Foto: Arquivo pessoal

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As Mercenárias surgiram em São Paulo, no início da década de 80
 

“Meus pais não mandam mais

Coloquei LSD em sua água

Sequestrei a sua escova de dente

Me masturbei em sua cama de casal

Injuriei todos os santos da igreja”

A letra acima é da música “Meus pais”. Junto a outras sete canções, fez parte da fita demo que a banda As Mercenárias gravou em 1983. A estrofe explosiva, que em poucas linhas oferece drogas, sexo, rebeldia juvenil e afrontas à família e à religião, é um exemplo da postura de ataque e transgressão desse grupo de mulheres do rock alternativo da década de 1980.

Quando as Mercenárias apareceram em São Paulo, o rock, mais especificamente o pós-punk, eixo estético e discursivo por onde a banda transitou, era território de prevalência masculina. Uma banda formada sem homens, nem sequer um mentor masculino, era uma proposta incomum.

Mesmo assim, “nunca senti uma reação negativa em relação à gente, em nenhum momento”, disse ao Nexo Sandra Coutinho, baixista e cofundadora da banda.

Uma versão de “Meus pais” pode ser ouvida em “Baú 83-87”, coletânea em vinil com sons e imagens da banda que acaba de sair pelo selo independente paulistano Nada Nada. São registros inéditos que até agora existiam apenas em fitas cassete guardadas na casa da mãe da vocalista Sandra Coutinho. De um total de 20 faixas, 10 são completamente inéditas e as outras 10 vêm de um show ao vivo no Sesc Pompéia, em 83, e de uma sessão de estúdio de 1986.

O álbum traz também um livreto de 12 páginas que reproduz o álbum de fotos pessoal de Coutinho, com inúmeros registros raros da banda e suas integrantes em diferentes momentos. Ele também será lançada como caixa em tiragem limitada de 150 cópias contendo fita cassete com outras gravações, 8 posters em serigrafia, camiseta, bottons, adesivo e cópias de três panfletos-fanzines que a banda distribuía em shows.

Da independência à TV trash

As Mercenárias eram as estudantes de jornalismo da ECA Sandra Coutinho e Ana Machado e a aluna de psicologia da PUC Rosália Munhoz. Depois de ter Edgard Scandurra como baterista na formação inicial, o grupo incorporou Lou Moreira (hoje Léo).

Entre o deprimente cenário econômico da chamada década perdida e o contexto político da ditadura em declínio, o Brasil em que surgiram as Mercenárias oferecia bastante material para letras raivosas e inconformadas. Entre os alvos, a polícia, os governos, desigualdade social, violência e a solidão urbana.

Foto: Divulgação

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Álbum e disco de vinil transparente que integram edição especial de 'Baú 83-87', das Mercenárias
 

Seu primeiro álbum, “Cadê as armas” saiu em 1986, pelo selo independente Baratos Afins. O sucesso atraiu a atenção da gravadora EMI, que lançou o segundo álbum “Trashland”. O disco foi listado como um dos melhores discos brasileiros de 87 em votações de críticos.

Era uma época empolgante para a banda, que agora gravava em estúdio grande e tinha hotel pago pela multinacional do disco. “Veio uma esperança de poder viver da música”, relembra Sandra.

Não durou muito. As vendas de “Trashland” não satisfizeram a EMI e a própria banda se viu às voltas com questionamentos sobre o esquema da indústria fonográfica em que acabaram inseridas.

“Quando a gente foi fazer um programa da Mara Maravilha”, contou Sandra. “Fizemos o programa, foi bem ridículo, nós quatro entando num trenzinho e cantando. Quando a gente voltou para casa, fiquei profundamente deprimida porque achei que a música não tinha dado certo. O fato de ter sido permitida num programa de TV desse era sinal de que a música não era mais contestadora ou diferente. Três meses depois, a gravadora dispensou a banda.”

A banda se dispersou no fim da década. Nos anos 2000, coletâneas lançadas na Europa resgataram o trabalho da banda. Entre eles estava uma coletânea chamada “The beginning of the end of the world” (“O começo do fim do mundo”, em português, referência a um festival punk de mesmo nome realizado no Sesc Pompeia, em 1982), lançado pelo prestigiado selo Soul Jazz, baseado em Londres.

“As letras são bem diversificadas, tem contribuição de todas as integrantes. As letras da Rosália [Munhoz, vocalista] são mais misteriosas e poéticas e isso não tem tempo, não fica datado. E as letras que contestam e refletem questões políticas e sociais, elas ainda são atuais”, disse.

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