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Quem é Mourão, o general da reserva que é vice de Bolsonaro

Oficial do Exército já falou em ‘intervenção’ em meio à crise e reforça perfil conservador e linha dura da chapa militar do candidato do PSL

     

    O general Antônio Hamilton Mourão (PRTB) foi anunciado no domingo (5) como vice na chapa presidencial de Jair Bolsonaro (PSL). O militar, que passou à reserva do Exército em fevereiro de 2018, foi escolhido após negativa ou desacertos com quatro outros nomes, entre os quais a advogada Janaína Paschoal, uma das autoras do pedido de impeachment de Dilma Rousseff.

    O anúncio foi feito por Bolsonaro num clube de Jaçanã, na zona norte de São Paulo. Expoentes da direita, como os filhos de Bolsonaro e o ex-ator Alexandre Frota, candidato a deputado federal pelo PSL, estavam no palanque, e discursaram para uma plateia na qual muitos espectadores vestiam camisetas com estampas militares.

    A indicação de Mourão reforça o perfil conservador da chapa e oferece pouca possibilidade de Bolsonaro ampliar seus discursos para além de um nicho já conquistado. A entrada na aliança do partido de Mourão, o PRTB, agregará poucos segundos ao tempo de propaganda de rádio e TV, também pequeno, que Bolsonaro já tinha.

     
    QUAL IDEIA ESTÁ EM JOGO
    Um vice-presidente tem a responsabilidade de assumir o país na ausência do titular, seja temporária (em viagens ou motivos de doença) ou definitiva (em caso de renúncia, impeachment ou morte). Durante o exercício temporário do cargo, o vice ganha as atribuições do titular, podendo, por exemplo, exonerar ou nomear funcionários. O cargo ganhou relevância durante a atual crise política, pois Dilma Rousseff, reeleita em 2014, sofreu impeachment dois anos depois numa articulação apoiada por seu próprio vice, Michel Temer. No período pós-redemocratização, o Brasil foi dirigido por três vices (José Sarney, que assumiu em 1985 após a morte de Tancredo Neves; Itamar Franco, que assumiu em 1992 após o impeachment de Fernando Collor; e Temer, que assumiu em 2016 após o impeachment de Dilma).

    Até sexta-feira (3), quando participou de entrevista no canal de TV GloboNews, Bolsonaro não considerava Mourão sequer um plano B, como demonstra a resposta a uma das perguntas a esse respeito, abaixo:

    “Ou [a vice] vai ser a senhora Janaína Paschoal, ou o senhor príncipe Luiz Philippe de Orleans e Bragança [...] A gente pensa em um plano B. No momento, o plano B é o príncipe”

    Jair Bolsonaro

    em entrevista à GloboNews, no dia 3 de agosto de 2018, numa referência à advogada do impeachment e ao descendente da família real brasileira

     

     

     

     

    O perfil de Mourão

    Eleitorado conservador

    O general reforça o discurso contra o PT, contra a corrupção e contra os políticos tradicionais. Ao lado de Bolsonaro, ele também redobra a mensagem de enaltecimento da ditadura militar (1964-1985) e de torturadores do regime. Essa atitude solidifica o apoio de um eleitorado conservador, agora também cobiçado pelo candidato do PSDB ao Planalto, Geraldo Alckmin.

    Um vice homem

    As principais chapas na eleição de 2018 estão formadas por dobradinhas de homens e mulheres, como Geraldo Alckmin e Ana Amélia (PP); Ciro Gomes e Kátia Abreu, ambos do PDT; e Marina Silva (Rede) e Eduardo Jorge (PV). No caso de Bolsonaro, a dobradinha foi feita com outro homem, que, como o próprio candidato à Presidência, também é militar.

    “No momento, eu deixo de ser capitão, o general Mourão deixa de ser general, nós passamos a ser a partir de agora soldados do nosso Brasil”

    Jair Bolsonaro

    em discurso no qual anunciou Mourão como seu vice, no dia 6 de agosto de 2018

    O discurso e o partido do vice

    O general da reserva ingressou no Exército em 1972, já no oitavo ano de vigência da ditadura militar. Ele foi aluno e, depois, instrutor, da Aman (Academia Militar das Agulhas Negras), no Rio de Janeiro – que Bolsonaro também frequentou –, além de ter sido adido militar do Brasil na Venezuela e de ter participado de missão de paz em Angola.

