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A disputa de um museu dos EUA por estas obras, resolvida após 11 anos

‘Adão’ e ‘Eva’, pintadas pelo alemão Lucas Cranach, o Velho, no século 16, eram reivindicadas pela família de um antigo proprietário

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    Foto: Reprodução/Wikimedia Commons
    Obras "Adão" e "Eva", de Lucas Cranach, o velho, datam do século 16
    Obras "Adão" e "Eva", de Lucas Cranach, o velho, datam do século 16

    As representações das figuras bíblicas de Adão e Eva que você vê acima foram pintadas em 1530, e estão entre os principais retratos do Renascimento alemão.

    Elas foram feitas em tamanho real e são assinadas pelo pintor germânico Lucas Cranach, o Velho. Morto no século 16, Cranach ganhou fama por retratar nus baseados em temas como mitologia e religião.

    Ambas as peças motivaram uma disputa judicial que se estendeu por mais de 11 anos, e se encerrou na segunda-feira, 30 de julho. Expostos ao público há 47 anos no Museu Norton Simon, que fica na cidade de Pasadena, na Califórnia, os quadros de Adão e Eva eram reivindicados pela família de um dono de galeria que vive na Holanda.

    De origem judaica, Jacques Goudstikker comprou os quadros de Cranach em 1931, durante um leilão realizado em Berlim. O empresário se viu obrigado a deixar “Adão”, “Eva” e mais 1.200 outras obras de arte em sua galeria durante a invasão dos nazistas na Holanda em 1940.

    Na fuga com a família para a América do Sul, morreu a bordo de um navio, dias depois. Uma relação das obras, porém, foi guardada por sua esposa, Desi.

    Contra a vontade de Desi, as obras acabaram vendidas por uma fração muito menor de seu valor estimado a Hermann Göring, importante líder nazista.

    Com o término do conflito, porém, elas integraram as centenas de peças que  se tornaram posse do governo holandês. A esposa de Goudstikker tentou reavê-las entre 1946 e 1952, mas não obteve sucesso.

    Anos depois o país decidiu, novamente, negociá-las em 1966. George Stroganoff-Scherbatoff, ex-príncipe da Rússia que se declarava herdeiro original das pinturas, vendeu-as em definitivo ao bilionário americano Norton Simon. Em 1971, o museu que leva seu nome, então, passou a expor “Adão” e “Eva” ao público. Estão lá até hoje.

    Batalha judicial extensa

    A única “descendente” viva de Desi Goudstikker, porém, vinha reivindicando a posse das obras na Justiça. A primeira petição, negada pelo governo da Holanda, havia sido feita ainda em 1998.

    A alegação da holandesa Marei von Saher, nora de Desi, era de que a família não havia concordado com a venda inicial e, portanto, a aquisição do museu não era válida.

    Pela terceira vez desde 2007, von Saher perdeu a batalha judicial. Após análise da corte americana, foi decidido que as vendas realizadas pelo governo holandês eram válidas; sendo assim, a família não poderia reaver a obra.

    “Estamos em 2018, mais de uma década depois da data em que Von Saher registrou sua ação federal, nível que não precisava ser atingido, para finalmente decidir que os Cranachs que estão no Museu Norton Simon há quase 50 anos podem permanecer lá.”

    Trecho da decisão da juíza Kim McLane, favorável ao museu Norton Simon

    A decisão completa do juiz, que está disponível neste link, foi comemorada pela instituição onde as obras estão expostas.

    “Estamos gratos pela decisão judicial que confirmou, baseada na lei e nos fatos, que a Fundação de Arte Norton Simon é o dono legal dos painéis de Adão e Eva pintados por Lucas Cranach, o Velho”, disse o museu, em nota. “A decisão deve finalmente acabar com esse assunto. Estamos determinados em manter essas importantes obras de acesso ao público, como fazemos desde 1971.”

    O governo da Holanda já havia restituído a von Saher o direito sobre outras 202 obras. As peças foram vendidas em leilão no ano seguinte, rendendo um montante de US$ 10 milhões (cerca de R$ 37,5 milhões).

     

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