A trajetória de Ciro Gomes, candidato do PDT à Presidência

O ‘Nexo’ dá sequência às biografias dos postulantes ao Palácio do Planalto. Neste capítulo, mostra a história do ex-governador do Ceará que vai disputar pela terceira vez uma eleição presidencial

 

Ciro Ferreira Gomes é o candidato do PDT à Presidência da República nas eleições de 2018. É paulista, nascido em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, em 6 de novembro de 1957. Tem, portanto, 60 anos.

É filho mais velho de José Euclides Ferreira Gomes Júnior, um defensor público e político, e Maria José Santos Ferreira Gomes, professora. Ambos já morreram. Ciro tem quatro irmãos.

R$ 1,6 milhão

é o patrimônio declarado por Ciro Gomes ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em 2018

O que fez até disputar a primeira eleição

Ciro nasceu no interior de São Paulo. Mas, quando tinha quatro anos, seus pais se mudaram para Sobral, no Ceará, estado de onde herdou o sotaque e onde iniciou sua trajetória política na esteira da família, os Ferreira Gomes.

Ciro viveu em Sobral até a adolescência. Em 1976, mudou-se para a capital, Fortaleza, para cursar a Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará.

Na faculdade, Ciro deu os primeiros passos na política. Começou participando da campanha eleitoral do pai pela prefeitura de Sobral e, depois, integrou o movimento estudantil. Na época de universitário, integrava o Habeas-Corpus, um grupo de esquerda católica, na definição dele.

“Eu era um cara meio trotskista [corrente inspirada em Leon Trótski, político soviético]. (...) Eu tentava entender o capital profundamente”, contou Ciro em entrevista a uma emissora de TV.

Depois de graduado, Ciro voltou a Sobral, onde trabalhou como advogado e professor universitário. Naquele período, seu pai ainda era prefeito da cidade. Por indicação dele, Ciro tornou-se procurador da prefeitura entre 1980 e 1982.

Os cargos públicos que ocupou até aqui

Ciro disputou sua primeira eleição em 1982, para deputado estadual. Foi eleito e depois reeleito em 1986, mas não concluiu o mandato. Em 1988, ele decidiu disputar a prefeitura de Fortaleza e venceu sua primeira eleição a um cargo no Executivo, aos 30 anos.

Bem avaliado, o então prefeito decidiu abrir mão do mandato para se candidatar ao governo do Ceará em 1990. Ele foi eleito no primeiro turno.

Quando fala de sua gestão no estado, Ciro costuma citar a redução da taxa de mortalidade infantil, ação que rendeu a ele e a seu antecessor, Tasso Jereissati, uma premiação do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) em 1993.

Em 1994, Ciro era um dos governadores mais bem avaliados do país, com 74% de aprovação. A despeito da popularidade, o governador antecipou a saída do cargo para assumir o Ministério da Fazenda na reta final do governo Itamar Franco, responsável pela implantação do Plano Real.

Os quatro meses como ministro foram marcados por ações consideradas controversas por parte da equipe econômica (como a redução de alíquotas de importação de centenas de produtos) e por declarações polêmicas – característica que mantém até hoje e que já lhe rendeu 77 processos, a maioria por danos morais ou queixas de calúnia e difamação, segundo levantamento do site Jota.

“Quem cobra ágio é ladrão e quem paga é otário. (...) Querem me caracterizar como grosseiro, mas falo a verdade, pode até chover canivete”

Ciro Gomes

então ministro da Fazenda, em declaração a jornalistas em 2 de novembro de 1994

Ao final de sua passagem pela Fazenda, Ciro foi estudar na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Na volta ao Brasil, dedicou os anos seguintes às suas duas campanhas presidenciais, em 1998 e em 2002. Na primeira, terminou em terceiro lugar. Na seguinte, ficou em quarto.

Após a nova derrota, ele foi convidado pelo presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, para assumir o Ministério da Integração Nacional em 2003, função que desempenhou por três anos. Em 2006, Ciro foi eleito deputado federal pelo Ceará.

Em 2010, seu nome chegou a ser cotado para concorrer à Presidência, mas a ideia não foi levada adiante por seu partido à época, o PSB. Três anos depois, Ciro aceitou ser secretário de Saúde do Ceará na gestão de seu irmão, Cid Gomes. Depois, entre 2015 e 2016, atuou no comando da Transnordestina Logística S/A, subsidiária da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional).

Qual sua trajetória partidária

 

Atualmente, Ciro é filiado ao PDT, mas outros seis partidos passaram por sua trajetória. São eles:

  • PDS: Partido Democrático Social (1982-1983)
  • PMDB: Partido do Movimento Democrático Brasileiro (1983-1990)
  • PSDB: Partido da Social Democracia Brasileira (1990-1997)
  • PPS: Partido Popular Socialista (1997-2005)
  • PSB: Partido Socialista Brasileiro (2005-2013)
  • Pros: Partido Republicano da Ordem Social (2013-2015)
  • PDT: Partido Democrático Trabalhista (desde 2015)

A primeira filiação foi em 1982 pelo PDS, nome pelo qual passou a ser chamado o Arena, partido de sustentação do regime militar (1964-1985). Segundo Ciro, a filiação ao PDS foi por imposição de seu pai.

Já no ano seguinte, em 1983, Ciro migrou para o PMDB, partido que durante a ditadura (quando se chamava MDB, mesma sigla usada agora) fazia a oposição autorizada ao regime. Em 1990, mudou para o PSDB, pelo qual foi eleito governador do Ceará.

