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Como a voz de Aretha Franklin inspirou a música e o ativismo negros

A ‘rainha do soul’, criada na música gospel, morreu em agosto de 2018. Interpretação potente destacou a artista nas décadas de 1960 e 1970

Temas

 

In the whole world you know

There are billion boys and girls

Who are young, gifted and black,

And that's a fact!

 

(Em todo o mundo, você sabe,

Existem bilhões de garotos e garotas

Que são jovens, abençoados e negros,

E isso é um fato!)

“Young, gifted and black”, Aretha Franklin

 

Aretha Franklin foi uma das mais vibrantes vozes do orgulho negro que ganhou força nos Estados Unidos nas décadas de 1960 e 1970. Na música e fora dela. A cantora americana morreu em 16 de agosto de 2018, aos 76 anos, depois de um longo tratamento contra um câncer no pâncreas.

Quando Aretha pediu “r-e-s-p-e-i-t-o” em seu sucesso “Respect”, de 1967, cantava como mulher que não iria tolerar abuso de um parceiro. A versão original havia sido composta por um homem, o cantor Otis Redding, mas Aretha reconstruiu seu arranjo e seu sentido. Confiante e urgente, a música tornou-se um canto para as batalhas feministas e antirracistas da época.

Aretha vinha de berço ativista: o pai, o reverendo C. L. Franklin, discursava e pregava misturando cristianismo e afirmação negra. “Papai pregou orgulho negro por décadas”, afirmou a cantora a um biógrafo. “E nós como povo tínhamos redescoberto quão lindo o negro realmente era e estávamos repetindo ‘fale alto, sou negro e com orgulho’ [referência à música de James Brown, “Say it loud, I’m black and I’m proud”].”

Orador poderoso, o reverendo Franklin era amigo pessoal de Martin Luther King Jr. O líder do movimento pelos direitos civis se hospedava na casa da família Franklin quando ia a Detroit. Em 1968, King foi assassinado a tiros em Memphis. Aretha cantou no seu funeral.

No início da década de 1970, Aretha se ofereceu para pagar a fiança da ativista negra Angela Davis, ligada aos Panteras Negras. Davis era acusada de envolvimento em uma fuga de prisioneiros que resultou na morte de várias pessoas. Era opinião corrente entre o movimento negro na época de que Davis, chamada pelo presidente Richard Nixon de “terrorista”, estava sendo vítima de uma injustiça. Aretha se dispôs a doar “seja 100 mil ou 250 mil”, de acordo com declaração da época à revista Jet. Davis acabou absolvida.

Alma à flor da pele

Na música soul, Aretha também promoveu revolução. O gênero promovia uma “secularização” da cantoria do fundo da alma que caracterizava a música gospel das igrejas negras protestantes americanas. Em vez de se dirigir a Jesus, cantores como Ray Charles e Sam Cooke vocalizavam o mundano e, não raramente, o carnal. Nunca como blasfêmia, mas sim com a intenção de projetar raios de transcendência e otimismo em vidas difíceis. O soul se tornou a trilha sonora da era dos direitos civis.

Foi na igreja batista em que seu pai pregava que Aretha Franklin aprendeu a cantar. Sua primeira interpretação à frente do coral foi “Jesus, construa uma cerca ao meu redor”. Entre o fim da década de 1950 e a contratação pela gravadora Atlantic, onde gravou o que é considerada a sua melhor fase, a cantora transitou por jazz, rhythm’n’blues, pop e soul em diversos álbuns.

Seu estilo de interpretar sempre foi intenso e sensual, um veículo para “sentimentos reais”, como disse à época. “Ela faz a salvação parecer erótica”, descreveria o escritor Albert Goldman em um artigo de 1968 para o jornal The New York Times.

Com Aretha, o soul feminino se livrou das amarras. O clichê “soltar a voz” poderia ter sido inventado para definir seu modo de cantar. Uma de suas músicas mais famosas, “I say a little prayer”, é um bom exemplo. Na bonita versão original, com Dionne Warwick, a interpretação é regrada, pontuada por maneirismos. Já Aretha é um fio desencapado de energia e emoção, indo e voltando entre pólos de doçura e força.

O vozeirão de Aretha, apelidada de “rainha do soul”, se tornou um paradigma de interpretação, em cantoras negras e brancas. Sem Aretha, não haveria Chaka Khan, Whitney Houston, Mary J. Blige, Beyoncé, Mariah Carey, Joss Stone e Adele.

Apesar dos clássicos das décadas de 1960 e 1970 serem os mais lembrados, a cantora teve diversos hits nos anos 1980, como “Jump to it” e “Who’s zoomin’ who”, além de parcerias com George Michael, Rolling Stones, Eurythmics e Elton John.

Durante sua carreira, a cantora recebeu 21 Grammys. Em 1987, foi a primeira mulher a entrar para o Hall da Fama do Rock & Roll.

Em tempos mais recentes, Aretha emprestou sua glória para desdobramentos das causas que apoiou décadas atrás. Em 2016, “Respect” renasceu como hino do movimento feminista #MeToo. Alguns anos antes, ela cantou na cerimônia de posse de Barack Obama, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

 

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