Foto: Diário da CPTM

Decreto do governador Márcio França que institui a alteração foi publicado no Diário Oficial no dia 24 de julho
 

A Praça da Liberdade e a estação Liberdade do metrô, localizadas no centro de São Paulo, passam a contar com a palavra “Japão” no nome, após um decreto do governador Márcio França (PSB), publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo no dia 24 de julho.

A alteração foi defendida em 2017 por um projeto de lei dos vereadores Ota (PSB) e Milton Leite (DEM). Entre as justificativas apresentadas para o PL estão a comemoração aos 110 anos da Imigração Japonesa no Brasil e o status do bairro como reduto da maior colônia nipônica fora do Japão.

Um post no Facebook feito pelo advogado Renato Igarashi no dia 26 de julho, entretanto, com milhares de curtidas e compartilhamentos, contesta a mudança e levanta questões sobre memória, patrimônio, identidade e raça, embutidas no novo nome dado ao local.

A primeira ressalva feita é que a referência oficial à imigração japonesa ignora o fato de que o bairro concentra hoje, também, chineses, coreanos, imigrantes de outros países asiáticos e seus descendentes.

“O turista mais atento pode perceber que imigrantes de outros países do oriente também são encontrados com frequência na região. Mas a despeito disso, o bairro ainda concentra manifestações culturais nipônicas”, justifica o projeto de lei de Ota e Leite.

Mas a principal crítica de Igarashi remete não ao presente, mas ao passado do bairro: “inegavelmente negro” em sua origem, teve a história de ocupação por escravos e negros libertos apagada.

“Lamentável usar uma (desnecessária) homenagem a nikkeis [descendentes de japoneses] para reforçar uma política histórica de antinegritude”, escreveu.

Em entrevista ao Nexo, Ana Barone, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e coordenadora do LabRaça, falou sobre a alteração do nome da praça, as origens do bairro e os processos de ocultamento da memória negra na capital paulista.

A história da Liberdade

A ocupação do local onde se localiza hoje o bairro da Liberdade foi capitaneada pelo Cacique Caiubi, no século 16, alguns anos depois da fundação da cidade de São Paulo. Em 1560, por ordem do Governador Geral da Capitania, Mem de Sá, implantou-se uma aldeia ao sul da matriz da Sé, na direção dos caminhos que levavam a Santo Amaro.

A primeira ocupação do local, portanto, foi de aldeamentos indígenas, seguidos, pela aldeia de colonização do Colégio Jesuíta, constituída por portugueses e mestiços.

No início do século 17 foram implantados o pelourinho, junto ao Paço de São Gonçalo (atual Praça João Mendes) e a forca da cidade, no local em que hoje está a Praça da Liberdade.

Junto à forca, em 1775, foi construída a Capela dos Aflitos, onde eram enterrados os indigentes, os escravizados que não pertenciam à Irmandade do Rosário e os criminosos.

“Esses instrumentos de tortura e morte foram implantados nesses lugares para não ‘incomodarem’, pois esse pedaço da cidade era percebido como os ‘fundos’”, disse a professora Ana Barone ao Nexo. “A ‘frente’ da cidade se voltava para os rios Tietê e Tamanduateí, chegada dos caminhos que vinham do Rio de Janeiro.”

A mudança de nome do bairro veio em 1821. O enforcamento do soldado negro Chaguinhas, que liderou uma revolta contra os atrasos de salários da categoria, provocou o clamor popular por liberdade.

A concentração de imigrantes japoneses no bairro começou a acontecer a partir da década de 1940, em torno, principalmente, da rua Galvão Bueno. A decoração oriental do bairro foi realizada em 1974, por iniciativa dos lojistas locais e apoio da Secretaria Municipal do Turismo.

“A memória do Bairro da Liberdade foi sendo esfumaçada à medida que se reforçou, a partir da década de 1970, a imagem da Liberdade como ‘bairro oriental’ da cidade, espelhando um pouco as ‘Chinatowns’ de algumas cidades norte-americanas, porém com forte apelo turístico e comercial, no caso paulistano”, disse Barone.

Segundo ela, esse “esfumaçamento” da memória do bairro está ligado a um processo maior de invisibilização das memórias da escravidão. Logo após a Proclamação da República, em 1889, houve, em 1890, a polêmica queima dos arquivos sobre o período escravocrata, promovida por Rui Barbosa.

