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Como o revisionismo sobre Pinochet divide o Chile atual

Ministro da Cultura renuncia depois de engrossar as críticas da direita ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos

 

O ministro da Cultura do Chile, Mauricio Rojas, renunciou ao cargo na segunda-feira (13), apenas quatro dias depois de ter sido nomeado pelo presidente do país, Sebastián Piñera.

A renúncia foi motivada pela repercussão negativa de críticas feitas por Rojas ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos. O museu – um dos mais conhecidos e importantes do país – foi erguido em 2010, em Santiago, como um memorial das vítimas da ditadura que vigorou no país de 1973 a 1990. Sobre ele, Rojas disse o seguinte:

“Trata-se de uma montagem cujo propósito, que sem dúvida nenhuma alcança, é impactar o espectador, deixá-lo atônito, impedi-lo de raciocinar”
“É um uso desavergonhado e mentiroso de uma tragédia nacional que afetou a tantos de nós diretamente e de uma maneira tão dura”

Mauricio Rojas

Ministro da Cultura demissionário do Chile, em trecho do livro “Diálogos de Convertidos” (2015), escrito em parceria com o atual chanceler chileno Roberto Ampuero

Qual o contexto das declarações

 

A posição de Rojas acerca do Museu da Memória não é nova. Foi publicada originalmente em 2015, quando ele lançou um livro de dois tomos chamado “Diálogos de Convertidos”.

A opinião passou despercebida por três anos, até que, no sábado (11), o jornal chileno La Tercera publicou uma reportagem que traçava o perfil do ministro recém-empossado, recuperando trechos do livro.

Rojas não tratou do tema apenas no livro. Em 2016, em entrevista à emissora CNN no Chile, ele foi ainda mais claro:

“É um museu da esquerda, para contar uma falsa versão da história do Chile, pois oculta essa parte importante: como chegamos a nos odiar de tal maneira”

Mauricio Rojas

Em entrevista à CNN, em 2016

A repercussão negativa fez com que Rojas apresentasse sua renúncia. No mesmo dia, Gonzalo Blumel, da secretaria de imprensa da Presidência, disse que “as expressões do ministro Mauricio Rojas são um erro” e “não representam o presidente” Piñera.

No dia 11 de setembro de 2018, o golpe militar no Chile, que tirou do poder o então presidente Salvador Allende, completa 45 anos.

Além de Rojas, mais um ‘convertido’ em perigo

A palavra “convertidos”, que consta no título do livro, se refere ao próprio Rojas, que era militante da esquerda chilena, mas se “converteu” em liberal de direita depois de se exilar na Suécia, após o golpe de 1973.

No livro, Rojas dialoga com outro “convertido”, de história semelhante: Roberto Ampuero, que foi designado ministro das Relações Exteriores do governo Piñera, no mesmo gabinete do qual Rojas fazia parte.

Depois de derrubar o ministro da Cultura, a oposição chilena agora pressiona pela saída do ministro das Relações Exteriores também, sob a alegação de que os dois pensam da mesma forma, à medida que assinam juntos o mesmo livro.

A renúncia de Rojas e a pressão sobre Ampuero não marcam apenas um começo difícil para Piñera, que assumiu em março seu segundo mandato, não consecutivo, mas também refletem divisões ideológicas mais profundas da sociedade chilena.

O debate entre direita e esquerda no Chile

 

O caso Rojas se conecta com o forte antagonismo ideológico entre direita e esquerda chilenas, que vem marcando a política do país sul-americano nas últimas cinco décadas.

Em termos históricos, a esquerda se organiza majoritariamente em torno da memória do socialista Salvador Allende, que chegou ao poder via eleição direta em 1970, mas foi derrubado por um violento golpe de Estado em 1973.

Já a direita chilena administra – com maior ou menor proximidade – o legado das reformas liberais implementadas pelo general Augusto Pinochet, que assumiu o poder depois da deposição e morte de Allende. O militar governou o Chile como ditador até 1990.

A maior marca da ditadura Pinochet foi a repressão – uma das mais longas, violentas e extensivas do ciclo de ditaduras da América Latina. Mas, mesmo à direita, é raro encontrar quem defenda os crimes de prisão, tortura, desaparecimento e morte ocorridos no período. A questão, para a direita, está em apresentar diferentes contextos para explicar o ocorrido.

O presidente Piñera, por exemplo, é de direita, mas votou contra a permanência de Pinochet no poder, quando o general realizou, em 1988, um plebiscito com a intenção de angariar apoio popular à sua permanência no comando do país, mas acabou derrotado. E, hoje, Piñera condena publicamente as violações de direitos humanos daquele período:

“Nosso governo condena categoricamente os atropelos aos direitos humanos em qualquer tempo, em qualquer lugar e em qualquer momento”

Sebastián Piñera

Presidente do Chile, ao comentar a renúncia de seu ministro da Cultura, no dia 13 de agosto de 2018

O próprio Rojas tentou voltar atrás depois de perder o cargo, mas já era tarde demais. Após a repercussão de sua posição externada nos anos anteriores, ele disse o seguinte:

“[As declarações de 2015 e de 2016] não refletem meu pensamento atual. Nunca minimizei nem justifiquei as inaceitáveis, sistemáticas e gravíssimas violações de direitos humanos ocorridas no Chile”

Mauricio Rojas

Após ser demitido do cargo de ministro da Cultura do Chile, no dia 13 de agosto de 2018

Os matizes da direita com a ditadura

O Museu da Memória, em Santiago, converteu-se num pára-raio das discussões ideológicas e históricas do Chile. Falar do museu virou uma forma indireta de falar do período que corresponde à ditadura Pinochet.

Muitos políticos alinhados à direita consideram que é preciso dar mais contexto aos que visitam o museu. Em 2012, Magdalena Krebs, diretora da Dibam (Direção de Bibliotecas, Arquivos e Museus), disse, em carta enviada ao jornal El Mercurio, que não se pode “circunscrever sua missão [do museu] somente às violações dos direitos humanos, sem proporcionar ao visitante os antecedentes que as geraram”.

Krebs argumenta que o período Allende foi marcado pela “violência imperante”, com forte polarização, estatizações, reforma agrária, protestos de rua e falta de alimentos, com a Guerra Fria como pano de fundo.

A carta recebeu respostas da atriz chilena Javiera Parada, neta de desaparecidos políticos, em outro jornal local, o The Clinic. Ela afirmou em artigo: “Se usarmos a premissa de Krebs, poderíamos contextualizar também os massacres de [Josef] Stálin, o holocausto judeu na Alemanha nazista ou o genocídio de Ruanda [...] Existe uma justificativa plausível para matar, torturar e desaparecer?”

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