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Quais fatores podem provocar a queda de pontes

Desabamento de parte de viaduto em Gênova, na costa na Itália, levanta questões sobre como prever tragédias

 

Um trecho de 80 metros de uma ponte em Gênova, Itália, desabou no dia 13 de agosto de 2018. As primeiras contagens de vítimas confirmaram 23 mortos na tragédia. Chovia na hora da queda e algumas pessoas relataram ter visto um raio atingir um dos cabos da ponte.

Cerca de 30 veículos, entre automóveis e caminhões, estavam sobre a parte que se soltou da estrutura da ponte e despencou de uma altura de 100 metros. Os destroços caíram no córrego Polcevera, que passava por baixo da estrutura. Pedaços da ponte teriam atingindo algumas casas e ruas.

A ponte Morandi, do tipo estaiada, foi inaugurada em 1967 e leva o nome do engenheiro Riccardo Morandi, responsável por seu projeto. O viaduto faz parte de uma rota movimentada da costa italiana. A gestão e manutenção da rodovia são da concessionária privada Autostrade per l'Italia, controlada pela holding italiana Atlantia, que tem como principal acionista a família Benetton.

Segundo o relato de um jornalista ao jornal britânico The Guardian, “há cerca de 200 pessoas trabalhando continuamente no resgate. As pessoas estão em choque. É uma importante via arterial que conecta a Lombardia e o Piemonte com a Ligúria”.

A estrutura de um quilômetro de extensão era sustentada por cabos de aço que partiam de duas torres. “É possível que a corrosão de tendões ou da estrutura de reforço tenha contribuído”, disse um especialista em pontes entrevistado pelo jornal britânico. ”Além disso, trabalhos contínuos de reforma podem ou não ter sido parcialmente responsáveis pelo colapso.” A ponte passava por obras de reforço de sua estrutura atualmente.

Sobre o tema, o Nexo conversou com o engenheiro civil e pesquisador Matheus L. G. Marquesi, doutorando na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e mestre em Estruturas e Construção Civil pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Ele é membro de comitês de revisão de normas técnicas do setor, referentes a projetos de estruturas de concreto (NBR6118) e projetos de pontes de concreto armado e de concreto protendido (NBR7187 - P).

Em termos de projeto e engenharia, quais são os principais fatores que podem fazer uma ponte cair?

Matheus L. G. Marquesi As pontes podem colapsar devido a erros de execução, patologias, eventos naturais excepcionais ou erro de projeto.

Para citar um exemplo recente, poderia explicar o que foi apontado como causa na ponte que caiu em Belo Horizonte na época da Copa do Mundo no Brasil?

Matheus L. G. Marquesi No caso da ponte que caiu em BH, o laudo apontou vários [erros]: entre outros fatores, vale destacar a falta de armação adequada no bloco de concreto da fundação, que fez com que ele se rompesse, além do fato de que o pilar foi cravado no solo pelo peso da estrutura.

Muitas pontes caem por causas naturais, como enxurrada, vento ou um raio (como pode ter sido o caso em Gênova). Os projetos têm de prever esse tipo de ação?

Matheus L. G. Marquesi As normas técnicas fornecem informações que devem ser seguidas para que um projeto esteja adequado. No Brasil, por exemplo, temos uma norma específica para as ações (ou carregamentos) em pontes e viadutos. Ações como vento e correnteza da água em um pilar da ponte devem ser consideradas no projeto. Eventos excepcionais como terremotos ou furacões, dependendo das circunstâncias e da localização da estrutura, são considerados no cálculo e dimensionamento das estruturas.

Falta de manutenção também pode comprometer uma ponte? Em que aspectos a ação do tempo é mais danosa?

Matheus L. G. Marquesi A falta de manutenção pode vir a comprometer a estrutura. As pontes em geral ficam expostas a agentes químicos e à umidade que, com o passar do tempo, podem causar patologias como, por exemplo, a carbonatação, despassivação [ação responsável pelo fenômeno da corrosão das armaduras] e oxidação (corrosão) das armaduras no caso de estruturas de concreto armado e protendido, bem como a corrosão de estruturas de aço. Tais patologias afetam a capacidade portante (capacidade de suporte) da estrutura da ponte. Além disso, outro fator importante é o aumento de tráfego sob as pontes e o tráfego de veículos mais pesados. A ação isolada desses fatores ou mesmo a superposição desses podem levar uma ponte ao colapso.

Como é possível saber se uma ponte se deteriorou ou está prejudicada, a ponto de correr risco de colapsar?

Matheus L.G. Marquesi  Recomenda-se que todas as estruturas de concreto (armado e protendido) permitam que o aço entre em escoamento, ou seja, apresente deformações significativas, antes da estrutura colapsar. Sendo assim, a estrutura avisará, seja por meio de fissuras no concreto ou mesmo [na apresentação de] deformações acentuadas, que o colapso pode ocorrer. Com isso, haverá mais tempo para evacuação de uma determinada estrutura e, consequentemente, vidas serão salvas.

 

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