Ir direto ao conteúdo

Quem herdará o ônus do governo Temer nas eleições?

Presidente mais impopular da história é filiado ao MDB, partido que já se aliou ao PT e ao PSDB, ambos com candidaturas próprias em 2018

     

    Em 1965, o Brasil vivia o período de ditadura militar. Naquele ano, foi decretado o AI-2 (Ato Inconstitucional nº 2), que instituiu o bipartidarismo no país. Um desses partidos era o MDB, a oposição autorizada pelo regime dos generais. Surgia ali aquele que viria a se tornar o maior partido político brasileiro, com mais de 2 milhões de filiados, grande controle de prefeituras por todo o país e amplas bancadas na Câmara dos Deputados e no Senado.

     

    O MDB já esteve na Presidência da República em três ocasiões: com José Sarney, vice que assumiu após a morte de Tancredo Neves em 1985; com Itamar Franco, vice sem partido que assumiu após o impeachment de Fernando Collor em 1992 e se filiou no meio do mandato; e com Michel Temer, vice que assumiu com o impeachment de Dilma Rousseff em 2016.

     

    Ninguém do partido foi eleito como cabeça de chapa presidencial. A história política recente mostra que o MDB, na verdade, se especializou em se aliar ao governo da vez, especialmente depois de duas derrotas seguidas de candidatos que lançou ao Palácio do Planalto: Ulysses Guimarães, em 1989, e Orestes Quércia, em 1994.

     

    A partir dali, o partido fez parte da base aliada dos governos Fernando Henrique Cardoso, de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff, até se rebelar e apoiar o impeachment da petista.

     

    Chama atenção, portanto, o fato de o MDB optar, em 2018, a voltar a lançar candidato próprio à Presidência. Trata-se de Henrique Meirelles, um alto executivo de instituições financeiras e grandes empresas que comandou o Banco Central de Lula e o Ministério da Fazenda de Michel Temer, vice que ascendeu ao poder com a queda de Dilma.

     

    As chances de Meirelles ter sucesso em 2018 são baixas, segundo analistas. Ele é do mesmo partido de Temer, cujo governo é o mais mal avaliado da história brasileira pós-redemocratização. O presidente foi alvo de duas denúncias criminais, que só não prosperaram porque a Câmara dos Deputados optou por congelá-las. Além disso, apesar da melhora na economia, o desemprego continua alto.

     

    Mas a figura de Temer não deve pesar apenas contra Meirelles durante a campanha eleitoral, que começa em 16 de agosto e tem votação de primeiro turno prevista para 7 de outubro. Seja pelas relações do passado, seja pela conjuntura política que levou Temer ao poder, o PT de Lula e o PSDB de Geraldo Alckmin também são recorrentemente cobrados ao fato de o presidente estar no poder.

     
    Qual ideia está em jogo
    É a ideia de responsabilidade dos partidos sobre as alianças que fazem. Antipetistas dizem que o atual presidente só está lá porque foi o vice escolhido por Dilma em 2010 e 2014. Petistas afirmam que foram os tucanos que patrocinaram o impeachment em 2016 e apoiaram o novo governo e suas reformas, portanto são eles os responsáveis.

     

    O Nexo entrevistou dois cientistas políticos para tentar entender como o debate sobre Temer deve se desenrolar na campanha eleitoral. São eles:

     

    • Humberto Dantas, cientista político e pesquisador da FGV-SP
    • Fernando Schuler, cientista político e professor do Insper

     

     

    Quem herdará, afinal, o ônus da má popularidade do governo Temer nas eleições?

    Humberto Dantas Na verdade, [pode ser que] essa seja uma das possíveis explicações para Meirelles ser candidato, em um cenário em que o MDB está tão desgastado. Para mim, isso é estratégia. Só não entendo por que Meirelles se prestou a isso. Se é que ele não está absolutamente convencido ou crente de que possa ganhar alguma coisa nessa campanha, o que eu acho improvável.

    Meirelles vai fazer uma campanha dizendo que foi dos governos do PT, que ajudou o governo Lula principalmente. Ele também diz que tem vida própria e acredita que está para além do governo Temer.

    No que diz respeito ao próprio Temer, partidariamente, é indiscutível que isso caia na conta do Meirelles. Qualquer narrativa que o PT queira fazer contra o PSDB e vice-versa vai fazer “meio-sentido”.

     

    Isso representa dizer que Temer pode entrar na conta dos dois por meio dos terceiros. Portanto Marina vai acusar [a relação do partido adversário com Temer e o MDB], Bolsonaro vai acusar, Alvaro Dias vai acusar, Ciro Gomes vai acusar. Não há dúvidas disso.

    Não sei se a tragédia é tão grande que o governo Temer não finde passando à margem. Porque todo mundo tem um pedaço de culpa nisso.

     

    Fernando Schuler O MDB tem candidato, que é Henrique Meirelles. A candidatura de Meirelles é positiva para Alckmin, uma vez que reduz sua identificação com o governo Temer. Aqui é preciso estabelecer uma distinção.

     

    O PSDB e Alckmin têm uma identificação muito próxima com o programa de reformas feito no governo Temer. A reforma trabalhista foi, inclusive, liderada pelo PSDB no Congresso. A equipe econômica do governo tem proximidade com o PSDB. Quanto a isto, penso que sempre foi perfeitamente claro e será um ponto inclusive enfatizado por Alckmin na campanha.  Pérsio Arida [coordenador do plano econômico da campanha de Alckmin] vem defendendo a correção da PEC do teto, a Lei de Governança das Estatais, todas medidas estruturais implementadas ao longo do governo Temer.

     

    Outra questão é a proximidade propriamente política. Neste caso, é difícil estabelecer uma medida clara. Temer foi vice-presidente de governos do PT durante os dois mandatos de Dilma, além de compor o governo durante o período Lula, assim como o de FHC.

     

    O PSDB integrou o governo Temer pós-impeachment, assim como integrou ou governo Itamar após o impedimento de Collor. Neste plano, há múltiplas interpretações possíveis, e tudo dependerá da retórica política. O PT cobrará de Alckmin a participação tucana no governo Temer, e Alckmin dirá que Temer era vice do PT. Isto já aconteceu nas sabatinas recentes realizadas com os candidatos.

     

    O PSDB levará alguma vantagem pelo simples fato de que Lula não estará presente nos debates entre candidatos. De um modo geral, penso que este não será o tema central do debate eleitoral. A questão central é a posição de cada candidato a favor ou contra o programa de reformas, em especial a reforma da Previdência, e quais as saídas para a aguda crise fiscal vivida pelo país.

     

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

    Mais recentes

    Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

    Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
    Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!