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A pintora que recria obras clássicas trocando pessoas brancas por negras

A artista americana Harmonia Rosales diz ser importante que jovens negras se vejam representadas em obras fortes e poderosas

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    Tudo começou com um questionamento sobre a figura do Deus católico. “Por que aceitamos a imagem de Deus sendo um homem branco por tanto tempo?”, disse a artista Harmonia Rosales, de 34 anos. De Chicago, nos Estados Unidos, ela ganhou notoriedade criando obras que reimaginam pinturas clássicas substituindo figuras masculinas e brancas por mulheres negras.

    A tela “A criação de Deus” – que transforma “A criação de Adão” (1512), gravada por Michelangelo (1475-1564) no teto da Capela Sistina – chegou a ser motivo de polêmica.

    “As pessoas diziam ‘Deus não deve ser um negro, nem muçulmano ou nada do tipo’. E isso me diz que o que eu faço não é apenas o que precisava ser feito, mas o que eu preciso continuar a fazer”, disse.

    Foto: Reprodução/Harmonia Rosales
    ‘The Virtuous Woman’ (A mulher virtuosa) recria ‘Homem Vitruviano’ de Leonardo da Vinci
    ‘The Virtuous Woman’ (A mulher virtuosa) recria ‘Homem Vitruviano’ de Leonardo da Vinci

    Sobre a sua versão, Rosales afirmou que sua intenção foi pegar uma pintura amplamente conhecida e que “subconscientemente ou conscientemente” nos condiciona a ver figuras masculinas brancas como poderosas e possuidoras de autoridade e “inverter o roteiro”, criando uma contranarrativa.

    Dessa forma nasceu a coleção sugestivamente intitulada “B.I.T.C.H” (vadia, em inglês), acrônimo para “Black Imaginary To Counter Hegemony”, algo como Imaginário Negro para Combater a Hegemonia. A artista descreve seu grupo de obras dessa forma:

    “Substituindo as figuras masculinas brancas (as mais representadas) por pessoas que acredito que tenham sido as menos representadas. Ao contemporizar o significado por trás dessas pinturas icônicas, podemos começar a recondicionar nossas mentes para aceitar novos conceitos de valor humano.”

    Harmonia Rosales

    Texto de apresentação da “Bitch”

    Pintando identidade

    Em suas obras – que não se resumem a versões de obras clássicas –, Rosales, que se apresenta como uma artista “afro-cubana americana”, diz pintar figuras mais escuras que ela para que “ninguém tenha dúvidas de quem eu estou representando”. “Eu pinto o que eu conheço, com quem eu me identifico”, disse ao Buzzfeed.

    Para ela, na arte as mulheres negras são sub-representadas ou representadas de modo deturpado há muito tempo. “O que me faz sentir que devo pintar para nos empoderar. Nós precisamos de imagens poderosas para nossa juventude ver”, disse Rosales, que vê na filha a razão para seu trabalho. “Eu quero que a minha filha cresça orgulhosa dos seus cachos e do seu cabelo enrolado, sua pele morena, e para que ela se identifique como uma mulher negra, de valor.”

    Abaixo, uma seleção de quadros pintados por Rosales e descritos por ela ao jornal americano Los Angeles Times.

    ‘Birth of Oshun’ [Nascimento de Oxum]

    Foto: Reprodução/Harmonia Rosales
    ‘Birth of Oshun’, de Harmonia Rosales
    ‘Birth of Oshun’, de Harmonia Rosales

    Nessa tela, Rosales faz sua versão de “O nascimento de Vênus” (1486), do italiano Sandro Botticelli (1445-1510), substituindo a deusa grega pelo orixá “Oshum” (ou Oxum), relacionado à Santeria (religião caribenha de origem iorubá,  como o candomblé do Brasil).

    “As deusas e os orixás são muito similares. Tradicionalmente vemos Vênus como essa linda mulher de cabelos esvoaçantes. Meu cabelo nunca esvoaçou, então eu me pergunto por que essa deveria ser uma pintura da mulher mais bonita do mundo? Então eu a mudei e a fiz ter vitiligo porque as imperfeições são lindas”, diz. “Na Santeria, quando você ora a um orixá, você lhes dá uma oferenda. E a oferenda dela é ouro, por isso fiz o vitiligo dela de ouro.”

    À direita da tela, Rosales fez a representação de Yemaya (ou Iemanjá), “a deusa da maternidade, carinho e amor”. E à direita, de vermelho, está Oyá (ou Iansã), “a deusa que governa a morte”. E, de branco, Obatalá “que é o equivalente a Jesus, é hermafrodita” e, portanto, “o filho ou a filha de Olodumare [ou Olorum], que é Deus”.

    ‘The Virgin’ [A Virgem]

    Foto: Reprodução/Harmonia Rosales
    ‘The Virgin’, de Harmonia Rosales
    ‘The Virgin’, de Harmonia Rosales

    “Essa tem como base, é claro, a Virgem Maria. Mas tem um significado totalmente diferente por ser uma mãe solteira. Eu a fiz jovem e ela não é tão serena porque agora ela tem que amadurecer. É um trabalho difícil, mas é tudo sobre passar adiante o conhecimento. É sobre criar outra rainha”, explicou Rosales.

    ‘Lioness’ [Leoa]

    Foto: Reprodução/Harmonia Rosales
    ‘Lioness’, de Harmonia Rosales
    ‘Lioness’, de Harmonia Rosales

    A tela “Leoa” é a primeira feita para sua coleção. Rosales explica que o quadro, que coloca uma mulher negra e albina como caçadora representa poder, independência e sua força como tal. “Você tem um leão sendo caçado. Os homens se consideram leões, quando na verdade a leoa é a provedora da família. Então, [a tela] é sobre reconhecer esse fato e se apropriar dele.”

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