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Que marca Kofi Annan deixa na diplomacia mundial

Primeiro negro a coordenar a ONU atravessou década marcada por autoritarismos, atentados e guerras

 

Kofi Annan, secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas) entre 1997 e 2006, morreu neste sábado (18), aos 80 anos, em Berna, na Suíça. Deixa como legado a valorização da diplomacia e do diálogo multilateral nas relações entre os países, mesmo em situações de graves crises internacionais.

A notícia da morte de Annan foi publicada no site da fundação ligada a ele. O comunicado não especifica a causa da morte. Diz apenas que Annan morreu acometido por uma “doença rápida”. A família pediu “privacidade neste momento de luto”.

A década que Annan atravessou à frente da ONU foi marcada por atentados terroristas, como o 11 de Setembro, nos EUA, em 2001, e por uma sequência de conflitos armados, especialmente no Oriente Médio, que desafiaram a arquitetura diplomática erguida ao redor das Nações Unidas após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

Os esforços de Annan em favor da diplomacia e da paz foram reconhecidos em 2001, quando ele recebeu o Prêmio Nobel, e contribuíram para manter a ONU de pé, mesmo quando suas instâncias de decisão foram questionadas e desacreditadas por algumas das maiores potências mundiais, como os EUA e o Reino Unido.

A África negra à frente da ONU

Nascido na cidade de Kumasi, no centro de Gana, em abril de 1938, Annan escalou diversas estruturas intermediárias das Nações Unidas antes de ser nomeado o primeiro negro a coordenar a organização.

Ainda jovem, ele estudou economia no estado americano de Minnesota, e relações internacionais em Genebra, na Suíça, assumindo em 1962, aos 24 anos, seu primeiro posto na ONU, no escritório da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Entre 1992 e 1996, Annan passou a trabalhar na repartição responsável pelas forças de paz das Nações Unidas. Durante esse período, a organização viveu um de seus maiores dilemas, que resultou na inação diante do genocídio em Ruanda, no centro da África, em 1994, o maior já registrado desde o holocausto de judeus na Alemanha nazista.

Sua escolha como secretário-geral da ONU se deu em dezembro de 1996. Ela foi respaldada pelo Conselho de Segurança e pela Assembleia Geral das Nações Unidas, como havia ocorrido no passado com os seis antecessores no cargo, mas teve a novidade de receber também, no caso de Annan, a aprovação da maioria dos trabalhadores em quadros técnicos da organização.

O embate com os EUA e o Reino Unido

O mandato de Annan foi marcado pela defesa intransigente do multilateralismo num momento em que duas potências mundiais, fundadoras das Nações Unidas, os EUA e o Reino Unido, pressionaram a organização de forma inédita.

Após os atentados terroristas de 2001 — que derrubaram as Torres Gêmeas, em Nova York, e destruíram parte do Pentágono, na Virgínia — o então presidente americano, George W. Bush, lançou uma série de iniciativas no campo da defesa que tinham como marca o atropelo ao direito internacional.

O sinal mais evidente desse atropelo foi a decisão de atacar o Iraque sem o aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Bush afirmava, sem dispor de provas, que o então presidente do Iraque, Saddam Hussein, mantinha um arsenal de armas de destruição em massa que punha os EUA e o mundo todo em perigo.

A rigor, o Iraque não tinha nenhuma relação direta com os atentados de 11 de setembro de 2001. Os atentados foram perpetrados pela rede terrorista transnacional Al-Qaeda, comandada pelo saudita Osama Bin Laden. Porém, a ação americana contra Saddam se inseria numa estratégia abrangente batizada por Bush de “guerra ao terror”.

Os relatórios produzidos por especialistas da ONU em armas de destruição em massa não confirmavam as suspeitas americanas sobre o arsenal iraquiano. Além disso, o Conselho de Segurança — único órgão capaz de autorizar o uso legal da força nas relações internacionais, segundo a própria Carta da ONU — não aprovou ações militares contra o governo de Saddam.

A despeito da interdição, Bush ordenou a invasão e consequente ocupação do Iraque em 2003, com apoio incondicional do então primeiro-ministro britânico, Tony Blair, que 13 anos depois, seria considerado culpado por uma comissão formada pelo governo do Reino Unido, de envolver o país numa guerra ilegal.

O preço da resistência

Annan não transigiu na defesa do multilateralismo e das Nações Unidas diante da investida de americanos e britânicos. E, de acordo com seu principal biógrafo, pagou um preço alto por isso.

Fred Eckhart, que foi porta-voz de Annan na ONU por oito anos, afirma, na biografia que publicou sobre seu ex-chefe, que o embate com Bush está na raiz de uma série de acusações, segundo ele, infundadas, que marcariam os anos seguintes.

De acordo com Eckhart, a Casa Branca moveu uma campanha subterrânea de difamação contra Annan, envolvendo o nome do secretário-geral e de membros da família Annan em escândalos de corrupção.

“Quem enfrenta os EUA sabe que enfrentará retaliações. E foi isso que aconteceu”, disse Eckhart.

A morte do brasileiro Sérgio Vieira de Mello

Além do embate político, a guerra no Iraque trouxe para Annan um evento traumático que o marcaria pessoalmente de maneira profunda: a morte do brasileiro Sérgio Vieira de Mello.

O diplomata morreu em agosto de 2003, aos 55 anos, num atentado com um caminhão carregado de explosivos lançado contra o escritório das Nações Unidas em Bagdá.

Annan tinha se oposto à nomeação de Vieira ao cargo, mas cedeu à pressão dos EUA, conta Eckhart. Após o atentado, o secretário-geral recorreu a auxílio médico por sofrer com uma depressão.

Qual o papel do secretário-geral

A Secretaria Geral é o posto mais alto da ONU, organização criada após a Segunda Guerra Mundial a fim de estabelecer um sistema de diálogo global entre os países.

O secretário-geral não impõe a própria agenda, nem defende as próprias teses, embora tenha grande influência. Como secretário do maior clube de países do mundo, ele atua em conformidade com a vontade da maioria de seus membros.

Formalmente, o cargo é descrito pela própria ONU como de “chefia administrativa”. Cabe ao secretário-geral fazer a interlocução de alto nível com todos os chefes de governo dos países-membros. Ele tem poder também de submeter questões à apreciação do Conselho de Segurança, mais alta instância de poder da organização, formada por um grupo de apenas cinco membros permanentes que têm poder de decidir sobre questões de segurança internacional — EUA, China, Rússia, Reino Unido e França.

Atualmente ocupado pelo português António Guterrez, o posto de comandante das Nações Unidas foi definido por seu primeiro ocupante, Trygve Lie, como o “trabalho mais difícil do mundo”.

Antes de Guterrez, passaram por lá o sul-coreano Ban Ki-Moon (2007-2016), o próprio Annan (1997-2006), o egípcio Boutros Boutros-Ghali (1992-1996), o peruano Javier Perez de Cuellar (1982-1991), o austríaco Kurt Waldheim (1972-1981), o birmanês U Thant (1961-1971), o sueco Dag Hammarskjöld (1953-1961) e o norueguês Trygve Lie (1946-1952).

ESTAVA ERRADO: Versão anterior deste texto dizia que Kofi Annan foi o primeiro africano a ser nomeado secretário-geral da ONU. Na verdade, o primeiro foi o seu antecessor no cargo, Boutros Boutros-Ghali, nascido no Egito. A correção foi feita às 15h08 de 18 de agosto de 2018.

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