessoas foram formadas ou não para lidar com um povo tão diferente, a questão do idioma”, disse.

Para Cury, o atendimento tem suas limitações, mas também seus méritos.

“Na minha opinião, [os enfermeiros e técnicos] poderiam ser mais bem formados. Tem uma questão com o idioma – é meio crítico atender pessoas com quem você não se comunica. Por outro lado, eles estão lá, na floresta, distantes de tudo, fazendo um trabalho que pouca gente quer fazer. Quando filmei [em 2013], lembro que os postos para médicos estavam vagos há anos”, disse.

O cineasta reforça a multiplicidade de olhares presentes no filme: o xamã, os brancos, o agente indígena de saúde (AIS). “Para mim, ele é um personagem central, porque é quem faz a ponte. O fortalecimento dos AIS é um caminho importante, por isso quis que ele tivesse um protagonismo no filme”, disse. 

“Eu não quis individualizar a história”, disse Cury. “Trouxe vários personagens para compor um todo. Para quem está lá, na ponta, é um emprego. Foram contratados. Precisamos falar do sistema também.”

Organização e desafios

Atualmente, a saúde indígena não é uma competência da Funai, a Fundação Nacional do Índio, mas do Ministério da Saúde.

Na sede do ministério, em Brasília, há a Sesai, a Secretaria Especial de Saúde Indígena. Ela é a administração central dos 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs) do país, que possuem autonomia administrativa, orçamentária e financeira.

O Subsistema de Atenção à Saúde Indígena foi instituído em 1999 e faz parte do SUS, o Sistema Único de Saúde.

Em entrevista ao Nexo, a antropóloga e professora no Departamento de Ciências Sociais da Unifesp, Valéria Macedo, vai ao encontro de Cury ao destacar que, apesar de haver problemas no atendimento prestado nas aldeias, os técnicos e enfermeiros “são pessoas que se dispõem a estar lá por longos períodos, coisa que médicos e muitos enfermeiros se recusam”.

Ela lembra que o programa Mais Médicos nasceu da dificuldade de se encontrar profissionais dispostos a trabalhar nas regiões remotas e afirma que a vinda dos médicos cubanos tem feito a diferença em muitas aldeias.

Segundo Macedo, a precariedade diz respeito às políticas de saúde indígena, indo “muito além da falta de preparação e dos preconceitos das pessoas que trabalham na ponta”.

A questão, para ela, começa no nível federal das políticas de saúde – na disponibilização de recursos para a saúde indígena, no Subsistema de Saúde Indígena que, desde a Constituição de 1988, confere aos indígenas o direito a uma saúde e educação diferenciadas.

 

“Reconhecer esse direito foi extremamente importante, mas conseguir efetivá-lo por meio de políticas públicas é um grande desafio”, disse a antropóloga. 

Macedo explica que a saúde e a educação já estiveram sob a égide da Funai, de um modo extremamente precário.

Com a criação de legislações próprias, de conferências voltadas para a questão e da mobilização por parte dos povos indígenas em suas organizações, têm-se experimentado outros desenhos.

A saúde indígena passou para o âmbito da Funasa, a Fundação Nacional de Saúde. Em seguida, foi criada a Sesai, à quais se vinculam os DSEIs.

Para Macedo, os distritos “são um modelo interessante de pensar a regionalização dos serviços de saúde, a partir de uma divisão que não espelha as unidades da federação, os estados, mas regiões etnográficas, em que existe uma identificação cultural e histórica mínima entre os povos”.

Atualmente, com a criação da Sesai, estabeleceu-se um esquema de convênios com outras instituições – ONGs, prefeituras, associações indígenas – que concorrem a um edital, em que o governo federal seleciona quem serão as instituições gestoras responsáveis pela saúde indígena nos diferentes DSEIs.

“O que acaba acontecendo é que há experiências muito irregulares e variadas em relação à gestão desses recursos e serviços de saúde, a depender dessas instituições. No caso dos Yanomami, as associações yanomami estão entre as que mais denunciam problemas de corrupção, má gestão dos recursos, precariedade dos serviços”, disse Macedo.

Além dos problemas institucionais, há os desafios que dizem respeito às premissas biomédicas em conflito com as premissas indígenas.

Nos atendimentos, segundo Macedo, “há uma hegemonia evidente dos nossos paradigmas, da ciência ocidental, da biomedicina sobre aquilo que contrasta com essas premissas, como os conhecimentos e terapêuticas xamânicas, vistos como crendices, ignorância, primitivismo. Quando muito, até se reconhece que são eficazes, mas é uma eficácia simbólica”, diz.

“Talvez, o desafio não seja que se chegue a um repertório comum e consensuado de tratamentos e significados, diagnósticos e prognósticos das doenças”, disse a professora “mas, sim, que se consiga estabelecer alianças respeitosas, em que práticas possam coexistir. Que os Yanomami e outros povos possam recorrer aos médicos sempre que sentirem necessidade, sem que precisem necessariamente compartilhar o mesmo universo de significados, nexos causais das doenças e tratamentos”.

“A ideia do direito a uma saúde diferenciada é, justamente, o direito dos povos indígenas à autonomia para seguir trabalhando com seus conhecimentos e terapêuticas e poderem, também, recorrer aos serviços médicos providos pelo Estado e seus parceiros”, diz a antropóloga.

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