Por que a inflação do aluguel está tão acima do índice oficial

IGP-M sai de deflação para alta de 8,24% em sete meses e pressiona reajustes dos aluguéis

     

    A FGV divulgou no dia 10 de agosto a primeira prévia do IGP-M (Índice Geral de Preços) de agosto. E o resultado reforçou a tendência de aumento no índice – que serve, entre outras coisas, para reajustar os aluguéis no Brasil.

    O IGP-M é um índice mensal, que mede a inflação entre o dia 21 de um mês e o dia 20 do mês seguinte. Mas tem parciais divulgadas a cada dez dias.

    A primeira prévia do índice de agosto, que mede os preços entre 21 e 30 de julho, subiu 0,7%, mais que os 0,41% da prévia anterior. Com isso, o IGP-M nos últimos 12 meses acumula alta de 8,89%. Considerando o último resultado consolidado, o de julho, a inflação acumulada está em 8,24%. O resultado é surpreendente, já que o índice apresentava deflação poucos meses atrás.

    Ambos os números estão muito acima da variação do IPCA – o índice oficial de inflação no Brasil, usado pelo Banco Central para o sistema de metas. O IPCA, em período parecido, subiu 4,48%. Isso é cerca de metade do aumento medido pelo IGP-M.

    Nos últimos anos, essa diferença foi comum. Apesar de seguirem uma mesma tendência geral no médio prazo, há períodos de diferenças significativas, como agora. O gráfico mostra que, recentemente, a inflação medida pelo IGP-M apresentou-se mais volátil (ou seja, teve variação maior): chegou a estar acima de 12% em 2016 e, cerca de um ano depois, a registrar deflação de quase 2%.

    Os dois índices

     

    Diferenças entre IGP-M e IPCA

    Para entender as diferenças de resultado entre os dois índices, é preciso entender a diferença metodológica entre eles. Índices de inflação diferentes existem para medir a evolução de preços para compras diferentes.

    O IPCA é o índice amplo para o consumidor. Por isso, nele, o IBGE mede o preço de produtos para consumidores com renda entre 1 e 40 salários mínimos – um grupo bastante amplo e diverso. A variação dessa cesta imaginária de produtos de um mês para o outro é o que o IBGE divulga todo mês.

    O IGP-M tem outra função. Ele também mede os preços ao consumidor, mas isso é apenas uma parte do índice. Na conta entram também preços de matérias primas agrícolas e industriais, além dos produtos e serviços. Tudo junto.

    Ele é a junção de três índices: O Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) e o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC).

    O primeiro, que mede os preços dos produtos no atacado, representa 60% do índice. Do restante, 30% cabem ao IPC e 10%, ao INCC. Decompondo o IGP-M, é possível entender por que ele subiu muito acima do IPCA nos últimos meses.

    O índice e seus componentes

     

    O que fez o IGP-M se descolar do IPCA nos últimos meses foi o aumento nos preços no atacado – ou ao "produtor amplo", como chama a FGV. No gráfico, é possível ver como a trajetória do IPA se parece com a do índice geral e como os outros dois índices estiveram bem mais estáveis. Os preços, antes de chegarem ao consumidor, costumam variar mais de acordo com oferta e demanda, para mais ou para menos. Alguns choques tendem a ser amortecidos no varejo.

    Desde o início do ano, a desvalorização do real tem impactado os preços no atacado. O IPA também é muito influenciado pelo preço de commodities no mercado internacional, como soja, trigo e minério de ferro. No geral, esses produtos subiram nos últimos doze meses, segundo o índice CRB medido pela Reuters.

    O preço ao consumidor no IGP-M

    O que o IPCA mede também é levado em conta no IGP-M, mas representa apenas 30% do índice. Apesar de ter diferenças metodológicas, o IPCA é equivalente ao IPC. Ou seja, os preços ao consumidor até influenciam o IGP-M, mas isso é apenas uma parte do índice, que é mais abrangente. Foram os outros índices que formam o IGP-M que puxaram a subida – o IPC em si seguiu bastante parecido com o IPCA.

    Semelhança

     

    O preço dos aluguéis

    O IGP-M é mais conhecido no Brasil por ser a base de reajuste para a maioria dos contratos de aluguel de imóveis. Uma vez por ano, quando o contrato de aluguel faz aniversário, os donos dos imóveis podem fazer reajustes nos preços, desde que isso esteja previsto no contrato.

    Funciona assim: se um contrato foi feito em julho, mede-se o IGP-M dos doze meses anteriores – no caso, entre julho do ano anterior e junho do mesmo ano. O percentual da inflação é aplicado sobre o valor cobrado  do inquilino.

    O reajuste pelo IGP-M vale apenas para os contratos que estão fazendo aniversário. O preço para novos aluguéis é livre e determinado pela oferta e demanda. Com a crise econômica, esses valores ainda estão abaixo de preços de anos atrás, o que pode ajudar o inquilino em uma negociação.

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