Ir direto ao conteúdo

O curta documental francês que denuncia a violência ginecológica

Feito pela diretora Nina Faure, filme discute e informa sobre os abusos cometidos por alguns médicos em procedimentos e consultas

 

Disponível no YouTube desde 27 de junho de 2018, o filme “Paye (pas) ton gynéco” – “(Não) pague o seu ginecologista”, em tradução livre –, mostra, em seus 20 minutos de duração, as violências ginecológicas e obstétricas a que mulheres são submetidas com frequência em consultas e procedimentos médicos.

Ao longo de um mês, o curta-metragem alcançou mais de 25 mil visualizações no YouTube. Legendas em inglês ou português ainda não estão disponíveis.

Feito pela documentarista francesa Nina Faure, o documentário discute e informa sobre os abusos cometidos por alguns médicos (que vão de observações sexistas e humilhantes a toques e penetrações desnecessárias).

Faure chega a registrar, por meio de uma câmera escondida, a conduta abusiva de um ginecologista com relação a ela própria, que se coloca como paciente.

“Paye (pas)...” tem início com a busca de Faure, no Google, de “como encontrar um bom ginecologista”.

O anterior foi abandonado por ela após uma experiência traumática de uma amiga com o mesmo médico: uma biópsia no colo do útero, procedimento invasivo e incômodo, feita de maneira descuidada, sem que a paciente fosse devidamente avisada do que estava por vir, segundo relata a colega de apartamento de Faure no documentário.

Chocada, ela diz ter começado a chorar imediatamente ao sentir a fisgada do instrumento que “belisca” o tecido do colo do útero, sentindo-se esgotada ao final do procedimento. Também destaca a posição – deitada, de pernas abertas – vulnerável em que as pacientes são obrigadas a ficar para realizar esse tipo de exame.

Esse episódio introduz a busca da documentarista por um novo ginecologista, procura que se politiza cada vez mais à medida que o filme avança.

Enquanto examina a Faure, o primeiro ginecologista encontrado comenta, ao tirar sua pressão, “não tê-la deixado muito excitada”.

A observação é “sintomática do sexismo que reina na profissão”, diz uma reportagem publicada no site da emissora pública belga RTBF.

Alguns relatos de outras mulheres que sofreram violências graves e de frases sexistas ouvidas por elas em consultas ginecológicas, registrados no blog Gyn&Co, são lidos por Faure no filme, no contexto de suas pesquisas na internet.

 

Além da perspectiva das pacientes, a documentarista também fala com estudantes de medicina e médicos, incluindo um que representa a especialidade dos ginecologistas.

À questão de que o exame de toque vaginal é uma penetração que pode ser incômoda e invasiva, colocada por Faure, o médico em questão, Bernard Hédon, responde que, para os médicos, trata-se de um exame clínico e não uma penetração, palavra de conotação sexual, reforçando “o caráter completamente não sexualizado” que o exame tem para o médico que o realiza.  

Diz ainda que o toque vaginal não é, pela medicina, considerado um exame invasivo, por não ser passível de complicações. “Então há uma diferença muito grande entre o que as pacientes consideram [invasivo] e o que é considerado invasivo pela medicina”, argumenta a documentarista no filme.

No documentário, Faure também pesquisa sobre o espéculo, o controverso instrumento usado em exames ginecológicos para afastar as paredes vaginais e tornar vagina, a vulva e o colo do útero visíveis. Ela mostra o instrumento a alguns homens, convidados a comentar sua aparência.

“Parece ter saído de um filme de terror”, disse um deles. “É primitivo, assustador e gelado”, comenta um outro.

Além de colocar em questão os abusos vivenciados por mulheres ao cuidar de sua saúde ginecológica, o curta também registra um vento de mudança – presente em ginecologistas e estudantes que começam a absorver uma ideia mais clara de respeito e consentimento; mulheres que passaram a questionar e se informar mais sobre sua saúde ginecológica e quais condutas médicas são ou não aceitáveis; e mesmo na revisão recente do legado do "pai da ginecologia moderna", James Marion Sims.

‘Libertar a voz das mulheres’

Em trecho de entrevista à televisão francesa, reproduzido pelo documentário, a jornalista Mélanie Déchalotte diz que os abusos ginecológicos são diversos e variados, tendo em comum, muitas vezes, um menosprezo pela dor sentida pelas pacientes.

Déchalotte é autora do livro “Le livre noir de la gynécologie – Maltraitances gynécologiques et obstétricales: libérer la parole des femmes” (“O livro negro da ginecologia – Abusos ginecológicos e obstétricos: libertar a voz das mulheres”, em tradução livre), de 2017, que reúne depoimentos de mulheres a respeito de suas experiências dolorosas nas consultas.

“Durante toda a vida, as mulheres confiam seus corpos às mãos de ginecologistas. Paternalismo, sexismo, exames brutais, falas fora de contexto ou culpabilizantes, humilhações, falta de consentimento, episiotomias supérfluas e induções abusivas ao parto...Se por muito tempo elas ignoraram ou tomaram os abusos médicos como inerentes à condição feminina, as mulheres agora ousam denunciar a violência física ou verbal de alguns médicos”, diz o sumário do livro.

A jornalista também produziu um documentário veiculado em 2015 na rádio France Culture sobre o mesmo tema, responsável por fazer com que muitas francesas tomassem conhecimento das violências sofridas e decidissem compartilhar suas experiências relacionadas ao tema. 

Ela afirma, ainda, que seu livro não é um ataque à profissão, mas uma denúncia das más práticas.

“Paye (pas) ton gynéco” também documenta a repercussão do “Livro Negro da Ginecologia”, recebido como um acinte por parte da classe médica francesa.

Tanto Déchalotte quanto Faure têm se dedicado, enquanto jornalistas, a acompanhar e visibilizar o número crescente de mulheres francesas que passaram a reconhecer e falar sobre as violências sofridas nesse contexto íntimo.

Nos comentários do vídeo no YouTube, dezenas de usuárias agradecem que o documentário tenha sido feito e algumas compartilham as próprias experiências.

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

Já é assinante?

Entre aqui

Continue sua leitura

Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: