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Este acervo compila games com referências LGBTQ

Lançado em 2015, site traz informações sobre jogos focados na temática LGBTQ, assim como aqueles que apenas fazem menções a essa população

Foto: Reprodução
Capa do jogo para computador GayBlade, lançado em 1992
Capa do jogo para computador GayBlade, lançado em 1992
 

Publicações independentes, grupos políticos, passeatas, a mobilização contra o HIV, a vida noturna e a sociabilidade LGBT estão tradicionalmente no foco de quem estuda o tema. Criado em 2015, o LGBTQ Games Archive aborda um tópico menos explorado: os jogos com essa temática.

A plataforma foi lançada por Adrienne Shaw, professora de estudos midiáticos da universidade americana Temple University, na Filadélfia. Ela é financiada com verbas da universidade destinadas a pesquisas digitais e por uma bolsa do governo canadense voltada para cultura de videogames.

O site é alimentado por estagiários pagos e por voluntários. Em entrevista publicada em julho de 2018 no site focado em videogames Kotaku, Shaw afirmou que:

“Eu penso de uma forma muito prática, a maior parte das pessoas que trabalham com temas queer são estudantes de graduação ou pessoas com situações precárias de emprego. Eu tenho os recursos, o interesse e o treinamento para fazer esse tipo de trabalho, e eu acho que realmente é a culminação de sorte.”

O texto de apresentação do site afirma que o objetivo do arquivo é servir de referência para pesquisadores, jornalistas, críticos, desenvolvedores, entusiastas de jogos e “qualquer pessoa que estiver interessada em aprender sobre a história do conteúdo LGBTQ em videogames”.

O site organiza informações sobre jogos criados a partir da década de 1970. O site traz referências tanto a jogos focados especificamente na temática LGBTQ quanto àqueles que possuem apenas alguma citação ou personagem que se relacione a ela.

Citado na reportagem do Kotaku, o jogo para computador GayBlade entra na primeira categoria. Ele foi lançado em 1992 pelo desenvolvedor Ryan Best. Nele, o jogador é convidado a resgatar a Imperatriz Nelda de “criaturas nojentas de direita que habitam o calabouço”, segundo o manual. Entre os inimigos estão tele-evangélicos e jovens apoiadores do Partido Republicano americano.

O grupo que vai ao resgate da imperatriz é formado por drag queens, lésbicas e queers, entre outros. As armaduras são itens como jaquetas de couro, tiaras, camisinhas e aventais. E as armas incluem bolsas, unhas postiças e secadores de cabelos.

O verbete dedicado ao jogo inclui uma entrevista conduzida por Shaw com o desenvolvedor Ryan Best. Nela, ele afirma que desenvolveu originalmente o código para um outro jogo, “Citadel of the Dead”, mas que havia fechado um acordo ruim e fora incapaz de ganhar dinheiro com as vendas.

Ele reaproveitou o código para criar GayBlade, que serviu como uma forma de terapia para trabalhar memórias dolorosas de sua juventude no estado de Illinois. O jogo recebeu muita atenção da imprensa na época, e vendeu milhares de cópias.

“De uma forma muito real, GayBlade se tornou minha terapia. Eu coloquei todo tipo de pessoa que tinha feito bullying comigo no jogo como algum monstro que precisava ser destruído. E, quer saber? Eu não me importo mais. Quando o jogo foi finalizado e lançado, foi como se toda a minha carga emocional tivesse ido embora. Eu me sentia confiante e parei de ser intimidado por minhas memórias de Illinois. Foi muito empoderador”

Ryan Best

Desenvolvedor do jogo GayBlade, em entrevista para o LGBTQ Game Archive

Além de pesquisar pelo nome de cada jogo, é possível também navegar o arquivo por tópicos como identidade de gênero ou orientação sexual do personagem, cenários LGBTQ nos jogos, assim como referências transfóbicas ou homofóbicas presentes em videogames.

Por exemplo: a forma como prostitutas transgênero são apresentadas e tratadas no jogo Grand Theft Auto V. Segundo o arquivo, elas são representadas de forma estereotípica, e podem ser cumprimentadas com a frase transfóbica “Olá, senhor, quero dizer, senhora”.

Uma sessão compila artigos acadêmicos em inglês publicados por Adrienne Shaw e outros colaboradores com base no LGBT Game Archive Project, assim como artigos de pessoas não diretamente associadas que o utilizaram como referência.

Entre eles está um trabalho de pesquisadores brasileiros ligados à produtora de videogames Faísca, publicado em 2017 no congresso da Sociedade Brasileira de Computação. Intitulado “Identidades queer em videogames: Visualização de dados para uma análise quantitativa da representação”, o artigo quantificou as identidades representadas nos games compilados pelo arquivo.

E afirma que: “o número de casos de personagens queer nos jogos aumentou, e o mesmo vale para para a análise de [tipos de] sexualidades e identidades de gênero individuais”.

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