Em razão de desentendimentos com o então presidente Fernando Henrique Cardoso, Ciro saiu do partido em 1997 e foi para o PPS. Pela legenda, disputou as eleições presidenciais de 1998 e 2002.

“Se tem um político que tem uma linha de vida coerente, sou eu. (...) Pergunto qual político, tirando aqueles que não fizeram seu próprio partido como o Lula, que fez sua própria central sindical, qual o político brasileiro não mudou de partido nos últimos 20 anos? Nenhum. Marina [Silva] esteve em três partidos nos últimos três anos”

Ciro Gomes

em entrevista à BBC em 13 de maio de 2017

Em 2005, Ciro ingressou no PSB. Mas, oito anos depois, ele e seu irmão Cid deixaram o partido por discordar da decisão da direção de romper com o governo Dilma Rousseff (2011-2016) para promover a candidatura à Presidência do então governador pernambucano Eduardo Campos. Ele se candidatou, mas morreu em um acidente de avião em 2014 e foi substituído por Marina Silva (hoje pré-candidata pela Rede).

Ciro, Cid e Ivo (outro irmão de Ciro, atual prefeito de Sobral) migraram para o Pros, partido criado em 2013. Mas, menos de dois anos depois, em 2015, eles mudaram novamente, desta vez para o PDT.

Onde está no espectro ideológico

 

Ciro evita se classificar entre esquerda, centro ou direita. Em entrevistas, o ex-governador se diz um “socialista democrático em permanente revisão”.

No atual cenário eleitoral, Ciro é colocado entre as candidaturas identificadas à esquerda, ao lado de Lula (PT) e Guilherme Boulos (PSOL).

O candidato do PDT pensa que o Estado deve ter papel atuante no desenvolvimento econômico do país e defende políticas fiscais que “cortem privilégios” para preservar os mais pobres. Uma das alternativas propostas por ele é fazer uma reforma tributária que taxe heranças.

O candidato é contra privatizar a Eletrobras (em estudo pelo governo Michel Temer) e promete rever pontos da reforma trabalhista se for eleito.

Levando-se em conta os partidos aos quais já se filiou, é possível encontrar Ciro entre as mais diferentes linhas ideológicas: do PDS, à direita, passando pelo PSDB, ligado à social-democracia, e pelo trabalhismo do PDT, mais associado à esquerda.

A história familiar dos Ferreira Gomes na política cearense (desde o bisavô paterno) e a aliança de longa data com o tucano Tasso Jereissati (senador e ex-governador do Ceará) costumam render classificações que desagradam a Ciro.

A prevalência desses dois grupos no comando político do estado nas últimas décadas motiva por vezes a comparação com uma oligarquia (regime em que o poder é exercido por um pequeno grupo de pessoas), o que o candidato rebate. “Isso é reducionismo, é uma burrice”, declarou à revista Piauí em 2007.

Os pontos fracos

O temperamento

O estilo de Ciro é um ponto marcante dele. Considerado instável por uns e autêntico por outros, o ex-governador com frequência fica às voltas com polêmicas causadas por suas declarações. Até hoje, por exemplo, ele é lembrado por dizer, em 2002, que o papel na campanha de sua então esposa, a atriz Patrícia Pillar, era dormir com ele.

A estrutura partidária

Com poucos aliados, a campanha pode ter dificuldades para se estruturar pelo país e ficar com um tempo reduzido no horário eleitoral gratuito.

As mudanças de rota

Ciro já passou por sete partidos e no momento da pré-campanha acenou com acordos à esquerda, com partidos como o PSB, e à direta, com partidos do chamado centrão, mas não obteve sucesso com nenhum dos polos político-ideológicos.

Os pontos fortes

A ausência de suspeitas

Ciro não é citado em investigações de corrupção, tema que tende a aparecer durante a campanha de 2018 e é caro ao eleitor num momento de crise de representatividade pelo qual passa o Brasil .

A baixa taxa de rejeição

O candidato tem a menor taxa de rejeição na comparação com os adversários mais bem posicionados na pesquisa Datafolha, de junho de 2018, a mais recente antes do início oficial da campanha.

O vínculo com Nordeste

Ciro é conhecido em parte do Nordeste, região que concentra 26% do eleitorado brasileiro, segundo dados da Justiça Eleitoral. Sem uma candidatura forte do PT (caso Lula seja barrado pela Ficha Limpa), o ex-governador pode ser beneficiado naqueles estados.

Quem é sua vice

Coligado apenas com o Avante, o PDT recorreu a um quadro do próprio partido, a senadora Kátia Abreu, para dividir a chapa com Ciro.

A senadora tem 56 anos e atuação política ligada ao setor ruralista, campo em que atua também como proprietária de uma fazenda no Tocantins.

Kátia Abreu já presidiu a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), foi ministra da Agricultura no segundo mandato de Dilma e foi alvo de protestos de ambientalistas por suas posições sobre temas como uso de agrotóxicos, restrições à reforma agrária e políticas mais flexíveis (consideradas pró-desmatamento) de ocupação e exploração em áreas verdes.

Embora sua trajetória partidária tenha começado e se consolidado em legendas associadas à centro-direita, como DEM e MDB, a senadora se aproximou da centro-esquerda quando se posicionou contrariamente ao impeachment de Dilma, em 2016. A decisão levou à expulsão dela do MDB e ao ingresso no PDT.

NOTA DE ESCLARECIMENTO: O valor do patrimônio declarado por Ciro Gomes à Justiça Eleitoral foi tornado público em 13 de agosto de 2018. A informação foi atualizada às 11h21 do mesmo dia.

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