    O discurso de maior repercussão na carreira de Mourão ocorreu no dia 15 de setembro de 2017, quando ele ainda era general da ativa. Na ocasião, ele dava uma palestra na Loja Maçônica Grande Oriente, em Brasília, quando recebeu uma pergunta da plateia, por escrito, sobre a possibilidade de uma intervenção militar no Brasil.

    O país vivia, naquele momento, uma discussão sobre a segunda denúncia criminal contra o presidente Michel Temer, que a Câmara dos Deputados votaria no mês seguinte.

    Na resposta, gravada em vídeo, o general diz duas coisas opostas. Primeiro, ele negou a possibilidade de um golpe e disse que as Forças Armadas se atêm ao que diz a Constituição. Depois, explicou que, num caso extremo, os militares poderiam intervir.

    "É óbvio que, quando nós olhamos com temor e com tristeza os fatos que estão nos cercando, a gente diz: ‘pô, por que não vamos derrubar esse troço todo?"
    Ou as instituições solucionam o problema político pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós teremos que impor isso”
    “Os Poderes terão que buscar a solução. Se não conseguirem, chegará a hora em que nós teremos de impor uma solução. E essa imposição, ela não será fácil. Ela trará problemas. Pode ter certeza disso aí”

    General Antonio Hamilton Mourão

    em palestra na Loja Maçônica Grande Oriente, em Brasília, no dia 15 de setembro de 2017

    Três dias depois de ter dado essas declarações, em 18 de setembro de 2017, Mourão foi chamado a dar explicações ao comandante do Exército, o general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas.

    O conteúdo da conversa não é de conhecimento público. Porém, cinco meses depois da palestra na Loja Maçônica, quando Mourão passou à reserva, Villas Bôas publicou o seguinte post em sua conta no Twitter:

     

    Logo após o episódio na Loja Maçônica, Mourão disse que suas ideias haviam sido retiradas de contexto. Entre seus colegas de Exército, muitos disseram que o general havia apenas desenhado um cenário extremo e hipotético.

    Na cerimônia em que foi anunciado como vice de Bolsonaro, Mourão afirmou, em relação à pergunta recebida da plateia na Loja Maçônica: “Não fui feliz na forma como eu respondi”.

    No mesmo discurso da Loja Maçônica, ele disse que o Exército é criticado “de forma covarde” e “não coerente” pela participação no golpe de 1964 e pela ditadura de 21 anos que se seguiu.

    “A minha geração – e isso é uma coisa que as senhoras e os senhores têm de ter consciência – é marcada pelos sucessivos ataques que a nossa instituição recebeu, de forma covarde, de forma não coerente, com os fatos que ocorreram no período de 1964 a 1985, e isso marcou a geração”

    General Antonio Hamilton Mourão

    em palestra na Loja Maçônica Grande Oriente, em Brasília, no dia 15 de setembro de 2017

    O partido de Mourão, PRTB (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro), existe desde 1997 e é presidido por Levy Fidelix, que, em 2010 e 2014, disputou a presidência a terminou e, em ambas corridas, em 7º lugar, sempre com menos de 1% dos votos.

    O PRTB chegou a ocupar uma vaga de deputado federal por quatro meses em 2016, com o suplente Val Amélio, de Alagoas. Hoje não tem ninguém na Câmara.

    A estratégia por trás da escolha

    Mourão não amplia o eleitorado de Bolsonaro e agrega pouco tempo de televisão, capilaridade nacional ou experiência política à chapa.

    Segundo o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que é filho do candidato a presidente, o vice precisava “ser alguém que não compense correr atrás de um impeachment” de Bolsonaro. “Sempre aconselhei o meu pai: tem que botar um cara faca na caveira para ser vice”, disse o parlamentar ao jornal Folha de S.Paulo.

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