Foram também apagados os aparatos de tortura do sistema colonial, como o pelourinho, a forca e o cemitério, antes localizados em praça pública.

Mudança

Barone identifica, no acréscimo da palavra Japão ao nome da praça e da estação, três tendências presentes na vida pública da cidade.

A primeira, mais recente,  é “a criação de notícias e fatos jornalísticos com apelo midiático, mas que em nada contribuem para a vida pública da cidade”.

“Nesse caso, assim como em outros exemplos atuais, busca-se associar lugares da cidade à suposta concentração de imigrantes de determinada origem, para dar ares pretensamente cosmopolitas à cidade”, disse a professora ao Nexo.

A segunda tendência é o apagamento da memória negra da cidade, sobretudo a partir da Proclamação da República, ocorrida um ano após a abolição da escravidão.

A terceira é a varredura do passado colonial do país, assim como das estruturas e equipamentos que faziam parte do modo de vida colonial.

“Essa tendência se fundamenta no propósito de construção do Brasil como uma nação moderna, sobretudo a partir da década de 1930. Todas as três materializam uma atitude política que nega uma parte da história do país e favorece outra”, disse Barone em entrevista.

São Paulo e a memória negra

O apagamento da memória negra na cidade não se deu somente no bairro da Liberdade. Outros dois exemplos emblemáticos, citados pela professora da FAU-USP Ana Barone, são a destruição da Irmandade do Rosário e a disputa pela identidade étnica do bairro do Bixiga.

Irmandade do Rosário

Desde a década de 1720, a Irmandade do Rosário, localizada na atual Praça Antônio Prado, abrigava famílias negras ligadas à Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, bem como um cemitério para pessoas negras.

Em 1873, o então presidente da província, João Teodoro Xavier, decidiu destruir o cemitério e os alojamentos da Irmandade para abrir espaço para a criação de um Largo para a igreja.

Em 1903, a Igreja do Rosário foi destruída para dar lugar a um Largo ainda maior, por ordem do então prefeito Antônio da Silva Prado. Nos anos seguintes, a Igreja foi reconstruída no largo do Paissandu. O alojamento para famílias negras e o cemitério jamais tiveram espaço nessa reconstrução.

Bixiga

No caso do bairro do Bixiga, a disputa pela identidade étnica associada à imigração italiana está presente desde o início do século 20, com o início das festividades dos devotos de Nossa Senhora de Achiropita.

Antes de ser ocupada por imigrantes, a Bela Vista, onde se localiza o Bixiga, era ocupada por mata e já havia sido utilizada como esconderijo de negros em fuga.

A urbanização deu lugar a lotes estreitos e profundos, ocupados por mais de uma família, onde os negros se instalavam nos fundos e os imigrantes brancos nas frentes das residências.

Há marcas da presença negra no bairro até hoje: ele é a sede, por exemplo, da Escola de Samba Vai-Vai. Outras instituições da vida social negra, como o jornal O Clarim da Alvorada, também ficavam no Bixiga.

Como preservar essa memória

“O apagamento da memória negra no Brasil não é uma característica específica da cidade de São Paulo, embora aqui esse processo tenha ganhado um contorno muito mais relevante que em outras cidades”, disse Barone.

Segundo ela, essa relevância decorre de uma política intensiva de substituição de mão de obra negra por imigrantes europeus, de 1870 até 1928, o que contribuiu para uma diminuição percentual da participação do negro na composição demográfica da cidade.

Para Barone, a primeira coisa a ser feita pela preservação da memória negra em São Paulo é o reconhecimento de locais da cidade, sejam edificações, ruas ou bairros, que guardam em sua história a memória negra.

“É o caso das igrejas, dos terreiros, das Escolas de Samba, mas também das antigas sedes dos cordões carnavalescos, dos clubes e associações negras e de outras formas da organização da vida social desse grupo na cidade”, disse.

O reconhecimento público desses locais requer disposição política para enfatizar a importância da presença negra e pesquisas que recuperem a história do povo negro em São Paulo e no Brasil.

“A partir desse reconhecimento, seria possível pensar em formas diversas para a adoção de políticas públicas de valorização e de preservação da memória negra na cidade e do patrimônio que ela envolve, e da garantia do direito de voltar a habitar os bairros identificados como importantes territórios negros no passado”, disse a professora.