Ir direto ao conteúdo

O que explica a recuperação da caderneta de poupança

Aplicação mais tradicional do país viveu período de saques no auge da crise, mas volta a registrar mais depósitos que retiradas

     

    A caderneta de poupança registrou em julho a maior captação líquida para o mês desde 2014. Segundo dados do Banco Central divulgados na segunda-feira (6), o valor investido superou o valor retirado em R$ 3,75 bilhões no mês.

     

    Como comparação, no mesmo mês em 2017 o saldo foi positivo em R$ 2,3 milhões. O resultado de 2018 consolida o bom momento da aplicação mais tradicional do Brasil. Foi o quinto resultado positivo consecutivo. Nos últimos 15 meses, desde maio de 2017, foram apenas 3 resultados com mais retiradas que aplicações. Um cenário bem diferente dos anos anteriores.

    Recuperação

     

    O saldo de julho é resultado de dois números: o brasileiro investiu R$ 189,8 bilhões e retirou R$ 186 bilhões. Os quase R$ 190 bilhões depositados na poupança são também o terceiro maior valor mensal investido desde o início de 2016 - só superado pelos meses de dezembro de 2016 e 2017.

     

    O efeito sazonal é importante para as captações e para o saldo líquido mensal. Dezembros, por exemplo, são meses em que a poupança tem, historicamente, saldo recorde. É quando os brasileiros recebem o 13° salário. Já janeiro, quando tradicionalmente se paga uma série de tributos, é um mês que costuma ter resultados ruins.

     

    Quando os resultados de 2018 são comparados com os mesmos meses de anos anteriores, os números, no geral, são melhores. Mesmo em meses em que historicamente há retiradas, como os dois primeiros do ano, o saldo foi menos negativo.

    2017 mais positivo

     

    Com a crise econômica que começou em 2014, os saques foram repetidamente maiores que os depósitos. Com isso, o acumulado em doze meses, que leva em conta o mês mais recente e os onze anteriores para eliminar o efeito da sazonalidade, passou para o negativo. Mas os resultados mensais recentes fizeram a captação anual voltar ao positivo no final de 2017.

     

    Entre 2015 e 2016, o saldo em doze meses chegou a ser negativo em cerca de R$ 60 bilhões. Mas a partir de junho de 2016 esse dado começou a melhorar. No número mais recente, que mede entre agosto de 2017 e julho de 2018, o saldo é positivo em R$ 37 bilhões.

     

     

    Virada

     

    O estoque

    As retiradas no período mais agudo da crise econômica influenciaram o total de recursos depositado na caderneta de poupança, o chamado estoque. Entre 2015 e 2017, esse volume caiu mesmo levando em conta o rendimento do dinheiro.

    Como a poupança é um investimento, a cada mês, mesmo se ninguém retirar ou colocar recursos, o montante cresce. Durante a crise, os saques foram maiores não só que os depósitos, mas também que os juros pagos aos aplicadores.

    Em dezembro de 2014, o total de recursos era de R$ 662 bilhões. Menos de um ano e meio depois, em maio de 2016, era de R$ 637.

    Com a poupança voltando a registrar fluxo positivo de dinheiro, o montante tem crescido mais rápido. Em julho, ultrapassou os R$ 750 bilhões.

    Voltando a crescer

     

     

    A atratividade da poupança

    O Brasil ainda sente os efeitos da grave crise econômica que afetou o país, mas a recessão, tecnicamente, acabou. Isso significa que, desde o fim de 2016, a economia parou de encolher. Agora o momento é de retomada, apesar de fraca e lenta.

     

    Se o desemprego segue alto, também é verdade que ele parou de aumentar. Houve até um pequeno recuo no último ano. A melhora nos resultados da atividade econômica e a estabilização do mercado de trabalho coincidem com a recuperação da caderneta de poupança, o investimento mais simples e barato disponível no Brasil.

    Junto com isso, pelo menos dois fatores ajudaram a tornar a poupança mais competitiva nos últimos meses.

    Inflação baixa

    Quando procura um investimento, o aplicador quer que o dinheiro renda. Mas quem aplicou na caderneta de poupança num passado recente, principalmente em 2015, perdeu dinheiro. Isso porque o rendimento era menor que a inflação, ou seja, não compensava nem a desvalorização natural do dinheiro ao longo do tempo.

    Mas atualmente a situação é diferente. Desde 2017, a inflação está abaixo da meta definida pelo Banco Central e abaixo dos juros que a poupança gera, ou seja, o investimento voltou a fazer o dinheiro crescer.

    Juros baixos

    O Banco Central reduziu, a partir do final de 2016 e durante todo o ano de 2017, a taxa básica de juros. A Selic caiu de 14,25% para 6,5%. Assim, caiu também o rendimento de boa parte dos investimentos em renda fixa. A poupança também caiu, mas bem menos.

    Assim, diminuiu a diferença entre o que rende a maioria das aplicações e o que rende a aplicação mais tradicional do país. A poupança continua rendendo menos, mas atrai por ser de graça, descomplicada e ter liquidez imediata - o investidor pode sacar o dinheiro a qualquer momento perdendo, no máximo, o rendimento de um mês.

    Como rende a poupança

    Com Selic a 8,5% ou mais

    Na maior parte do tempo, o dinheiro aplicado na poupança rende 0,5% fixo ao mês (6,17% ao ano) mais a Taxa Referencial - que é definida pelo Banco Central levando em conta o que os bancos pagam a clientes que aplicam dinheiro em títulos CDB.

    Com Selic abaixo de 8,5%

    O que muda é que esse 0,5% fixo é substituído por 70% da Selic. Uma Selic como a atual, de 6,5% ao ano, rende ao mês 0,53%. Logo, a poupança ficará em 70% disso, ou 0,37% ao mês, abaixo dos 0,5% habituais. Mas esse número vai diminuindo à medida que a Selic é reduzida. Quanto mais diminuir a Selic, mais diminui a parte fixa do rendimento da poupança. Para cima, a poupança não acompanha, há um teto de 0,5% ao mês.

    Desde o Império

    Criada por D. Pedro II, confiscada por Fernando Collor, a caderneta de poupança é a mais tradicional aplicação da economia brasileira. Ainda no Império, foi moldada pela Caixa Econômica Federal para ser uma alternativa para que pessoas mais pobres pudessem guardar dinheiro.

    Na época da hiperinflação, a aplicação viveu seu auge. Era usada pelos brasileiros que queriam proteger seu dinheiro da desvalorização causada pelo aumento de preços.

    Apesar do confisco pelo governo Collor, a poupança sempre foi considerada um investimento seguro. Além disso, é isenta de impostos e dá ao investidor a opção de resgatar o dinheiro quando quiser - características que foram atrativo ao longo dos anos. Nos últimos anos ganhou concorrência de aplicações mais sofisticadas e que rendem mais, como papéis do Tesouro direto.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: