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Estas são as chapas presidenciais para a eleição de 2018

Período de convenções acaba e abre caminho para a campanha, que ocorrerá em meio a uma grave crise de representatividade

 

Os partidos concluíram no domingo (5) seu período de convenções, em que escolhem seus candidatos para as eleições de 2018. Foram apresentadas 13 candidaturas presidenciais e seus vices.

A quantidade de nomes que pretendem disputar o comando do país só não é maior do que em 1989, quando o Brasil teve sua primeira disputa presidencial após duas décadas de ditadura militar. Naquele ano, foram 22 postulantes ao Palácio do Planalto.

As eleições de 2018, em que também serão escolhidos governadores, senadores e deputados, ocorrem num cenário de crise política e econômica, com a representatividade dos partidos colocada em xeque e com o surgimento de manifestações públicas de apelo a saídas autoritárias, como demonstrado na mais recente paralisação nacional de caminhoneiros.

O contexto da crise de representatividade

O atual momento é decorrente de uma sequência de fatos que se desenrolaram ao longo da década. Em 2012, o Supremo Tribunal Federal condenou a cúpula do PT no escândalo do mensalão. Fato raro no Brasil, políticos importantes foram mandados para a cadeia.

Ali surgia a figura dos juízes como heróis nacionais. A política e sua capacidade de intermediar soluções passavam a ser questionadas. Joaquim Barbosa, ministro-relator no processo do mensalão, era recorrentemente comparado à figura de Batman, o super-herói justiceiro da fictícia Gotham City.

Em junho de 2013, o Brasil registrou uma série de manifestações, que começaram por uma questão de aumento de passagens de ônibus em grandes centros urbanos e acabaram se transformando em protestos difusos, com reivindicações múltiplas, do combate à corrupção à melhoria dos serviços públicos, num fenômeno para o qual até hoje analistas buscam explicações.

Em março de 2014 foi deflagrada a Lava Jato. Policiais federais e procuradores da República em Curitiba apontaram um megaesquema de corrupção envolvendo contratos da Petrobras, maior estatal brasileira. O juiz Sergio Moro, responsável por decisões da operação, despontou como figura que transcendia suas sentenças.

Praticamente todos os grandes e médios partidos foram tragados pelo escândalo. As investigações foram ampliadas para além da estatal de petróleo, chegando a obras de infraestrutura nos estados e esquemas nas votações do Congresso. Outras instâncias do Ministério Público Federal passaram a deflagrar novas operações

As suspeitas de corrupção no Brasil não eram novas, mas sua amplitude, além das punições a grandes empresários e políticos, sim, e de uma forma mais abrangente do que já havia sido experimentado no mensalão. A Lava Jato não avançou sem questionamentos, em especial a seus métodos e interpretações dos dispositivos legais.

A operação e suas revelações não foram o motivo oficial, mas ajudaram a criar o ambiente para a queda de Dilma Rousseff da Presidência da República em 2016. A petista caiu por manobras fiscais, em meio a uma recessão econômica, uma das mais graves da história brasileira. Foi alvo de grandes manifestações espalhadas pelo Brasil, em que a figura de Sergio Moro era celebrada. Sofreu o impeachment por um Congresso acuado por escândalos.

Substituto de Dilma, o vice que ascendeu ao poder, Michel Temer, engrossou a lista de denunciados por corrupção, assim como alguns apoiadores diretos, como o senador tucano Aécio Neves, derrotado pelo PT nas eleições presidenciais mais recentes, de 2014. Temer só não caiu porque contou com o apoio do Congresso, onde os deputados congelaram as denúncias contra ele apresentadas pelo Ministério Público. O quadro de escândalos generalizados estava completo e a descrença do eleitorado na política tradicional, reforçada.

A crise começou a atingir diretamente a configuração da atual campanha eleitoral quando Luiz Inácio Lula da Silva, que governou o Brasil de 2003 a 2010 e voltava a postular a Presidência, foi condenado por corrupção e lavagem de dinheiro pelo juiz Sergio Moro em 2017, no caso tríplex do Guarujá, que integra a Lava Jato. Três desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, confirmaram a condenação em janeiro de 2018, impondo ao petista uma pena de 12 anos e 1 mês de detenção. Líder nas pesquisas de intenção de voto, Lula foi preso em abril.

Enquanto isso, o quadro da crise de representatividade levava para a arena eleitoral nomes sem associação com a política tradicional, os chamados outsiders. O apresentador de TV Luciano Huck e o próprio Joaquim Barbosa, o relator do mensalão já aposentado do Supremo, chegaram a ser cogitados como candidatos presidenciais, mas desistiram da empreitada.

Agora, com o fim das convenções partidárias e às vésperas do início oficial da campanha eleitoral, em 16 de agosto, Lula permanece como ponto de maior incerteza da disputa. É pouco provável que ele consiga levar a candidatura até o fim, em razão das restrições da Lei da Ficha Limpa. Mas o momento de uma eventual cassação ainda é uma incógnita, assim como a capacidade do ex-presidente de transferir seus votos para um possível substituto.

De olho no calendário

15 DE AGOSTO

Prazo para o registro oficial das candidaturas na Justiça Eleitoral.

 

16 DE AGOSTO

Começo oficial da campanha, quando os candidatos podem pedir voto.

 

31 DE AGOSTO

Começo dos programas eleitorais dos candidatos no rádio e na TV.

 

7 DE OUTUBRO

Primeiro turno para presidente, governadores, senadores e deputados.

 

28 DE OUTUBRO

Segundo turno para disputas de executivo sem maioria absoluta.

Abaixo, o Nexo lista as 13 chapas presidenciais definidas após as convenções partidárias e mostra como elas se apresentam no contexto da atual crise de representatividade.

Lula: o discurso popular

O candidato petista é líder nas pesquisas de intenção de voto, mas está preso em Curitiba. Ele poderá ser impugnado a partir de 15 de agosto, quando registrar sua candidatura. Pela Lei da Ficha Limpa, políticos condenados por órgãos judiciais colegiados não podem disputar eleições, como é o caso de Lula. Há dúvidas sobre o momento de uma eventual cassação. O PT diz que o objetivo da condenação, da prisão e da possível cassação da candidatura é evitar que um líder de forte apelo popular volte ao comando do país. Mesmo sabendo das poucas chances de tê-lo na urna em outubro, o partido mantém o ex-presidente na disputa como forma de unir a militância e fortalecer suas candidaturas parlamentares. Conta ainda com a possibilidade de Lula transferir votos para um substituto quando for de fato cassado. O PT poderá ter um novo candidato se isso ocorrer até 20 dias antes da votação do primeiro turno. O nome cotado é Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo e coordenador do programa de governo petista. No domingo (5) à noite, Haddad foi apontado como candidato a vice de Lula, que tem o apoio de outros três partidos menores, entre eles o PCdoB de Manuela D'Ávila, que chegou a ser lançada como candidata ao Planalto. O PCdoB pode assumir a vaga de vice em caso de cassação de Lula e ascensão de Haddad para a cabeça de chapa.

Bolsonaro: o discurso antissistema

Candidato pelo PSL, o capitão da reserva Jair Bolsonaro é um dos principais beneficiados pela crise de representatividade pela qual passa o Brasil. Ele reúne um eleitorado antipetista, com discurso de apelo moral que condena os políticos tradicionais. Bolsonaro entrou para a política em 1988, quando elegeu-se vereador no Rio de Janeiro, e está no sétimo mandato sucessivo como deputado federal. Ele defende a ditadura militar, é conservador nos costumes, crítico de políticas identitárias e tem defendido uma agenda liberal na economia. Terá como vice outro militar, o general da reserva Hamilton Mourão, do PRTB. É uma aliança de partidos pequenos, portanto a chapa terá pouco tempo de rádio e TV na propaganda eleitoral. Aposta, no entanto, na boa entrada que tem nas redes sociais, assim como no engajamento de seus eleitores mais fiéis.

Marina: o discurso da via alternativa

Na sua terceira campanha presidencial, agora com o próprio partido, a Rede Sustentabilidade, Marina Silva terá pouca estrutura na campanha, assim como pouco tempo de rádio e TV. Sua aliança é com o PV, de onde saiu seu vice, Eduardo Jorge. A aliança, portanto, une dois partidos pequenos. Em 2014, com o Brasil já vivendo sua crise de representatividade, Marina ganhou projeção e quase foi ao segundo turno, assumindo um discurso de “nova política” e tentando romper a polarização entre PT e PSDB que monopolizava as disputas presidenciais anteriores, e que acabou se confirmando também naquela eleição. Ao ser lançada no domingo (5), a candidata da Rede admitiu os problemas que terá de enfrentar na campanha, mas afirmou que seu objetivo é “derrotar estruturas”.

Ciro: o discurso desenvolvimentista

Ciro Gomes, do PDT, já se lançou outras duas vezes ao Palácio do Planalto, sem sucesso, mas viu em 2018 uma oportunidade única de despontar como um nome da centro-esquerda nas eleições. Afinal, Lula se tornou alvo da Lava Jato, foi preso e tem alta possibilidade de ter a candidatura cassada. Dessa forma, apostou desde cedo na candidatura, reforçando seu discurso desenvolvimentista, com sinais ao eleitorado petista. Mas de dentro da cadeia, Lula se manteve central nas articulações e conseguiu que o PSB, partido importante da centro-esquerda, ficasse neutro na disputa presidencial, isolando Ciro e mantendo a hegemonia petista nesse campo político. O candidato do PDT também negociou com a centro-direita, incluindo partidos do chamado centrão, mas não fechou acordos. Por fim, anunciou como vice a também pedetista Kátia Abreu, senadora ligada ao agronegócio.

Alckmin: o discurso da estabilidade

Geraldo Alckmin tenta chegar ao Palácio do Planalto pela segunda vez. Tem baixa intenção de voto, mas aposta alto nas alianças com partidos tradicionais para impulsionar a candidatura, que terá o maior tempo de rádio e TV na campanha. O candidato do PSDB fechou com o centrão, grupo de partidos de centro-direita que costuma garantir maiorias para presidentes da República, independentemente de sua orientação ideológica. Sua coligação terá quase uma dezena de partidos, algo que também garante uma boa estrutura nos estados. A ampla aliança é apontada pelo candidato como trunfo para garantir a aprovação de seus projetos e manter a estabilidade política uma vez eleito. O tucano terá a senadora do PP gaúcho, Ana Amélia, como vice. Ela tem um perfil conservador e é uma das apostas de Alckmin para conquistar o eleitorado de Jair Bolsonaro.

Alvaro Dias: o discurso pró-Lava Jato

Senador pelo Podemos, antigo PTN, Alvaro Dias aposta no discurso de combate à corrupção, celebrando a Operação Lava Jato e chegando até a dizer que chamará o juiz Sergio Moro para compor sua equipe caso seja eleito em outubro. Dias é ex-tucano e participou de CPIs abertas para apurar escândalos dos governos petistas. Antes disso, foi governador do Paraná. Ele tem como vice Paulo Rabello de Castro, do pequeno PSC, que foi presidente do BNDES (Banco de Desenvolvimento Econômico e Social) na gestão Michel Temer. Os outros dois pequenos partidos integram a coligação. 

Meirelles: o discurso administrativo

Presidente do Banco Central no governo Lula e ministro da Fazenda no governo Michel Temer, Henrique Meirelles o é primeiro candidato próprio do MDB numa disputa presidencial desde 1994, quando o partido lançou Orestes Quércia. Ele lida com o fato de estar associado ao presidente da República, cujo governo é o mais mal avaliado da história recente brasileira. Meirelles terá como vice o ex-governador gaúcho Germano Rigotto, também do MDB, e aposta num discurso de experiência administrativa na área econômica para atingir o eleitor.

Boulos: o discurso da distribuição

Guilherme Boulos é líder de um movimento social, o MTST, de luta por moradia para os sem-teto, e acabou se filiando ao PSOL em 2018. Apresentou sua candidatura com a chapa completa: a vice é a líder indígena Sônia Guajajara, também do PSOL. Boulos tem um discurso focado na distribuição de renda.

