Ir direto ao conteúdo

Por que a Turquia está numa disputa econômica com os EUA

Em meio a sanções econômicas americanas, presidente turco fala em ‘punhalada pelas costas’

A lira turca, moeda da Turquia, teve uma desvalorização frente ao dólar de 18% na segunda-feira (13). Essa queda descomunal para um só dia tem razões tanto econômicas quanto diplomáticas entre Turquia e Estados Unidos.

A desvalorização sinaliza um risco de crise econômica na Turquia, a influência dos EUA em uma região estratégica da política internacional e também tem efeitos em outras economias emergentes, como o Brasil.

A questão fiscal da Turquia

A Turquia registra deficit fiscal, tem um setor privado com dívidas em dólar no exterior e enfrenta uma inflação alta (aproximadamente 15% ao ano, um recorde desde 2004). O presidente Recep Tayyip Erdogan se recusa a adotar políticas de austeridade para reduzir os deficits orçamentários ou a aumentar os juros para conter a inflação, medidas que costumam ser impopulares.

Esse quadro desagrada a investidores estrangeiros, pois identificam um risco de descontrole fiscal no futuro e maior probabilidade de um eventual calote da Turquia. Essa percepção faz com que demandem taxas de juros maiores para investir dinheiro no país.

Sem uma política de austeridade nos gastos públicos e sem aumento de juros, a tendência é de saída de investimentos estrangeiros da Turquia. Com isso, a moeda local vem perdendo o seu valor recentemente.

Antes da segunda-feira (13), que foi o dia mais crítico, a desvalorização da lira turca frente ao dólar já acumulava algo em torno de 40% apenas em 2018. Nos dias seguintes, recuperou uma parte da perda.

A desvalorização preocupa o presidente turco. Em mais de uma ocasião, ele pediu para que a população vendesse os dólares, euros e ouro que possuía, a fim de fortalecer a moeda nacional.

Mas o que os EUA têm a ver com isso

O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou no dia 10 de agosto que dobraria as taxas sobre o aço e o alumínio turcos. Os EUA são o principal país importador do aço da Turquia. Isso complicou ainda mais a economia do país, porque ficou mais caro exportar esses produtos para os EUA.

O governo turco reagiu e aumentou as tarifas sobre produtos americanos. As medidas do país asiático têm pouco reflexo na economia dos EUA, mas a guerra comercial influenciou a queda da lira turca frente ao dólar.

“Estamos juntos na [aliança militar] Otan, mas, por outro lado, vocês [EUA] tentam apunhalar pelas costas um parceiro estratégico”

Recep Tayyip Erdogan

presidente da Turquia, na segunda-feira (13), dia da maior desvalorização da lira turca

O aumento das taxas pelos americanos vem seguindo uma posição do governo Trump, que tomou medidas semelhantes em outros países. Contudo, existem motivações políticas específicas no caso da Turquia.

O fator diplomacia

Os problemas recentes entre os dois países vêm, pelo menos, desde 2016. Em julho daquele ano, houve um golpe de Estado fracassado na Turquia contra o presidente Recep Tayyip Erdogan.

Após a tentativa, o governo acusou como respons��vel o opositor Fethullah Gülen, líder e educador muçulmano que vive nos EUA em autoexílio. Hoje, Gülen está na lista turca de terroristas procurados. Milhares de pessoas foram presas, processadas ou demitidas na Turquia ao serem apontadas como apoiadores de Gülen.

Entre essas pessoas, está um pastor evangélico americano. Andrew Brunson vive na Turquia desde a década de 1990. Ele foi preso logo após a tentativa de golpe contra Erdogan e está respondendo na Justiça turca a acusações criminais de terrorismo e espionagem. Em julho de 2018, passou para o regime de prisão domiciliar.

Os EUA afirmam que não há evidências que incriminem Brunson, e que portanto o processo e a prisão são arbitrários. Pressionado por instituições e eleitores evangélicos, o governo Trump já solicitou a extradição de Brunson mais de uma vez, sem sucesso.

Há anos os EUA negam pedidos de extraditar Gülen. Por outro lado, a Turquia faz o mesmo com Brunson.

“No momento, nossas relações com a Turquia não vão bem”

Donald Trump

presidente dos EUA, na sexta-feira (10)

Outra querela diplomática que separa ambos os países é a compra pela Turquia de um sistema antimísseis russo. Como resposta, o Senado americano barrou a venda de caças para a Turquia.

Vai contra os interesses dos EUA haver tecnologia militar russa entre os membros da Otan, maior aliança militar do mundo e da qual os americanos são os principais líderes e financiadores. A Rússia não faz parte da Otan e é a segunda maior potência militar.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: