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A trajetória de Bolsonaro, candidato do PSL à Presidência

O ‘Nexo’ dá sequência à publicação das biografias dos postulantes ao Palácio do Planalto. Neste capítulo, mostra a história do capitão da reserva que tenta chegar ao cargo pela primeira vez

Jair Messias Bolsonaro é o candidato do PSL à Presidência da República nas eleições de 2018. Nasceu em Glicério, no interior de São Paulo, em 21 de março de 1955. Tem, portanto, 63 anos. Foi registrado em Campinas, também no interior.

É filho de Percy Geraldo Bolsonaro, que trabalhava como dentista mesmo sem diploma e morreu em 1995, e Olinda Bonturi Bolsonaro, dona de casa de 89 anos. Tem cinco irmãos.

R$ 2,2 milhões

é o patrimônio declarado por Jair Bolsonaro ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em 2018

O que fez até disputar a primeira eleição

Bolsonaro passou a infância em Eldorado, cidade do interior paulista a 250 km da capital. Lá, permaneceu até a adolescência, quando conheceu os militares mais de perto. Em 1970, tropas do Exército se instalaram na cidade atrás de Carlos Lamarca, um dos líderes guerrilheiros de oposição à ditadura militar.

Em 1977, formou-se pela Academia Militar das Agulhas Negras. Por três anos, de 1979 a 1981, serviu ao Exército em Nioaque, no Mato Grosso do Sul. Depois, cursou educação física até se formar pela Escola de Educação Física do Exército.

Bolsonaro, então, se envolveu em episódios polêmicos que renderam a ele dois processos disciplinares. Documentos do Superior Tribunal Militar aos quais o jornal Folha de S.Paulo teve acesso mostram que Bolsonaro admitiu ter cometido atos de indisciplina e deslealdade em 1987.

O processo tinha duas linhas de investigação: uma apurava o fato de Bolsonaro ter escrito um artigo para a revista Veja pedindo aumento de salário aos militares, sem autorização de seus superiores. Outra apurava seu envolvimento em um plano para explodir bombas em unidades militares do Rio, onde estava lotado.

Havia um clima de insatisfação dos militares com o governo na época (o presidente da República era José Sarney). A categoria realizou uma série de manifestações para protestar por aumento salarial. Era esse o contexto quando Bolsonaro sofreu as acusações, que sempre negou.

Em junho de 1988, a maioria dos ministros do Superior Tribunal Militar considerou Bolsonaro inocente da suspeita de que seria autor do plano de ataques a bombas nos quartéis, mas ele precisou ficar 15 dias detido em razão do artigo escrito para a revista.

No mesmo ano, Bolsonaro foi para a reserva do Exército, com a patente de capitão. Logo depois, ingressou na política.

Os cargos políticos que ocupou até aqui

O primeiro cargo eletivo que Bolsonaro ocupou foi o de vereador do Rio de Janeiro, pelo PDC (Partido Democrata Cristão), mandato que não completou. Sua atuação como vereador, em dois anos, foi discreta.

Em 1990, Bolsonaro se afastou do cargo para se candidatar a deputado federal. Usando sua condição de militar da reserva e com discurso conservador, foi eleito e, a partir dali, permaneceu na Câmara por mais outras seis legislaturas: de 1995 a 2018. Na eleição mais recente, em 2014, foi o candidato mais votado do Rio, com mais de 464 mil votos.

Em 27 anos como deputado federal, Bolsonaro foi autor de 162 projetos de lei, segundo o portal da Câmara. Dois foram aprovados. Um deles estabelecia a prorrogação de benefícios fiscais ao setor de informática. O outro autorizava o uso da fosfoetanolamina, mais tarde conhecida como “pílula do câncer”, cujos resultados nunca foram cientificamente comprovados.

O presidenciável é alvo de ações ligadas a declarações públicas. No Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro é réu em dois processos, por injúria e apologia ao estupro. Essas ações foram abertas depois de ele ter afirmado, em 2014, na Câmara, que não estupraria a deputada Maria do Rosário porque “ela não merecia”.

Com declarações assim, no entanto, Bolsonaro construiu sua imagem. Em 1999, disse que era preciso “matar 30 mil” para solucionar problemas do Brasil que, segundo ele, o voto não soluciona. Já disse que Vladimir Herzog se suicidou, encampando a versão dos militares para o assassinato do jornalista nos porões da ditadura. A defesa do regime militar, aliás, é presente no discurso do candidato.

Em abril de 2017, o deputado federal disse que os quilombolas (descendentes de escravos que vivem em remanescentes de quilombos) “não serviam nem para procriar”. O grupo mais atacado pelos comentários de Bolsonaro, que já disse se orgulhar por ser preconceituoso, são os homossexuais. O presidenciável afirmou que seria incapaz de amar um filho gay e já disse que se visse dois homens se beijando na rua, agrediria o casal.

As falas extremistas fizeram Bolsonaro cair nas graças do eleitorado conservador. O deputado é chamado de “mito” pelo seu eleitorado cativo — apelido que ganhou pela personalidade explosiva e por não ter “papas na língua” ao dizer o que pensa.

O parlamentar tem se apresentado também como um “ponto de inflexão” na política brasileira, num momento em que denúncias de corrupção reveladas pela Lava Jato fragilizaram boa parte dos representantes de partidos tradicionais.

Bolsonaro não é alvo da operação. E usa isso como trunfo. Apesar disso, suas atitudes como parlamentar já sofreram outros questionamentos.

Uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo de dezembro de 2017 revelou que o deputado empregou a atual esposa, Michelle Bolsonaro, em seu próprio gabinete por um ano e dois meses, na Câmara dos Deputados. Ela ainda teria sido promovida nesse período.

Ela foi contratada em 2007 e promovida dois dias depois que começou a trabalhar. Em 2008, foi exonerada, após o Supremo Tribunal Federal ter manifestado o entendimento de que nepotismo seria tratado como uma prática proibida pela Constituição.

Outro questionamento de sua conduta como congressista ocorreu quando foi noticiado que Bolsonaro recebia auxílio-moradia, mesmo tendo imóvel próprio em Brasília. O benefício é pago a deputados que não ocupam apartamentos funcionais no Distrito Federal e pode ser recusado pelo parlamentar.

Além do apartamento em Brasília, a família de Bolsonaro tem outros 12 imóveis, segundo reportagem publicada em janeiro de 2018 pelo jornal Folha de S. Paulo. O crescimento do patrimônio do parlamentar ao longo da vida pública também levantou questionamentos. Depois da publicação da reportagem, Bolsonaro escreveu um texto em um blog no qual disse ter sido vítima de “calúnia”.

Qual sua trajetória partidária

Bolsonaro já foi filiado a sete partidos. São eles: 

  • PDC: Partido Democrata Cristão (1988-1993)
  • PPR: Partido Progressista Reformador (1993-1995)
  • PPB: Partido Progressista Brasileiro (1995-2003)
  • PTB: Partido Trabalhista Brasileiro (2003-2005)
  • PFL: Partido da Frente Liberal (2005)
  • PP: Partido Progressista (2005-2016)
  • PSC: Partido Social Cristão (2016-2017)
  • PSL: Partido Social Liberal (2018)

Ele começou sua trajetória política no PDC, partido pelo qual foi eleito vereador da cidade do Rio de Janeiro. Até chegar ao PP, onde permaneceu por mais tempo, passou por uma série de partidos, ficando pouco tempo em cada um.

No PP, que integra o chamado centrão, Bolsonaro ficou filiado por 11 anos. Ao anunciar que sairia do partido em 2016, o deputado federal disse que não conseguiria “realizar seus sonhos políticos” ali. Ele se referia à ambição de virar presidente.

Achou que encontraria espaço no PSC (Partido Social Cristão). Na legenda, Bolsonaro tentaria colocar de pé a candidatura à Presidência nas eleições de 2018. Seu radicalismo político, porém, desgastou a relação com dirigentes do partido, o que o motivou a sair.

Em 7 de março de 2018, Bolsonaro se filiou ao PSL com o objetivo de disputar a Presidência da República. Desde que chegou ao partido, enfrenta algumas resistências internas por causa de seu perfil irredutível.

O ingresso do parlamentar provocou uma debandada de dirigentes ligados ao Livres — um grupo que integrava a sigla e ajudava a reconstruir o PSL. Eles afirmaram ser contra o poder que o deputado passaria a ter dentro da sigla.

O desgaste causado pela chegada de Bolsonaro provocou uma rebelião de dirigentes regionais da legenda em pelo menos dez estados, entre eles Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país.

Onde está no espectro ideológico

Bolsonaro tem um discurso conservador e antipetista. Nos costumes, o parlamentar diz defender a manutenção da família tradicional, se posicionando também contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, além de valorizar a importância da religião.

Com formação católica e casado com uma evangélica, Bolsonaro já fez uma série de comentários públicos considerados homofóbicos e racistas.

Quando se filiou ao PSL, o deputado disse que quem é gay “não é normal”. Em várias ocasiões, disse ser contra a legalização das drogas no país. Ele já afirmou também ser contra a liberação do aborto no Brasil — hoje a prática só é permitida em casos de anencefalia do feto, estupro ou se a gravidez oferecer riscos à mãe.

“Sou de direita mesmo e não tenho vergonha de dizer. Vou disputar o Planalto. Se meu partido não me apoiar, mudo de legenda para concorrer”

Jair Bolsonaro

candidato do PSL à Presidência, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em outubro de 2014

Na economia, Bolsonaro afirmou que é liberal, embora dê poucos detalhes de suas propostas para concretizar seu projeto. Em entrevista à GloboNews, o deputado disse que, se eleito, tornará a economia brasileira 100% liberal, mas admitiu que precisa consultar seus auxiliares para saber o que, de fato, vai fazer para que isso se aconteça.

Escolheu o economista liberal Paulo Guedes para coordenar seu plano econômico. É Guedes quem mais detalha as propostas de economia que devem aparecer na campanha do parlamentar. Guedes adiantou que o plano de governo do presidenciável prevê um amplo programa de concessões e privatizações. Afirmou também ser a favor de privatizar estatais brasileiras.

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, em 2 de julho, Guedes falou ainda que pretende aprofundar o teto de gastos criado pelo governo Michel Temer. Trata-se de uma proposta do governo aprovada em dezembro de 2016 que estabeleceu um limite para o crescimento de despesas públicas pelos próximos 20 anos. Sob a tutela de Guedes, Bolsonaro passou a calibrar o discurso para agradar investidores do mercado financeiro.

Já defendeu a independência do Banco Central e afirmou que pretende reduzir a carga tributária. Segundo ele, o volume de impostos é pesado demais para os empresários.

Os pontos fracos

A estrutura partidária

O PSL é um partido pequeno, sem abrangência nos estados e com poucos representantes no Congresso. Com apenas um deputado federal eleito em 2014 e apenas um aliado em sua coligação, o PRTB, Bolsonaro deve contar com apenas 15 segundos de tempo no horário eleitoral de rádio e TV.

A característica do discurso

As declarações polêmicas que tem dado ao longo de seu mandato e da campanha gera dois efeitos: cria uma espécie de teto para o presidenciável, pois agrada a parte do eleitorado que já admite voto para ele, e aumenta a rejeição que Bolsonaro tem de eleitores mais moderados.

O baixo apoio feminino

Uma série de declarações feitas por Bolsonaro fizeram dele um presidenciável com baixo apoio de mulheres à sua candidatura. Além do que falou à deputada Maria do Rosário, já disse em entrevistas ser a favor de que mulheres recebam salários menores que os dos homens. 

Os pontos fortes

A entrada nas redes sociais

O perfil “linha dura” de Bolsonaro fez com que ele ganhasse a simpatia de um eleitorado conservador e bastante fiel, que o defende de forma ativa nas redes sociais. O candidato conta com milhões de apoiadores na internet, incluindo canais extraoficiais bastante ativos.

O discurso da segurança

O militar da reserva é visto com bons olhos por eleitores que consideram a segurança pública um dos principais problemas do Brasil. No Rio, colégio eleitoral do deputado federal, os problemas da violência foram justificativa para uma intervenção federal no estado em fevereiro de 2018.

Não é alvo de denúncias de corrupção

O deputado federal se apresenta como um político “ficha limpa” e acaba se descolando de uma parte da classe política atingida pelas denúncias de corrupção, em especial após a Operação da Lava Jato. No fim, é beneficiado pela crise de representatividade pela qual passa o Brasil.

Quem é seu vice

O general Antônio Hamilton Mourão (PRTB) foi anunciado dia 5 de agosto como vice na chapa presidencial de Bolsonaro. O militar, que passou à reserva do Exército em fevereiro de 2018, foi escolhido após negativa ou desacertos com quatro outros nomes, entre os quais a advogada Janaína Paschoal, uma das autoras do pedido de impeachment de Dilma Rousseff.

A indicação de Mourão reforça o perfil conservador da chapa e oferece pouca possibilidade de Bolsonaro ampliar seus discursos para além de um nicho já conquistado. A entrada na aliança do partido de Mourão, o PRTB, agregará poucos segundos ao tempo de propaganda de rádio e TV, também pequeno, que Bolsonaro já tinha.

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que Bolsonaro nasceu em Campinas. Na verdade, foi em Glicério, também no interior paulista. Campinas foi a cidade onde o político foi registrado. A informação foi corrigida às 17h28 de 12 de março de 2019.

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