Amoêdo: o discurso do liberalismo econômico

João Amoêdo fundou um partido, o Novo, no qual prega novas práticas, associadas à sua experiência no setor privado. Ex-executivo de bancos, Amoêdo tem como foco a liberalização da economia, mas é um conservador nos costumes. Seu vice é Christian Lohbauer, também do Novo e ligado à direção de grandes empresas.

João Goulart Filho: o discurso trabalhista

Filho de João Goulart, presidente deposto pelos militares no golpe de 1964, o político do PPL busca resgatar o legado trabalhista do pai. Ele terá como vice Léo Alves, do mesmo partido.

Cabo Daciolo: o discurso religioso

Cabo Daciolo é o candidato do Patriotas, mesmo partido da vice na chapa, Suelene Balduino Nascimento. Deputado, Daciolo já apresentou uma proposta para mudar o trecho da Constituição que diz que “todo poder emana do povo”. Queria incluir Deus na frase.

Eymael: o discurso ‘democrata cristão’

José Maria Eymael é candidato à Presidência pela quinta vez. O folclórico nome da Democracia Cristã, antigo PSDC, é mais conhecido pelo seu famoso jingle “Ey, Ey, Eymael, um democrata cristão”. Seu vice é Helvio Costa, também integrante da DC.

Vera Lúcia: o discurso ‘contra burguês’

Vera Lúcia é a candidata do PSTU à Presidência. Dissidência do PT, o partido costuma marcar presença nas eleições com seu bordão “contra burguês, vote 16”. O vice é Hertz Dias, também do PSTU.

Todas as eleições pós-redemocratização

O CAÇADOR DE MARAJÁS

22 candidatos disputaram as eleições presidenciais de 1989, excluindo a candidatura de Silvio Santos, que acabou cassada. A vitória foi de um outsider com discurso contra mordomias do setor público e contra a corrupção, Fernando Collor, do pequeno PRN, no segundo turno contra Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Collor viria a sofrer impeachment em 1992.

 

O PAI DO PLANO REAL

10 candidatos disputaram as eleições presidenciais de 1994, quando o MDB lançou nome próprio pela última vez até aqui. A disputa foi vencida ainda no primeiro turno por Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, na esteira do sucesso do Plano Real, que controlou a inflação galopante dos anos anteriores.

 

A PROMESSA DE MANUTENÇÃO

12 candidatos disputaram as eleições presidenciais de 1998, quando o Brasil passou a adotar o sistema de reeleição para cargos do executivo. A disputa foi vencida ainda no primeiro turno por Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, reeleito com a promessa de manutenção da estabilidade econômica.

 

LULINHA PAZ E AMOR

6 candidatos disputaram as eleições presidenciais de 2002, quando o Brasil passava por uma crise econômica e energética. A disputa foi vencida por Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, com um discurso moderado, mas com forte apelo social. Ele derrotou José Serra, do PSDB, no segundo turno.

 

O SUCESSO DO BOLSA FAMÍLIA

8 candidatos disputaram a eleição presidencial de 2006, quando o Brasil registrava melhora da economia. A disputa foi vencida por Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, reeleito na esteira do sucesso de programas de combate à miséria, como o Bolsa Família. Ele derrotou Geraldo Alckmin, do PSDB, no segundo turno.

 

A MÃE DO PAC

9 candidatos disputaram a eleição presidencial de 2010, quando o Brasil registrava altos índices de crescimento. A disputa foi vencida por Dilma Rousseff, afilhada política de Lula, apontada como herdeira de um governo com alta popularidade. Ela derrotou José Serra, do PSDB, no segundo turno.

 

A PROMESSA DE MANUTENÇÃO

11 candidatos disputaram a eleição presidencial de 2014, quando a economia já dava sinais de instabilidade. A disputa foi vencida por Dilma Rousseff, do PT, reeleita com a promessa de manter empregos e avançar socialmente. Ele derrotou Aécio Neves, do PSDB, no segundo turno. Sofreu impeachment em 2016.

 

A ELEIÇÃO EM DISPUTA

13 candidatos se lançaram para a eleição presidencial de 2018, em meio a uma crise econômica e de representatividade. Lula, líder nas pesquisas, está preso e deve ter a candidatura cassada pela Lei da Ficha Limpa. Sem ele, o número de indecisos e de quem diz que votará nulo ou em branco dispara.

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