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Como um tuíte fez a Arábia Saudita cortar relações com o Canadá

Novos negócios e programas de intercâmbio foram barrados, e estatal saudita de aviação deixará de fazer voos para o país a partir de segunda (13)

    Foto: Gary Cameron/Reuters
    Michele Obama e Hillary Clinton entregaram prêmio a Samir Badawi (centro) em 2012
    Michele Obama e Hillary Clinton entregaram prêmio a Samir Badawi (centro) em 2012

    Um tuíte é apontado como o elemento causador de um estranhamento diplomático entre Arábia Saudita e Canadá que deve, entre outras coisas, fazer com que cerca de 15 mil estudantes sauditas sejam obrigados a deixar o país americano.

    A publicação em questão foi feita pela ministra de Relações Exteriores do Canadá, Chrystia Freeland, na quinta-feira (2). Ela dizia estar “muito alarmada” em saber que Samar Badawi, irmã de Raif Badawi, havia sido presa. “O Canadá continua junto com a família Badawi nesse momento difícil e segue firmemente pedindo pela soltura tanto de Raif quanto de Samar Badawi”, escreveu Freeland.

    Quem é quem

    Samar é uma ativista saudita que luta pela ampliação dos direitos das mulheres no país do Oriente Médio já premiada nos EUA com International Women of Courage Award (Prêmio Internacional às Mulheres de Coragem), em 2012.

    Na semana passada, ela foi detida junto com outra ativista, Nassima Al-Sadah, durante um protesto contra o sistema de tutela saudita, que obriga mulheres a depender da autorização de um “guardião” ou “tutor” – que pode ser seu pai, tio, marido ou irmão – para atividades como estudar, viajar ou trabalhar. A ativista já havia sido detida em 2016 por razões similares.

    Já Raif Badawi, irmão de Samar, é um escritor preso desde 2012 por “insultar o Islã” em seu blog na internet. Badawi, cuja caso é conhecido e acompanhado por organizações de direitos humanos, foi condenado a 10 anos de prisão e 1.000 chibatadas, parte delas já aplicadas inclusive em espaço público. Sua esposa, Ensaf Haidar, tem cidadania canadense e vive no país desde a sua prisão.

    Governo saudita reagiu com sanções

    No domingo (5), um comunicado de autoria da ministra Chrystia Freeland, no qual ela reforçava o pedido de liberdade dos irmãos Badawi, foi publicado em árabe pela embaixada canadense na Arábia Saudita.

    Um dia depois o governo saudita respondeu publicamente ao comunicado, chamando-o de “afronta inaceitável às leis e ao processo judicial do Reino”, uma “violação da sua soberania” ou ainda uma “flagrante interferência em assuntos domésticos”.

    O embaixador saudita no Canadá foi chamado de volta, enquanto ao embaixador canadense em solo saudita foi dado um dia de prazo para ele deixar o país.

    Novos acordos comerciais e investimentos no Canadá, bem como convênios de intercâmbio em universidades no Canadá, foram encerrados pela Arábia Saudita. Voos para o Canadá feitos pela empresa de aviação estatal também deixarão de ser feitos a partir da segunda-feira (13).

    Foto: Charles Platiau/Reuters
    Príncipe saudita Mohammed bin Salman
    Príncipe saudita Mohammed bin Salman é apontado como responsável por políticas mais flexíveis às mulheres

    Atualmente, a Arábia Saudita é o segundo maior mercado de exportação canadense na região. Segundo o jornal americano Washington Post, em 2017 o Canadá exportou o equivalente a US$ 1 bilhão em produtos como automóveis e armas.

    Já o corte de programas de intercâmbio deve afetar cerca de 15 mil estudantes sauditas que atualmente residem no Canadá. Segundo informações de uma TV estatal saudita, os estudantes bolsistas deverão ser transferidos para instituições nos Estados Unidos, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia e Cingapura.

    Em 2015, a Arábia Saudita adotou medida semelhante contra a Suécia, após um porta-voz do governo se referir à condenação de Riaf Badawi com chibatadas como “medieval” e à monarquia saudita como uma “ditadura”. O Reino então respondeu tirando seu embaixador do país escandinavo e congelando a emissão de vistos a suecos.

    Prisões são recorrentes

    Diante das medidas, o Canadá emitiu nota por meio do seu Ministério de Relações Exteriores dizendo que o país “sempre defenderá a proteção de direitos humanos, incluindo os direitos das mulheres e a liberdade de expressão ao redor do mundo”. “Nunca iremos hesitar em promover esses valores e acreditamos que esse diálogo é fundamental para a diplomacia internacional”, diz o comunicado.

    Embora a Arábia Saudita tenha adotado regras menos rígidas nos últimos anos, sobretudo em relação às mulheres – permitindo que elas tenham licença de motorista ou frequentem estádios de futebol –, o reino saudita é tido como um dos mais autoritários do mundo.

    Casos de prisões arbitrárias não são raros no país. Desde maio de 2018, no entanto, o cenário tem se agravado. Em comunicado publicado no dia 31 de julho, o escritório de direitos humanos da ONU disse que a organização estava “preocupada” com as prisões de ativistas e defensores de direitos humanos na Arábia Saudita.

    Pelo menos 15 pessoas críticas ao governo do rei Salman Al Saud e do príncipe Mohammad bin Salman foram detidas pelas autoridades sauditas. Entre elas, o advogado Ibrahim al-Modaimeegh, de 80 anos de idade, e Hatoon al-Fassi, liderança feminina no país e uma das primeiras a tirar licença de motorista após autorização legal em 2017.

    Foto: Chris Bolin/Reuters
    Chrystia Freeland, ministra de Relações Exteriores do Canadá
    Chrystia Freeland: ‘Canadá sempre defenderá a proteção de direitos humanos, incluindo os direitos das mulheres e a liberdade de expressão ao redor do mundo’
     

    Parte dos detidos foram liberados dias depois. Sobre outros, porém, não há informações a respeito. “Instamos o governo da Arábia Saudita que libertem incondicionalmente todos”, diz a nota. “Quaisquer investigações devem ser realizadas de forma transparente, com total respeito ao devido processo legal. Todos os defensores de direitos humanos devem ser capazes de realizar seu crucial trabalho (...) sem medo de represálias ou processos judiciais.”

    Demonstração de apoio e omissão

    Como reflexo da tensão entre Canadá e Arábia Saudita, os governos do Bahrein e dos Emirados Árabes Unidos saíram em defesa da monarquia saudita. “A crença de alguns países de que seu modelo ou experiência os permite interferir nos nossos negócios é [por nós] rejeitada”, escreveu o ministro de Relações Exteriores deste último.

    Na outra ponta, os Estados Unidos se referiu aos dois países como “parceiros próximos” e disse estar buscando mais informações com ambos governos. Já a responsável pela área de políticas de segurança e relações exteriores da Comissão Europeia, Maja Kocijancic, disse nesta terça-feira (7) que o órgão não comenta “relações bilaterais”, mas que se coloca “favorável ao diálogo”.

    Sobre as prisões de ativistas de direitos humanos no país do Oriente Médio, EUA e União Europeia disseram oficialmente estar cobrando o governo saudita a cumprir o devido processo legal e tornar públicas as informações sobre os casos.

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